Oscar 2026: empate histórico em Curta de Ficção quebra jejum de 13 anos

Oscar 2026 teve seu sétimo empate histórico: ‘Os Cantores’ e ‘Two People Exchanging Saliva’ empataram em Curta de Ficção. Explicamos as regras de votação que permitiram o fato e revisamos todos os casos anteriores, do ‘empate’ de 1932 ao surpreendente 2013.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tem 97 anos de história, milhares de estatuetas entregues, e em apenas sete ocasiões aconteceu o que vimos neste domingo: dois vencedores no mesmo pódio. O Oscar 2026 empate entre ‘Os Cantores’ e ‘Two People Exchanging Saliva’ não é apenas uma curiosidade estatística — é uma janela rara para entender como a premiação funciona por trás das cortinas, e por que a regra que permitiu isso hoje é completamente diferente da de 1932.

A categoria Curta de Ficção ao Vivo não costuma receber holofotes. Foi assim em 1995, quando ‘Franz Kafka’s It’s a Wonderful Life’ e ‘Trevor’ dividiram o prêmio. Foi assim em 2013, quando Edição de Som teve vencedores duplos para ‘A Hora Mais Escura’ e ‘007: Operação Skyfall’. Mas desta vez, o inesperado trouxe consequências interessantes: atenção para dois filmes que, de outra forma, seriam esquecidos pela maioria do público no dia seguinte.

Como um empate funciona nas regras atuais do Oscar

Como um empate funciona nas regras atuais do Oscar

Não é sorte. Não é decisão de um comitê. É matemática pura — e estatisticamente improvável.

O sistema de votação do Oscar usa o método de contagem preferencial, também conhecido como ‘voto único transferível’. Cada eleitor rankeia os indicados em ordem de preferência. Na primeira rodada, contam-se os primeiros lugares. Se nenhum atinge a maioria absoluta (50% + 1), o último colocado é eliminado e seus votos são redistribuídos para o segundo escolhido de cada cédula. O processo se repete até alguém cruzar a linha.

Um empate acontece quando, na rodada final, dois candidatos terminam com exatamente o mesmo número de votos. Não ‘quase igual’. Igual. Cada voto conta, e quando a contagem para em um número idêntico para dois finalistas, a Academia declara empate e ambas as produções recebem a estatueta.

A probabilidade disso ocorrer é ínfima. Estamos falando de milhares de votantes, cada um com uma cédula complexa de preferências. Que dois filmes cheguem à rodada final com o número exato de votos restantes é o tipo de coincidência estatística que torna este momento historicamente relevante.

1932: quando ‘empate’ não era empate de verdade

O primeiro caso de ‘empate’ na história do Oscar merece aspas — e explica por que as regras mudaram fundamentalmente.

Em 1932, Wallace Beery (‘O Campeão’) e Fredric March (‘O Médico e o Monstro’) receberam o prêmio de Melhor Ator. Mas March tinha, tecnicamente, um voto a mais que Beery. A regra da época determinava que qualquer indicado que chegasse a até três votos de diferença do vencedor também levaria a estatueta. Era uma espécie de ‘margem de erro’ institucionalizada.

A cláusula fazia sentido em uma Academia jovem, com poucos votantes e um sistema ainda em formação. Mas conforme a organização cresceu e o corpo de eleitores expandiu para mais de 10.000 membros, essa margem de tolerância se tornou insustentável. A regra foi abandonada. Hoje, apenas a igualdade exata conta.

É por isso que o empate de 2026 é significativamente mais raro que o de 1932. Beery e March ganharam porque as regras permitiam diferença. ‘Os Cantores’ e ‘Two People Exchanging Saliva’ ganharam porque a matemática, literalmente, empatou — sem margem, sem tolerância, sem exceções.

Os seis empates anteriores: um tour completo pela história

Os seis empates anteriores: um tour completo pela história

Depois de 1932, passaram-se 18 anos até o próximo empate. Quando veio, foi em uma categoria que hoje nem existe mais da mesma forma.

1950 — Documentário Curta: ‘A Chance to Live’ e ‘So Much for So Little’ dividiram o prêmio. O formato de documentário curta vivia seu auge no pós-guerra, com produções frequentemente financiadas por governos ou instituições com mensagens sociais explícitas.

1969 — Melhor Atriz: Este é o empate mais famoso da história. Katharine Hepburn (‘O Leão no Inverno’) e Barbra Streisand (‘Funny Girl – A Garota Genial’) terminaram com o mesmo número de votos. Hepburn, já lenda, conquistava seu segundo Oscar. Streisand, estreante no cinema, recebia o prêmio por seu primeiro filme. A ironia: Hepburn não compareceu à cerimônia — era seu hábito. Streisand subiu ao palco e, em seu discurso, disse: ‘Hello, gorgeous’ — frase que se tornaria icônica.

1987 — Documentário Longa: ‘Artie Shaw: Time Is All You’ve Got’ e ‘Down and Out in America’ empataram. Uma era um filme de perfil artístico sobre o músico de jazz Artie Shaw; a outra, um documentário social sobre pobreza nos EUA. A Academia reconheceu que documentário de excelência pode ter formas completamente opostas.

