‘Succession’: a complexa arte de satirizar e empatizar com o 1%

Em ‘Succession’, Jesse Armstrong constrói um paradoxo narrativo: satirizar bilionários enquanto cria empatia genuína por eles. Analisamos o mecanismo que permite essa transição da zomposição à compaixão — e como elenco e direção orquestram essa arquitetura emocional.

Há um truque de prestidigitação narrativa em Succession que deveria ser impossível. A série nos apresenta pessoas que, na vida real, desejaríamos ver presas — bilionários herdeiros que nunca trabalharam um dia honesto, que tratam empregados como mobília, que vivem em torres de marfim enquanto o mundo queima. E então, de alguma forma, faz a gente torcer por eles. Não é manipulação barata. É arquitetura emocional de altíssimo nível.

O criador Jesse Armstrong construiu algo que desafia a lógica: uma sátira ferina do 1% que simultaneamente funciona como drama profundamente comoovedor. Você ri da grotesca alienação dos Roy, mas também sente o vazio existencial que nenhum cofre consegue preencher. Esse equilíbrio — rir de alguém e chorar por ele no mesmo episódio, às vezes no mesmo minuto — é o que separa Succession de qualquer outra coisa na TV atual.

De ‘Arrested Development’ a algo mais sombrio: a evolução da sátira de ricos

De 'Arrested Development' a algo mais sombrio: a evolução da sátira de ricos

Comparar Succession com Arrested Development é inevitável e instrutivo. Ambas retratam famílias ricas disfuncionais, escândalos corporativos, filhos incompetentes disputando herança. Mas há uma diferença fundamental que explica por que uma é comédia pura e a outra habita território mais ambíguo: os Bluth são caricaturas. Os Roy são pessoas.

Quando Roman Roy faz uma piada grotesca sobre seu pai morrer, você ri — mas também percebe que aquilo é um mecanismo de defesa nascido de décadas de abuso emocional. Quando Kendall tenta se afirmar como CEO digno de respeito, o ridículo é real, mas a dor por trás dele também. Armstrong entendeu que sátira e drama não são opostos — são vizinhos de porta. A mesma cena pode funcionar como os dois, dependendo de onde você coloca a câmera emocional.

O elenco como ponte para a humanidade

Nenhum mecanismo narrativo funciona sem o elenco certo, e aqui está o segredo de Succession: cada ator trouxe uma qualidade específica que transforma personagens teoricamente odiáveis em figuras complexas. Brian Cox poderia ter feito Logan Roy como um monstro unidimensional — e ninguém reclamaria, porque o roteiro permite essa leitura. Mas ele escolheu adicionar camadas de humor seco e, nas raras fissuras da armadura, uma exaustão existencial que sugere um homem que sabe que construiu um império sobre areia movediça.

Matthew Macfadyen talvez seja o exemplo mais fascinante. Tom Wambsgans é, em teoria, tudo que deveríamos desprezar: um arrivista rasteiro, um opressor de subordinados, um homem que se casa por poder. Mas Macfadyen injeta uma insegurança palpável, uma necessidade de aprovação tão crua que acaba gerando compaixão. O monólogo de Tom para Shiv — ‘the sad I’d be without you’ — é momento de antologia porque revela que, sob o oportunista, há alguém genuinamente desesperado por conexão. Você não perdoa Tom. Mas você o entende.

As feridas que o dinheiro não cura

As feridas que o dinheiro não cura

Ao longo de quatro temporadas, Succession desvela sistematicamente o que está por trás da fachada de poder. Cada membro da família carrega um tipo específico de vazio. Kendall luta contra uma adicção que claramente nasce de algo mais profundo que excessos de festa — é automedicação para uma dor de rejeição paternal que nunca cicatriza. Roman tem um bloqueio em torno de intimidade física que funciona como sintoma de algo não dito, possivelmente abuso. Shiv construiu uma armadura de cinismo que mal esconde a necessidade desesperada de ser levada a sério pelo pai que a trata como peça de xadrez.

E há Logan. As cicatrizes nas costas dele, mencionadas brevemente na terceira temporada, sugerem uma infância de horrores que a série nunca precisa explicitar. Isso é genial: não precisamos ver o abuso original para entender que a violência é hereditária. Logan foi vítima antes de ser algoz. O ciclo se repete. Nenhum dos filhos terá uma relação saudável com outro ser humano porque nenhum deles teve um modelo do que isso significa. As relações dos Roy são todas transacionais ou tóxicas — frequentemente ambas.

A direção invisível de Mark Mylod e a estética do desconforto

O mérito não é apenas do roteiro. A direção recorrente de Mark Mylod (que assina episódios centrais como o casamento de Shiv e o monumental ‘Connor’s Wedding’) constrói uma estética do desconforto. A câmera se move em handheld nervoso durante confrontos, zooms súbitos invadem o espaço pessoal dos personagens, e os enquadramentos frequentemente deixam rostos parcialmente cortados — como se a série se recusasse a dar a esses personagens a dignidade de um retrato completo.

