Como ‘Cavaleiro da Lua’ e ‘Demolidor’ provam que o MCU está pronto para os Midnight Sons

A filmografia de terror indie de Justin Benson e Aaron Moorhead em ‘Cavaleiro da Lua’ e ‘Demolidor: Renascido’ revela por que eles são os cineastas ideais para trazer os Midnight Sons ao MCU — com horror cósmico de verdade, não apenas estética sombria.

Depois de ‘Cavaleiro da Lua’ e ‘Demolidor: Renascido’, uma pergunta insiste em quem acompanha o MCU com atenção crítica: Midnight Sons MCU finalmente tem os cineastas certos? A resposta está menos em estratégias de estúdio e mais em filmografia indie obscura que a maioria do público nunca ouviu falar.

Justin Benson e Aaron Moorhead não chegaram do nada. Antes de comandar episódios de ‘Loki’ temporada 2 e assumir a reinvenção de Matt Murdock, os dois construíram uma carreira de culto no terror de baixo orçamento — filmes que tratam o sobrenatural com a mesma seriedade com que tratam relacionamentos humanos. E essa combinação específica pode ser exatamente o que uma equipe de heróis ocultistas precisa.

Por que Benson e Moorhead são diferentes de qualquer diretor que o MCU já contratou

Por que Benson e Moorhead são diferentes de qualquer diretor que o MCU já contratou

A Marvel tem um problema recorrente com ‘tom’: contrata cineastas com voz autoral e frequentemente os engole no processo. Taika Waititi transformou Thor em comédia, mas a comédia virou marca da franquia, não do diretor. Chloé Zhao trouxe o naturalismo de ‘Nomadland’ para ‘Eternos’, e o resultado foi um filme que parece feito por comitê com câmeras bonitas.

Benson e Moorhead escaparam dessa armadilha em ‘Cavaleiro da Lua’ de uma forma que passou despercebida para a maioria. A série de Oscar Isaac tem problemas estruturais óbvios — seis episódios são pouco para a ambição do roteiro — mas o que funciona nela é exatamente o que funciona em ‘Synchronic’ e ‘Primavera’: a convicção de que o fantástico só importa quando está ancorado em trauma humano específico.

Em ‘Synchronic’, dois paramédicos enfrentam uma droga que permite viajar no tempo. O filme poderia ser sci-fi de aventura. Não é. É sobre dependência, arrependimento e a impossibilidade de consertar o passado. Em ‘Primavera’, uma americana em fuga se envolve com uma mulher que carrega uma maldição genética que a transforma em criatura. Soa como terror romântico genérico. Na prática, é um estudo sobre o que significa envelhecer enquanto quem amamos permanece jovem — ou imortal.

Esses não são ‘temas’ colados em cima de premissa de gênero. São o núcleo emocional que justifica a premissa existir. E é isso que Benson e Moorhead trouxeram para Steven Grant e Marc Spector: não apenas a mitologia egípcia e os trajes bacanas, mas a fragmentação psicológica como condição existencial, não como gimmick de super-herói.

‘Demolidor: Renascido’ provou que eles podem fazer MCU que não parece MCU

Aqui está o fato mais revelador sobre ‘Demolidor: Renascido’: há momentos em que você esquece que está assistindo a uma produção Marvel. A série se aproxima mais de um thriller jurídico dos anos 2000 — pense em ‘Michael Clayton’ ou os momentos mais contidos de ‘Os Sopranos’ — do que de qualquer coisa que o estúdio produziu desde o Demolidor original da Netflix.

Isso não é acidente. É escolha de linguagem.

Benson e Moorhead entenderam algo que a maioria dos diretores de streaming Marvel ignora: a câmera deve servir ao personagem, não ao universo. Em ‘Renascido’, os planos são mais longos, os cortes mais espaçados, a violência mais impactante precisamente porque é menos frequente. A sequência do confronto no corredor do episódio 2 — um plano-sequência de quase três minutos onde Matt Murdock luta sem máscara em luz natural — demonstra essa economia: cada soco dói porque a câmera não corta para esconder a coreografia.

Há uma economia visual que remete ao melhor do terror indie — aquele momento em ‘O Culto’ onde dois irmãos redescobrem um seita que os aprisionou na adolescência, e o horror não está nos monstros, mas na possibilidade de que o culto esteja certo sobre o fim do mundo.

Essa capacidade de manter tensão sem excesso é rara no MCU. ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’ tentou trazer horror Sam Raimi para o universo, mas o resultado foi pastiche — câmeras subjetivas e zumbis que funcionam como homenagem, não como ameaça real. Benson e Moorhead não fazem homenagem. Eles internalizaram a gramática do terror e a aplicam sem citar explicitamente.

