Após 6 anos de espera, ‘Dorohedoro’ retorna à Netflix em 2026. Explicamos por que este anime de estética deliberadamente ‘feia’ conquistou 100% no Rotten Tomatoes e como o contraste entre visual industrial e narrativa calorosa cria uma experiência única no meio.
Há uma categoria de anime que parece projetada para afastar espectadores. Visual sujo, paleta de cores que mistura cinza industrial com vermelho sangue, cenas de corpos sendo desmembrados como se fosse rotina. E então há ‘Dorohedoro’ — que faz tudo isso e ainda conquistou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. Como algo tão deliberadamente ‘feio’ consegue aclamação unânime?
A pergunta ganha nova urgência agora: após seis anos de silêncio, a segunda temporada finalmente chega à Netflix em 1º de abril de 2026. Se você passou longe do anime quando ele estreou em 2020, intimidado pela aparência estranha ou pelo tom bizarro, este é o momento de reconsiderar. ‘Dorohedoro’ é difícil, sim. Mas é exatamente essa dificuldade que o torna insubstituível.
Por que os primeiros episódios testam sua resistência
Os primeiros 20 minutos de ‘Dorohedoro’ funcionam como uma espécie de filtro. Você acompanha um homem com cabeça de lagarto enfiando a mão dentro da boca de outro homem para verificar se ele é um feiticeiro. Quando a resposta é positiva positiva, a vítima tem a cabeça decepada — e o protagonista pergunta, com voz surpreendentemente calma, se a pessoa lembra de algo. É grotesco, absurdo, e apresentado com uma naturalidade que torna tudo mais perturbador.
O visual não cria familiaridade. A estética ‘industrial-punk’ escolhida pelo estúdio MAPPA é dominada por tons de cinza, ambientes decadentes e uma textura que parece ter sido desenhada com carvão em uma parede abandonada. O mundo onde Caiman vive, chamado de ‘Hole’, é literalmente um buraco — uma dimensão em decomposição onde feiticeiros usam humanos como cobaias para testar suas magias. Não há beleza convencional aqui. Há sobrevivência.
Essa ‘feiura’ é intencional e funcional. Q Hayashida, autora do mangá original, construiu um universo onde a estética reflete a moralidade invertida. Os feiticeiros vivem em um mundo colorido e próspero, mas são os vilões da história. Os habitantes do Hole sofrem em um ambiente visualmente opressivo, mas são os personagens com os quais você vai se importar. É um comentário visual sobre aparência versus substância — algo que a adaptação da MAPPA capturou com precisão cirúrgica.
O paradoxo que conquista críticos e afasta novatos
A nota 8.04 no MyAnimeList com mais de 300 mil avaliações e a aprovação unânime no Rotten Tomatoes não são acidentes. Eles refletem algo que se torna óbvio após atravessar a barreira inicial: ‘Dorohedoro’ é um dos poucos animes que consegue ser genuinamente perturbador e genuinamente caloroso ao mesmo tempo.
A maioria das obras que misturam terror e comédia cai em um de dois problemas: ou o humor alivia a tensão de forma que o terror perde impacto, ou o terror é tão extremo que o humor parece fora de lugar. ‘Dorohedoro’ resolve isso fazendo os dois elementos nascerem da mesma fonte — o absurdo. Quando Caiman e sua amiga Nikaido fazem gyozas depois de uma sessão de caça a feiticeiros, o momento é doméstico e estranho simultaneamente. O corpo no canto da sala? Apenas mais um dia. A amizade entre eles? Genuinamente comovente.
Essa capacidade de encontrar humanidade no bizarro é o que diferencia ‘Dorohedoro’ de obras como ‘Chainsaw Man’ — frequentemente comparadas pela violência, mas com propostas distintas. Enquanto ‘Chainsaw Man’ abraça o caos com certo cinismo, ‘Dorohedoro’ mantém uma ‘sensação infantil de admiração’ em sua construção de mundo. Há curiosidade genuína aqui, não apenas choque pelo choque.
O risco que a MAPPA correu — e acertou
Contextualizar ‘Dorohedoro’ dentro da filmografia da MAPPA é essencial para entender seu valor. Este é o mesmo estúdio responsável pela temporada final de ‘Attack on Titan’ e por ‘Jujutsu Kaisen’ — obras com orçamentos generosos e apelos massivos. Adaptar um mangá com estilo artístico deliberadamente caótico, para um público nichado, não era uma decisão comercial óbvia.
