‘Mulheres Imperfeitas’ chegou na Apple TV+ com Elisabeth Moss e Kerry Washington, mas 35% de aprovação no Rotten Tomatoes revelam o problema: elenco estelar preso em roteiro que confunde plot twists com profundidade. Analisamos o descompasso entre talento e material.
Elisabeth Moss e Kerry Washington no mesmo projeto deveria ser garantia de qualidade. Não é. ‘Mulheres Imperfeitas’ chegou na Apple TV+ na última quarta-feira (18) com um elenco que qualquer série mataria para ter — e um roteiro que parece ter sido escrito por comitê. Os números não mentem: 35% de aprovação do público no Rotten Tomatoes, 41% da crítica. Para uma produção original da Apple TV+, isso é um sinal de alerta.
O mais intrigante não é a rejeição em si. É o desperdício. Ver Moss, Washington e Kate Mara navegando um material que não lhes faz justiça é como assistir um concerto de violino tocado em uma sala de aula acústica — o talento está lá, mas o ambiente não acompanha.
Kerry Washington salva o que o roteiro destrói
Vamos ser justos: o trio protagonista entrega o que pode. Kerry Washington, em particular, consegue extrair camadas de Eleanor que o roteiro nem sequer sugeriu. Há um momento no primeiro episódio em que ela descobre algo sobre Nancy (Kate Mara) — a câmera segura no rosto dela por segundos demais, e Washington preenche esse tempo com uma transição emocional que vai da surpresa para a suspeita sem uma palavra. É trabalho de atriz que entende subtexto.
Elisabeth Moss faz o que Elisabeth Moss sempre faz: encontra a humanidade em um personagem que poderia ser apenas ‘a amiga traumatizada’. A cena do funeral, com Mary tentando processar o luto enquanto esconde algo, é um estudo de microexpressões. Corey Stoll e Joel Kinnaman, no elenco de apoio, trazem peso para papéis que poderiam ser puros plot devices.
O problema é que atuação de primeira linha não sustenta sozinha uma série cujo esqueleto narrativo range a cada movimento.
Quando o mistério não tem dentes
A premissa de ‘Mulheres Imperfeitas’ é sólida: três amigas, um assassinato, segredos que emergem. Funcionou em ‘Big Little Lies’, funcionou em ‘The Undoing’. O gênero ‘mistério com drama de mulheres ricas com problemas’ se consolidou como nicho próprio nos últimos anos. Mas há uma diferença crucial entre usar uma fórmula e depender dela.
A série comete o erro clássico do thriller que não confia em seu próprio material: confunde segredos com profundidade. Cada revelação sobre o passado das personagens chega com a sutileza de uma marretada. ‘Você tem um segredo’, o roteiro parece gritar. ‘E agora você também! E você também!’ Não há construção orgânica de tensão — apenas uma sucessão de plot twists que se anulam mutuamente.
O ritmo também trai a proposta. A montagem acelera quando deveria respirar, e segura quando deveria avançar. Há uma sequência de flashback no segundo episódio que deveria ser reveladora, mas é editada com tanta urgência que o impacto se dissolve antes de pousar. É como se a série tivesse pressa em chegar ao próximo twist, sem perceber que o valor do thriller está no caminho, não no destino.
Críticos apontaram algo que eu senti assistindo: o mistério central, a morte de Nancy, nunca parece realmente urgente. Em ‘Broadchurch’ ou ‘The Killing’, o assassinato era uma ferida aberta na comunidade. Aqui, funciona mais como pretexto para que as personagens revelem seus traumas de design.
O paradoxo do sucesso de audiência
Aqui está onde a coisa fica interessante: apesar da rejeição crítica, ‘Mulheres Imperfeitas’ estreou em #3 no ranking global da Apple TV+, #2 nos Estados Unidos. Isso significa que pessoas estão assistindo — e provavelmente continuarão assistindo.
Isso não é contradição; é o poder do elenco e do marketing. Moss carrega fãs de ‘The Handmaid’s Tale’ e ‘Mad Men’. Washington traz o público de ‘Scandal’. A promessa de vê-las juntas é suficiente para gerar curiosidade. A questão é: essa curiosidade se sustenta?
Com apenas dois episódios lançados e a temporada completa de oito episódios ainda por vir, os dados ainda são preliminares. Mas o padrão de críticas apontando para uma história que ‘fica mais ridícula conforme avança’ não é bom sinal. Thrillers podem sobreviver a problemas de roteiro se a tensão for suficiente — mas quando a tensão é justamente o que falta, não há onde se segurar.
Veredito: talento desperdiçado em formato competente
‘Mulheres Imperfeitas’ não é um desastre. É pior: é mediocridade com orçamento de prestígio. A Apple TV+ tem recursos para contratar os melhores atores disponíveis, mas aparentemente não investiu o mesmo cuidado na sala de roteiro. O resultado é uma série que parece feita para ser consumida entre olhares no celular — competente o suficiente para não desligar, esquecível o suficiente para não lembrar.
Para quem gosta do gênero e curte o elenco: vale uma tentativa. Washington e Moss entregam momentos que justificam o tempo, mesmo quando o material não justifica o talento delas. Mas se você busca um thriller que respeite sua inteligência, prepare-se para frustração.
Restam seis episódios para reverter essa impressão inicial. A dúvida é se o roteiro tem capacidade de autoconsciência suficiente para isso — ou se continuaremos vendo grandes atoras lutando contra um material que não merece seu esforço.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Mulheres Imperfeitas’
Onde assistir ‘Mulheres Imperfeitas’?
‘Mulheres Imperfeitas’ é uma série original da Apple TV+, disponível exclusivamente na plataforma desde 18 de junho de 2025. É necessário assinatura do serviço.
Quantos episódios tem ‘Mulheres Imperfeitas’?
A primeira temporada tem oito episódios no total. Dois episódios estrearam juntos em 18 de junho, com os restantes sendo lançados semanalmente às quartas-feiras.
Quem está no elenco de ‘Mulheres Imperfeitas’?
O elenco principal inclui Elisabeth Moss (‘The Handmaid’s Tale’), Kerry Washington (‘Scandal’), Kate Mara (‘House of Cards’), Corey Stoll (‘House of Cards’) e Joel Kinnaman (‘The Killing’).
‘Mulheres Imperfeitas’ é baseada em livro?
Não. ‘Mulheres Imperfeitas’ é uma criação original para a Apple TV+, não sendo adaptação de nenhuma obra literária prévia.
Vale a pena assistir ‘Mulheres Imperfeitas’?
Se você é fã do elenco (especialmente Kerry Washington e Elisabeth Moss) ou do gênero ‘mistério com drama feminino’, pode valer pela curiosidade. As atuações têm momentos fortes. Mas se busca um thriller bem construído, as críticas indicam que o roteiro pode frustrar.

