‘O Beijo da Mulher Aranha’: o thriller subestimado de Diego Luna que fãs de ‘Andor’ vão amar

O marketing vendeu ‘O Beijo da Mulher Aranha’ como musical de Jennifer Lopez, mas o filme é um thriller político sobre resistência sob ditadura. Analisamos por que fãs de ‘Andor’ encontram aqui o companion piece perfeito para a jornada de Diego Luna.

Se você chegou aqui procurando o musical da Jennifer Lopez, tenho uma notícia: o marketing te vendeu o filme errado. O Beijo da Mulher Aranha é muito mais — e muito menos glamouroso — do que os trailers deixaram parecer. É um thriller político sombrio sobre tortura, solidão e os pequenos atos de resistência que mantêm a humanidade intacta quando o mundo tenta destruíla. Diego Luna entrega uma performance de precisão cirúrgica, usando silêncios e microexpressões onde outros atores precisariam de páginas de diálogo.

Não é coincidência que o ator tenha aceito esse papel meses após encerrar sua jornada como Cassian Andor. Em ambos, ele interpreta revolucionários presos por regimes fascistas, homens que descobrem esperança onde não deveria existir. Mas onde Andor tinha a grandiosidade de Star Wars, este filme tem a intimidade sufocante de uma cela compartilhada — e uma linguagem visual que acentua esse confinamento de forma brilhante.

Por que O Beijo da Mulher Aranha é o companion piece perfeito para Andor

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Vamos direto ao ponto: se você amou o arco prisional de Cassian Andor na primeira temporada, este filme foi feito para você. A diferença é que aqui não há fuga épica com ‘One Way Out’ ecoando pelos corredores. A rebelião de Valentin é silenciosa, interna, travada através de histórias contadas na penumbra.

Luna interpreta Valentin Arregui Paz, um revolucionário argentino preso durante a Guerra Suja — aquele período sombrio em que o governo sequestrava, torturava e fazia desaparecer opositores políticos. O homem está quebrado fisicamente, mas se recusa a entregar as informações que seus carcereiros querem. A chegada de Molina (Tonatiuh), seu novo colega de cela, muda tudo. Não porque ele traga libertação, mas porque ele traz escape: os dois viajam para longe através das histórias de um filme romântico estrelado pela personagem de Jennifer Lopez.

A estrutura de história dentro de história pode parecer artifício, mas funciona como contraponto brutal. De um lado, a realidade crua de unhas arrancadas e espíritos esmagados. Do outro, o glamour impossível de um musical hollywoodiano. A fotografia de Tobias A. Schliessler explora esse contraste com maestria: a cela é filmada em tons frios, quase monocromáticos, enquanto as sequências do filme imaginado explodem em cores saturadas e luz dourada. Luna navega entre os dois mundos com uma precisão que conecta o filme diretamente à sua performance em Andor.

A performance que o marketing tentou esconder

Aqui está onde fica difícil não sentir frustração com os estúdios. O filme estreou em Sundance com buzz legítimo, críticas positivas e até conversas sobre indicações ao Oscar para Lopez. Mas com um orçamento de US$ 30 milhões, arrecadou míseros US$ 2 milhões em cinemas. Por quê?

Os trailers venderam espetáculo. Jennifer Lopez em vestidos deslumbrantes, números musicais vibrantes, uma história de amor dentro de uma história de amor. Tudo isso existe no filme — mas não é o que o filme É. Quem foi ao cinema esperando um musical romântico provavelmente saiu confuso com cenas de tortura e diálogos políticos densos. E quem teria amado justamente isso — o drama político sombrio — nem foi, porque nem sabia que existia.

Luna carrega nas costas o peso emocional de uma obra que pede paciência. Seus olhos fazem muito do trabalho: há exaustão neles, mas também uma teimosia que reconhecemos de Cassian Andor. A diferença crucial é que Valentin já está comprometido com a causa desde o primeiro frame. Seu arco não é sobre despertar político, mas sobre redescobrir a humanidade que o fascismo tentou roubar. É uma variação sobre o mesmo tema — e Luna demonstra versatilidade notável ao encontrar tons diferentes na mesma paleta.

Intimidade como ato de resistência

Intimidade como ato de resistência

O que mais me impressiona no filme é como ele paralela a filosofia de Andor sobre resistência. A série Star Wars nos mostrou que rebelião não é apenas explosões e discursos épicos — é também o burocrata que atrasa um documento, o povo de Ferrix que se levanta em luto, a mulher que transmite um discurso proibido. Aqui, a resistência acontece através de conversas sussurradas, de filmes imaginados, de dois homens aprendendo a se importar um com o outro em um lugar projetado para destruir qualquer afeto.