O resultado demonstra que a MAPPA entendeu algo fundamental: a ‘feiura’ de ‘Dorohedoro’ não era um obstáculo a ser suavizado, mas o coração da obra. A animação em CGI usada para alguns elementos — frequentemente criticada em outros animes — funciona aqui precisamente porque o universo é sujo e industrial. O que seria ‘defeito técnico’ em uma obra polida torna-se textura consistente em uma obra deliberadamente bruta.
A trilha sonora de (K)NoW_NAME complementa essa atmosfera com faixas que misturam rock sujo, eletrônica industrial e vocais em inglês que soam como hinos de um mundo em colapso. ‘DISEASE’, a opening, estabelece o tom em segundos: distorcida, agressiva, estranhamente cativante. É raro um anime onde a música parece ter sido composta para o universo específico, não apenas licenciada para criar impacto.
O que esperar da segunda temporada em 2026
O trailer da segunda temporada promete algo que soa quase contraditório para uma obra já conhecida pelo bizarro: ‘ainda mais violento, surreal e caótico’. Se a primeira temporada foi um convite difícil, a segunda parece destinada a testar até os fãs mais dedicados.
Há uma diferença crucial agora. Em 2020, ‘Dorohedoro’ chegou sem alarde em uma Netflix sobrecarregada de lançamentos. Em 2026, retorna com uma base de fãs cultivada em seis anos de recomendações boca a boca — aquele tipo de audiência que descobre obras ‘difíceis’ exatamente porque alguém disse ‘é estranho, mas você precisa ver’.
A questão central que a segunda temporada terá que responder é se consegue expandir a narrativa sem perder o que tornou a primeira especial. O mangá de Q Hayashida é conhecido por escalar em complexidade, revelando que o universo apresentado inicialmente como simples vingança de um homem com cabeça de lagarto é, na verdade, uma construção mitológica elaborada. Se a MAPPA mantiver a qualidade, ‘Dorohedoro’ pode finalmente sair do status de ‘obra cult subestimada’ para o reconhecimento que sua aclamação crítica sugere.
Veredito: para quem vale a pena encarar o Hole
Se você procura anime como entretenimento passivo — algo para assistir enquanto rola o feed — ‘Dorohedoro’ não é para você. A estética industrial-punk, o body horror frequente e a narrativa que se recusa a explicar tudo de imediato exigem atenção ativa.
Agora, se você está disposto a ser desafiado, há algo aqui que não encontra em outros lugares: uma obra que trata o bizarro com seriedade artística, que encontra humor no grotesco sem ser desrespeitoso, e que constrói personagens memoráveis em um universo que parece ter sido desenhado com lama e sangue. A aclamação unânime não é por acaso — é o reconhecimento de que, às vezes, a verdadeira beleza está em recusar-se a ser bonito.
Com a segunda temporada chegando em abril, este é o momento ideal para dar a primeira uma chance. Seis anos de espera merecem ser recompensados com audiência suficiente para garantir que a história continue. E francamente, depois de atravessar o Hole, você vai entender por que tantos críticos se recusaram a dar qualquer nota que não fosse perfeita.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Dorohedoro’
Onde assistir ‘Dorohedoro’?
‘Dorohedoro’ está disponível exclusivamente na Netflix. A primeira temporada completa está na plataforma desde 2020, e a segunda temporada estreia em 1º de abril de 2026.
Quantos episódios tem ‘Dorohedoro’?
A primeira temporada tem 12 episódios de aproximadamente 24 minutos cada. Há também um OVA especial chamado ‘Dorohedoro: Ma no Omake’ com 6 episódios curtos adicionais.
‘Dorohedoro’ é muito violento?
Sim. O anime contém body horror frequente, desmembramentos, sangue e situações grotescas. Não é recomendado para sensíveis a violência gráfica. A classificação indicativa é 16 anos.
Precisa ler o mangá antes de assistir?
Não. O anime adapta o mangá de forma fiel e funciona como introdução autônoma. O mangá de Q Hayashida tem 167 capítulos e pode ser lido após assistir para maior profundidade na lore.
Por que ‘Dorohedoro’ tem 100% no Rotten Tomatoes?
A aclamação vem da combinação única de terror e comédia, a construção de mundo criativa, e a coragem estética de abraçar o ‘feio’ como escolha artística deliberada. Críticos elogiam como a obra encontra humanidade no bizarro.