O que os Midnight Sons exigem que a Marvel ainda não entregou

O que os Midnight Sons exigem que a Marvel ainda não entregou

A equipe Midnight Sons não é os Vingadores com capas pretas. É uma formação de heróis cujos poderes vêm de fontes que o mainstream de super-heróis costuma evitar: pactos demoníacos, maldições sanguíneas, ocultismo explícito. Blade é um caçador de vampiros que carrega a maldição que combate. Ghost Rider vendeu a alma ao diabo. Cavaleiro da Lua serve a um deus egípcio que pode ou não ser uma projeção de sua psique fragmentada.

Nos quadrinhos, as histórias dos Midnight Sons frequentemente incorporam elementos lovecraftianos — ‘Deuses Antigos’ que ecoam o panteão de Cthulhu, ameaças cósmicas que operam em escalas que a física humana não consegue processar. Há capítulos que derivam explicitamente de Junji Ito e John Carpenter. Isso não é ‘super-herói sombrio’ no sentido de ‘Batman com mais chuva’. É terror cósmico aplicado a protagonistas com capas.

A Marvel nunca abordou isso de forma convincente. ‘Werewolf by Night’ foi um especial de TV que brincou com estética de terror clássico, mas permaneceu como curiosidade isolada. ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’ prometeu horror e entregou ação sobrenatural com jump scares. O que falta não é vontade — é competência específica.

E aqui está onde Benson e Moorhead se tornam a escolha óbvia.

A filmografia indie que preparou os diretores para o sobrenatural de verdade

Em ‘O Culto’, Benson e Moorhead construíram um filme sobre dois irmãos que revisitam o culto onde foram criados. A premissa poderia render um terror convencional de ‘seita maluca’. O que acontece é diferente: o filme sugere que o apocalipse que o culto prediz pode ser real, e que a fuga pode ser impossível. Não há vilão claro. Há uma situação existencial que o espectador precisa processar junto com os personagens.

Em ‘Something in the Dirt’, dois vizinhos documentam fenômenos sobrenaturais em Los Angeles enquanto a amizade deles se deteriora. O filme funciona como metáfora sobre conspiração e isolamento, mas também como estudo de como pessoas processam o inexplicável — buscando padrões, criando narrativas, eventualmente enlouquecendo na tentativa de compreender.

‘Resolution’ talvez seja o mais relevante para uma discussão de Midnight Sons. O filme acompanha um homem que acorrenta o amigo viciado em uma cabana remota para forçar uma desintoxicação. Ao redor deles, algo sobrenatural acontece — sinais, mensagens, entidades que não se revelam completamente. O horror nunca é explicado. A tensão vem da impossibilidade de saber se o sobrenatural é real ou projeção das mentes deterioradas dos protagonistas.

Essa abordagem — sobrenatural que pode ser real, projeção psicológica, ou ambos simultaneamente — é exatamente o que uma adaptação de Midnight Sons precisa. Blade caça vampiros, mas carrega o vampiro dentro de si. Ghost Rider é um demônio que faz o bem. Cavaleiro da Lua é um herói que pode estar servindo a um deus ou servindo a suas próprias alucinações. A ambiguidade não é bug desses personagens. É feature.

Como Cavaleiro da Lua já testou o terreno para o ocultismo MCU

A série de Moon Knight cometeu erros que uma produção de Midnight Sons pode evitar. O final apressado, a resolução pouco satisfatória do conflito com Arthur Harrow, a subutilização de Khonshu como personagem em vez de conceito — tudo isso sugere limites que Benson e Moorhead conhecem bem.

Mas o que funcionou em ‘Cavaleiro da Lua’ funciona precisamente porque os diretores entendem que o sobrenatural precisa ter peso emocional. A cena em que Steven Grant descobre o corpo de Marc Spector no Egito — aquele momento de reconhecimento de que ele é uma personalidade, não o ‘original’ — é construída com a paciência de um filme indie, não com a urgência de uma série Marvel. Funciona porque respira.

Em ‘Loki’ temporada 2, Benson e Moorhead levaram essa abordagem para escala maior. A sequência em que Loki ‘desliza’ entre diferentes pontos temporais no escritório da AVT não é apenas efeito visual bacana. É a materialização de uma ansiedade — a sensação de estar em todos os lugares e em nenhum simultaneamente, de perder o controle sobre a própria narrativa temporal. Os diretores fizeram física teórica parecer arte porque trataram o conceito como conflito emocional, não como gimmick de sci-fi.

É essa tradução de conceito abstrato em sentimento concreto que os Midnight Sons exigem. Quando Blade enfrenta uma entidade cósmica que não opera em lógica humana, o público não precisa entender a mitologia. Precisa sentir o peso da impossibilidade. Quando Ghost Rider confronta o demônio que o criou, não importa a hierarquia infernal. Importa a traição existencial de ser ferramenta de algo que você abonia.

Por que o MCU precisa desses diretores para Midnight Sons agora

O MCU tem uma tendência de contratar diretores de comédia ou ação para projetos que exigem outra linguagem. Resultado: filmes que parecem feitos pelo mesmo algoritmo com pequenas variações de paleta de cores. ‘Demolidor: Renascido’ demonstrou que Benson e Moorhead podem operar dentro do sistema sem perder o que os torna únicos.