Bill Condon, diretor e roteirista que já assinou ‘Deus e o Mundo’ e ‘A Bela e a Fera’, entende que o fascismo mais efetivo não é apenas físico — é psicológico. Isolar prisioneiros, negar-lhes conexão humana, fazê-los sentir que estão sozinhos contra o mundo. Quando Valentin e Molina se aproximam, estão cometendo um ato subversivo. Não é à toa que os guardiões os vigiam com desconfiança.

A química entre Luna e Tonatiuh é o motor silencioso do filme. Tonatiuh traz uma vulnerabilidade que contrasta com a rigidez inicial de Valentin — e ver as barreiras desmoronarem aos poucos é mais tenso do que qualquer número de dança. O som contribui para essa construção: a trilha de Alberto Iglesias pontua os momentos de fantasia, mas abandona os dois homens em silêncio durante as cenas de cela, forçando o espectador a sentir o mesmo isolamento. Lopez, é claro, está à vontade no filme dentro do filme, mas sua função é servir como espelho: o glamour que ela representa torna a realidade dos prisioneiros ainda mais brutal por contraste.

Um erro de posicionamento que custou caro

Não dá para ignorar o elefante na sala: US$ 2 milhões de bilheteria contra US$ 30 milhões de orçamento. Isso não é apenas um fracasso comercial — é um sintoma de quão mal o filme foi comunicado ao público. Fãs de Andor que poderiam ter lotado cinemas procurando por exatamente esse tipo de narrativa política nunca souberam que o filme existia nesse registro.

Comparando com a recepção de Andor, que foi amplamente celebrada por tratar fascismo com seriedade em um universo de blockbusters, fica claro que havia audiência para isso. O problema é que ninguém disse a essa audiência que o filme existia. Em vez de ‘do ator de Andor vem um thriller político sobre resistência sob ditadura’, a campanha focou em Lopez e glamour — e perdeu justamente quem teria abraçado a obra.

O filme está disponível no Hulu e no Star+ na América Latina, e essa pode ser sua segunda chance. Streaming tende a permitir descobertas mais orgânicas, sem o ruído de campanhas de marketing mal direcionadas. Se você chegou até este texto, provavelmente é parte da audiência que deveria ter sido cortejada desde o início.

Veredito: para quem vale a pena?

Vou ser direto: se você buscou este texto porque é fã de Andor e quer mais de Diego Luna em registro político, vá assistir. O filme tem problemas de ritmo no primeiro ato e a estrutura de história dentro de história pode irritar quem prefere narrativas lineares, mas o que funciona funciona muito bem. A performance de Luna vale por si só.

Agora, se você está procurando um musical animado com Jennifer Lopez, esse não é o filme. As cenas musicais existem, são bonitas, mas servem a um propósito narrativo específico. Elas não são o destino — são o veículo.

O Beijo da Mulher Aranha merece ser visto pelo que realmente é: um estudo sobre como a humanidade sobrevive em condições desumanas. É sobre política, sim, mas também sobre a política do cotidiano — como compartilhar uma história, um olhar, um momento de beleza pode ser um ato de rebelião tão poderoso quanto qualquer discurso no Senado Galáctico. Diego Luna provou em Andor que consegue carregar narrativas complexas sobre resistência. Aqui, ele faz isso em escala menor, mas não menos impactante. O filme que o marketing escondeu finalmente está disponível. Cabe a nós encontrá-lo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Beijo da Mulher Aranha’

Onde assistir ‘O Beijo da Mulher Aranha’ (2025)?

O filme está disponível no Hulu nos Estados Unidos e no Star+ na América Latina. Não há previsão de chegada a outras plataformas.

‘O Beijo da Mulher Aranha’ é um musical?

Não. O filme contém sequências musicais com Jennifer Lopez, mas elas funcionam como narrativa dentro da narrativa — são histórias que um prisioneiro conta para o outro. O filme principal é um drama político sobre prisão e tortura.

É remake de qual filme?

É adaptação do romance de Manuel Puig, já levado ao cinema em 1985 no filme brasileiro de Hector Babenco com William Hurt e Raul Julia. A versão de 2025 é uma nova adaptação, não um remake direto do filme de Babenco.

Qual a conexão entre o filme e ‘Andor’?

Diego Luna protagoniza ambos como personagens presos por regimes fascistas que descobrem formas de resistência. Tematicamente, as obras tratam de luta contra opressão e os pequenos atos de humanidade que sustentam a esperança. Fãs da série Star Wars encontrarão ecos do arco prisional de Cassian Andor.

Qual a classificação indicativa?

O filme é classificado como R nos Estados Unidos (menores de 17 acompanhados de adulto) e 16 anos no Brasil, por conter cenas de tortura, linguagem forte e temas políticos densos.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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