‘Normal’: por que o novo filme de Bob Odenkirk é um faroeste disfarçado

Em ‘Normal’, Bob Odenkirk interpreta um xerife que subverte o modelo de herói de Derek Kolstad: em vez do vício em violência de John Wick, relutância moral inspirada em faroestes de Eastwood. Analisamos como essa mudança de paradigma cria um thriller único no gênero.

Quando Derek Kolstad escreveu ‘Normal’, Bob Odenkirk não era o protagonista que ele tinha em mente — e o resultado disso é mais revelador do que parece. O criador de John Wick – De Volta ao Jogo e da franquia Anônimo poderia ter replicado a fórmula que o consagrou: um homem com passado violento, uma provocação, e então uma cascata de tiros, socos e cabeçadas. Mas Normal faz algo mais interessante. Troca a adrenalina pelo silêncio, o vício pela relutância, e no processo revela um roteirista muito menos interessado em coreografar violência do que em examinar a moralidade de quem a evita.

A premissa parece simples demais para quem conhece o histórico de Kolstad: Ulysses chega à pequena cidade de Normal, em Minnesota, para assumir o cargo de xerife após a morte do anterior. Aos poucos, se adapta a uma vida mais tranquila — até que um assalto bancário mal executado expõe segredos que ameaçam toda a comunidade. Até aí, parece o tipo de setup que desemboca em 90 minutos de carnificina estilizada. Exceto que não. E essa subversão de expectativas é exatamente onde o filme encontra sua identidade.

Como Kolstad trocou o vício pela contenção — e por que isso importa

Como Kolstad trocou o vício pela contenção — e por que isso importa

A comparação mais óbvia seria com Anônimo, filme de 2021 que apresentou Odenkirk como Hutch Mansell, um homem aparentemente comum que esconde um passado letal. Mas o próprio Kolstad faz questão de traçar uma linha clara entre os dois protagonistas. Hutch, segundo ele, ‘quer violência’ e ‘precisa ser alimentado por ela’ — uma espécie de vício disfarçado de obrigação familiar. A sequência icônica do ônibus no primeiro filme é o exemplo perfeito: Hutch reza internamente para que os bandidos russos bêbados entrem no veículo, só para ter uma desculpa de espancá-los. Não é autodefesa. É necessidade.

Ulysses é o oposto. Kolstad o descreve como um herói de ‘faroeste da velha guarda’, onde a violência é ‘a última coisa que ele vai fazer’ para resolver uma situação — e existe até ‘uma chance dele simplesmente ir embora e não fazer nada’. Essa distinção não é cosmética. Representa uma evolução filosófica no modo como Kolstad enxerga seus próprios arquétipos. De certa forma, Normal funciona como uma resposta autoral ao que ele próprio criou em John Wick: e se o herói relutante não fosse relutante por circunstância, mas por convicção?

A sombra de Clint Eastwood paira sobre cada frame

Kolstad cita explicitamente suas referências, e elas não são sutis. Matar ou Morrer é o exemplo mais direto: um xerife que chega em uma cidade pequena e precisa confrontar forças maiores que ele, usando mais silêncio do que balas. Mas a referência mais reveladora é Pale Rider, o faroeste de 1985 onde Eastwood interpreta um pregador misterioso que chega em uma cidadezinha, observa o conflito sem intervir inicialmente, e só revela sua verdadeira natureza quando remove o colar clerical. Kolstad descreve essa sequência com reverência: Eastwood atravessa uma briga sem fazer nada, vai ao banco, abre uma caixa de depósito vazia, e tira o colar. O filme inteiro muda de tom naquele momento.

Essa estrutura — a contenção prolongada, o adiamento da violência até que ela se torne inevitável e moralmente justificada — é exatamente o que Normal busca replicar. Ulysses não é um assassino reprimido esperando uma desculpa. É um homem que genuinamente preferiria não ter que fazer nada. O nome do personagem, inclusive, vem de uma piada de Odenkirk sobre o apelido de Ulysses Grant ser ‘Useless’ — inútil. Há algo de propositalmente anti-heroico nessa escolha, um reconhecimento de que nem todo protagonista precisa ser uma máquina de matar esperando para ser ativada.

Por que ‘Normal’ se destaca em um mercado saturado de ‘clones de Wick’

Por que 'Normal' se destaca em um mercado saturado de 'clones de Wick'

O sucesso de John Wick gerou uma onda de imitadores que variam do decente ao esquecível. Resgate, com Chris Hemsworth, e Sisu: Uma História de Determinação, de Jalmari Helander, são frequentemente citados como exemplos dessa tendência — filmes que pegam a fórmula ‘homem solitário contra o mundo’ e adicionam seu próprio tempero. Até Anônimo, apesar de escrito pelo próprio Kolstad, foi acusado de ser uma variação do mesmo tema. Mas a crítica que muitos desses filmes recebem é justamente a de confundir ‘mais violência’ com ‘mais impacto’.