1995 — Curta de Ficção: Aqui a história se repete de forma notável. ‘Franz Kafka’s It’s a Wonderful Life’ e ‘Trevor’ dividiram a mesma categoria que, 31 anos depois, veria outro empate. ‘Trevor’, inclusive, era um curta sobre um adolescente gay contemplando o suicídio — tema que, em 1995, estava longe de ser discutido abertamente em Hollywood. O fato de ter vencido, mesmo empatado, já era uma declaração.

2013 — Edição de Som: O empate mais recente antes de 2026. ‘A Hora Mais Escura’ e ‘007: Operação Skyfall’ terminaram empatados. Foi curioso porque uma era um thriller de guerra tenso e silencioso, focado em sons naturais; a outra, um blockbuster de ação explosiva, com design sonoro elaborado. A Academia reconheceu explicitamente que excelência técnica pode se manifestar de formas completamente antagônicas.

Por que empates são tão raros — e o que isso revela

Sete empates em 97 cerimônias. A estatística por si já é eloquente. Mas há mais aqui do que coincidência.

O número de votantes é um fator decisivo. A Academia hoje tem mais de 10.000 membros. Em 1932, eram poucas centenas. Mais votos significam mais possibilidades de distribuição — e, paradoxalmente, menor chance de empate exato nas rodadas finais do sistema preferencial.

A natureza do próprio sistema de votação também contribui. O método preferencial tende a concentrar votos em um vencedor claro. A cada rodada de eliminação, os votos se consolidam em torno dos finalistas. Para dois candidatos chegarem à rodada final com números idênticos, é preciso que a base de votantes esteja genuinamente dividida em dois campos de tamanho equivalente — um cenário estatisticamente improvável.

Empates também expõem fissuras no consenso. Quando ‘Moonlight: Sob a Luz do Luar’ venceu em 2017, houve um momento de confusão que parecia empate, mas não era — foi erro humano. Quando ‘A Hora Mais Escura’ e ‘007: Operação Skyfall’ empataram em 2013, era a Academia dizendo: ‘reconhecemos dois tipos de excelência’. Quando Hepburn e Streisand empataram em 1969, era o reconhecimento simultâneo de uma lenda consolidada e uma estreante brilhante.

O empate de 2026 em Curta de Ficção diz algo similar: dois filmes, abordagens diferentes, mesmo nível de reconhecimento. ‘Os Cantores’ e ‘Two People Exchanging Saliva’ não precisaram dividir a glória. Ambos a conquistaram integralmente.

O que este empate significa para uma categoria nas sombras

Kumail Nanjiani, que apresentou a categoria, brincou sobre a cerimônia ficar longa por causa dos dois discursos. Mas por trás da piada, há um ponto sério: o empate deu a duas equipes de realizadores o momento que a maioria dos cineastas sonha a vida inteira.

Curtas vivem nas sombras do Oscar. São vistos por poucos, distribuídos em circuitos limitados, raramente discutidos fora de círculos especializados. Um empate dobra a exposição: dois discursos de agradecimento, dois conjuntos de nomes sendo pronunciados no palco, duas equipes voltando para casa com a estatueta.

Os outros indicados — ‘Butcher’s Stain’, ‘A Friend of Dorothy’ e ‘Jane Austen’s Period Drama’ — saíram de mãos vazias. Mas a categoria inteira ganhou algo que não tinha antes: atenção. Pergunta legítima: quantas pessoas saberiam da existência de ‘Two People Exchanging Saliva’ se não fosse o empate?

Para o público, a lição é simples: o Oscar é menos previsível do que parece. Para os realizadores de curtas, a mensagem é encorajadora: mesmo nas categorias negligenciadas, a excelência é reconhecida — às vezes, duplamente.

Treze anos separam o empate de 2013 do de 2026. Quantos virão até o próximo? Impossível prever. Mas quando acontecer, você saberá: não foi sorte, não foi favoritismo. Foi a matemática da Academia, em um daqueles momentos raros em que os números decidem não escolher — e dois filmes entram para a história juntos.

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Perguntas Frequentes sobre empates no Oscar

Quantos empates já aconteceram na história do Oscar?

Sete empates ao total em 97 cerimônias. O mais recente foi em 2026, em Curta de Ficção. Antes disso, o último tinha sido em 2013, em Edição de Som.

Como funciona o empate no Oscar?

O Oscar usa voto único transferível. Um empate ocorre quando, na rodada final da contagem, dois indicados terminam com exatamente o mesmo número de votos. A Academia então declara empate e ambos recebem a estatueta.

O empate de 1932 foi igual ao de 2026?

Não. Em 1932, a regra permitia que indicados com até três votos de diferença do vencedor também levassem o prêmio. Wallace Beery tinha menos votos que Fredric March, mas ganhou por essa margem de tolerância. Hoje, apenas a igualdade exata conta.

Quais categorias já tiveram empates no Oscar?

Melhor Ator (1932), Documentário Curta (1950), Melhor Atriz (1969), Documentário Longa (1987), Curta de Ficção (1995 e 2026), e Edição de Som (2013).

Qual foi o empate mais famoso do Oscar?

O de 1969, quando Katharine Hepburn e Barbra Streisand empataram em Melhor Atriz. Hepburn não compareceu à cerimônia, e Streisand subiu ao palco para seu primeiro filme, dizendo a frase icônica ‘Hello, gorgeous’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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