A fotografia opera em tons frios e desaturados, como se o mundo dos Roy fosse drenado de cor genuína. Os interiores são opulentos mas claustrofóbicos — iates, penthouses, castelos europeus que mais parecem jaulas douradas. Não há calor visual em lugar nenhum. A série é visualmente tão fria quanto os personagens que retrata, e essa coerência estética reforça a tese central: dinheiro compra tudo, exceto o que importa.

O legado de ‘Mad Men’ e ‘Família Soprano’: uma tradição de anti-heróis

O legado de 'Mad Men' e 'Família Soprano': uma tradição de anti-heróis

Succession herda uma tradição que inclui Tony Soprano e Don Draper: a arte de fazer o público empatizar com pessoas que, encontradas no mundo real, seriam insuportáveis. Mas há uma diferença crucial. Tony Soprano era um gangster que matava pessoas — e ainda assim nos fazia cuidar dele. Don Draper era um publicitário que mentia para todos ao seu redor — e torcíamos para ele encontrar alguma verdade. Os Roy estão em categoria similar de anti-heróis, mas seu crime é mais difuso e mais atual: eles são símbolos de uma desigualdade que destrói vidas em escala global.

A série não pede desculpas por isso. Não há redenção fácil. Quando Kendall finalmente parece alcançar algum crescimento, o roteiro o puxa de volta para o vício em aprovação paternal. Quando Shiv mostra vulnerabilidade, ela imediatamente a enterra sob cálculos políticos. Isso mantém a tensão dramática intacta: você nunca sabe se alguém vai realmente evoluir, porque pessoas assim raramente evoluem na vida real.

O equilíbrio tonal que não deveria funcionar — mas funciona

Aqui está o maior risco que Succession assume: alternar entre comédia mordaz e drama genuíno sem que nenhum dos dois soe falso. A maioria das séries falha nisso. Ou o humor mina o peso emocional, ou o drama torna o riso desconfortável. Armstrong encontrou uma terceira via: tratar ambos como verdadeiros simultaneamente.

A cena do casamento de Shiv no final da primeira temporada é exemplo perfeito. Roman está em uma posição absurda, tentando provar sua virilidade com uma mulher que claramente não o quer. Kendall está em crise de abstinência e rejeição. Tom está percebendo em tempo real que está se casando com alguém que não o ama. Tudo isso é tragicômico no sentido mais literal: você ri do absurdo, mas a dor ali exposta é real. Não há contradição. A vida de pessoas ricas e infelizes pode ser simultaneamente ridícula e devastadora.

Esse é o mecanismo central que permite a transição da zomposição à compaixão: a série nunca mente sobre quem esses personagens são. Ela não pede que você os perdoe. Apenas mostra que, por trás da riqueza que deveria comprar felicidade, existe a mesma miséria emocional que acomete qualquer um de nós. O dinheiro é irrelevante para a dor de não ser amado pelo pai.

Veredito: para quem é — e para quem não é

Se você busca escapismo puro, Succession não é sua série. Não há heróis claros, não há vilões fáceis, não há resoluções satisfatórias no sentido tradicional. Mas se você aprecia narrativa que assume riscos, que confia na sua inteligência para habitar ambiguidades, que faz você rir e depois se perguntar por que está rindo — isso é essencial.

A série envelhece como vinho porque seu tema só se torna mais relevante. A distância entre os que têm e os que não têm aumenta. Escândalos de bilionários aparecem nas manchetes diariamente. Succession capturou algo sobre nosso momento histórico: a fúria legítima contra os ultra-ricos e a compreensão incômoda de que, no fim, eles são tão perdidos quanto qualquer um de nós. A diferença é que eles têm recursos para enterrar sua infelicidade em iates particulares. Isso não torna a infelicidade menor. Apenas a torna mais isolada.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre Succession

Onde assistir Succession?

As quatro temporadas de Succession estão disponíveis exclusivamente na HBO Max (Max no Brasil). A série é produção original da HBO.

Quantas temporadas tem Succession?

Succession tem 4 temporadas, totalizando 39 episódios. A série foi encerrada intencionalmente pelo criador Jesse Armstrong em 2023, que optou por terminar a história no auge narrativo.

Succession é baseada em história real?

Não diretamente. Jesse Armstrong se inspirou em figuras reais da mídia como Rupert Murdoch (News Corp) e os irmãos Koch, mas os personagens e situações são ficcionais. A série captura dinâmicas reais de impérios familiares sem retratar pessoas específicas.

Por que Succession terminou na quarta temporada?

O criador Jesse Armstrong decidiu encerrar a série por escolha criativa, não por cancelamento. Ele sentiu que a história dos Roy havia chegado ao seu ponto de conclusão natural, evitando o alongamento que compromete muitas séries de sucesso.

Succession tem final fechado?

Sim. O final da quarta temporada oferece resolução clara para o arco central da disputa pela sucessão da Waystar Royco. Não é um final feliz tradicional, mas é conclusivo e coerente com o tom da série — cada personagem recebe o destino que sua natureza ditava.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também