Normal chega em um momento curioso do gênero. Com 82% de aprovação no Rotten Tomatoes — empatado tecnicamente com os filmes do Anônimo — prova que existe apetite do público para uma abordagem diferente. O marketing ainda enfatiza o combate corpo a corpo que a 87North Productions popularizou, mas a diferença está na motivação. Quando Ulysses finalmente entra em ação, não é porque estava morrendo de vontade. É porque a situação não deixou alternativa. Essa distinção pode parecer sutil, mas muda completamente a relação do público com a violência na tela. Em vez de torcer pelo sangue, torcemos pela contenção.

O papel de Bob Odenkirk nessa equação moral

Há uma ironia apropriada em Odenkirk ser o rosto dessa subversão. O ator construiu uma carreira interpretando homens que são, fundamentalmente, charlatões — de Saul Goodman em Breaking Bad e Better Call Saul a vários personagens cômicos de sua fase no Mr. Show. Mesmo em Anônimo, Hutch Mansell começa como uma espécie de fracassado doméstico antes de revelar suas habilidades. Odenkirk tem uma facilidade natural para interpretar homens que parecem insignificantes até que não são.

Em Normal, essa qualidade serve ao propósito de forma mais profunda. Ulysses não é um ex-assassino da máfia russa ou um ex-matador da Yakuza. É um homem que, pelo que o filme sugere, genuinamente quer uma vida tranquila. Quando a violência acontece, Odenkirk a interpreta não como uma liberação catártica, mas como uma obrigação triste. A diferença é fundamental. Em Anônimo, há um prazer visível no rosto de Hutch quando finalmente pode ‘ser ele mesmo’. Em Normal, a expressão de Ulysses durante os confrontos é mais de resignação do que de satisfação. É a diferença entre um viciado em ação e um homem que faz o que precisa ser feito.

O veredito: um faroeste moderno que sabe exatamente o que é

Normal não é perfeito. O ritmo nos primeiros 40 minutos pode testar a paciência de quem espera a cadência de um John Wick, e a revelação dos segredos da cidade não é tão impactante quanto o filme acredita. Mas esses problemas são secundários diante do que acerta: sabe exatamente que tipo de história quer contar, e não tenta ser tudo para todos. Kolstad poderia ter transformado Ulysses em mais um assassino reprimido esperando para desabar. Em vez disso, criou um personagem que seria igualmente feliz se nunca precisasse disparar uma arma.

Para quem cansou de filmes de ação que confundem volume com valor, Normal é um antídoto necessário. É um faroeste disfarçado de thriller pequeno, uma meditação sobre violência disfarçada de filme de assalto, e uma prova de que Kolstad está mais interessado em evoluir do que em repetir. Se você consegue aceitar que às vezes o herói mais interessante é aquele que preferiria não ser herói de jeito nenhum, vale cada minuto. Agora, se procura a catarse sanguinolenta de John Wick ou a agressividade viciante de Anônimo, talvez seja melhor ajustar as expectativas — ou simplesmente aceitar que nem todo silêncio precisa ser quebrado com tiros.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Normal’

‘Normal’ tem relação com a franquia ‘Anônimo’?

Não. Apesar de ambos serem escritos por Derek Kolstad e estrelados por Bob Odenkirk, são histórias independentes sem conexão narrativa. A principal ligação é temática: Kolstad explora diferentes abordagens do ‘herói relutante’.

Quem criou ‘Normal’?

O roteiro é de Derek Kolstad, criador de ‘John Wick’ e da franquia ‘Anônimo’. A produção é da 87North Productions, mesma empresa por trás de filmes como ‘Balas Trocadas’ e da série ‘Anônimo’.

‘Normal’ é um filme de ação como ‘John Wick’?

Não exatamente. Embora tenha sequências de ação, ‘Normal’ é mais um thriller de tensão lenta inspirado em faroestes clássicos como ‘Matar ou Morrer’. A violência é esparca e motivada por necessidade, não por desejo do protagonista.

Qual a classificação indicativa de ‘Normal’?

O filme é classificado como R (restrição para menores de 17 anos não acompanhados) nos EUA, por conter violência, linguagem forte e alguns elementos temáticos maduros.

Para quem ‘Normal’ é recomendado?

Para quem aprecia narrativas de tensão construída lentamente, faroestes modernos e personagens moralmente complexos. Não é recomendado para quem busca a ação frenética e estilizada de ‘John Wick’ ou a catarse violenta de ‘Anônimo’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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