Mais importante: eles entendem que o horror cósmico e sobrenatural não é sobre sustos baratos. É sobre a confrontação com o incompreensível. É sobre personagens que olham para o abismo e percebem que o abismo não os reconhece como importantes o suficiente para devolver o olhar.

Nos quadrinhos, os Midnight Sons enfrentam ameaças que operam em escalas que a humanidade mal consegue conceitualizar. ‘Deuses Antigos’ que existem fora do tempo, entidades que precedem a própria noção de bem e mal. Adaptar isso sem reduzir a batalhas de efeitos visuais com monstros genéricos exige cineastas que já trabalharam com o incompreensível em escala menor.

Benson e Moorhead passaram uma carreira inteira fazendo exatamente isso. Em ‘O Culto’, o apocalipse pode ser real ou delírio coletivo. Em ‘Resolution’, entidades sobrenaturais observam os personagens sem que nunca entendamos seus motivos. Em ‘Something in the Dirt’, o sobrenatural se revela através de padrões que podem ser coincidência, conspiração, ou insanidade.

Essa recusa em explicar o inexplicável — em dar ao público a satisfação de uma resposta clara — é o que separa terror cósmico de verdade de ‘terror de super-herói’ que usa monstros como obstáculos para serem vencidos com socos.

O momento do MCU é agora — ou nunca

A fadiga de super-heróis não é mito. É sintoma de uma fórmula que parou de evoluir. O público está cansado de ver os mesmos filmes com personagens diferentes. ‘Demolidor: Renascido’ funcionou porque não tentou ser ‘Demolidor no MCU’ — tentou ser um thriller jurídico com um personagem que por acaso veste um traje vermelho às vezes.

‘Thunderbolts’, com sua proposta de anti-heróis, sugere que o estúdio percebeu que a inocência dos Vingadores não sustenta mais. ‘Werewolf by Night’ mostrou que há apetite para horror Marvel. ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’ provou que há público disposto a aceitar tons mais sombrios.

O que falta é a integração desses elementos em uma obra coesa. Midnight Sons seria a oportunidade perfeita para introduzir Blade e Ghost Rider sem o risco de filmes solos que podem fracassar. A equipe permite que a Marvel teste personagens marginais em formato de grupo, com roteiro que prioriza atmosfera sobre expansão de universo.

E Benson e Moorhead, com sua filmografia de terror indie que trata o sobrenatural como sério e os personagens como mais sérios ainda, são os cineastas que esse projeto merece.

Se a Marvel não os escalar para Midnight Sons, estará cometendo o mesmo erro que cometeu ao deixar Edgar Wright sair de ‘Ant-Man’: perder a oportunidade de ter uma voz autoral definindo um canto do universo que ninguém mais poderia definir.

A pergunta não é se Benson e Moorhead podem fazer Midnight Sons funcionar. A pergunta é se o MCU está disposto a deixar alguém fazer Midnight Sons funcionar de verdade — com toda a estranheza, ambiguidade e horror cósmico que o conceito carrega nos quadrinhos.

Depois de ‘Cavaleiro da Lua’ e ‘Demolidor: Renascido’, a resposta parece estar mais próxima do ‘sim’ do que nunca. Resta torcer para o estúdio não desperdiçar o momento.

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Perguntas Frequentes sobre Midnight Sons no MCU

Quem são os Midnight Sons nos quadrinhos Marvel?

Midnight Sons é uma equipe de heróis sobrenaturais formada por Blade, Ghost Rider (Johnny Blaze e Danny Ketch), Cavaleiro da Lua, Morbius, Frank Drake e Hannibal King. Eles combatem ameaças místicas e demoníacas que os Vingadores não conseguem enfrentar.

Cavaleiro da Lua faz parte dos Midnight Sons?

Sim. Marc Spector foi membro recorrente da equipe nos quadrinhos, participando de arcos como ‘Rise of the Midnight Sons’ em 1992. Sua conexão com Khonshu e sua natureza psiquicamente instável o tornam adequado para histórias de ocultismo.

Quais filmes Benson e Moorhead dirigiram antes do MCU?

A dupla dirigiu ‘Resolution’ (2012), ‘Primavera’ (2014), ‘Synchronic’ (2019), ‘O Culto’ (2017) e ‘Something in the Dirt’ (2022). Todos são filmes de terror indie de baixo orçamento que tratam o sobrenatural com seriedade emocional.

Quando sai Midnight Sons no MCU?

A Marvel ainda não anunciou oficialmente um projeto Midnight Sons. Blade, previsto para 2026, pode servir como introdução para o conceito. Especula-se que um filme ou série da equipe seja anunciado após a Fase 6.

Por que Midnight Sons precisa de diretores de terror?

A equipe lida com horror cósmico, entidades lovecraftianas, pactos demoníacos e maldições. Adaptar isso sem reduzir a batalhas genéricas de efeitos visuais exige cineastas que entendam terror como confrontação com o incompreensível, não apenas como sustos e monstros.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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