Em ‘Lindas e Letais’, o elenco passou cinco semanas transformando balé em estilo de luta. Analisamos como o contraste entre dançarinas profissionais e iniciantes criou ação com autenticidade rara — e por que o ‘ballet-fu’ funciona onde outros conceitos falhariam.
Quando Vicky Jewson decidiu fazer um filme de ação com bailarinas, ela poderia ter simplesmente colocado atrizes bonitas fazendo piruetas e chutando vilões. Felizmente, fez algo muito mais interessante: criou o ‘ballet-fu’ — um estilo de luta onde cada movimento de combate nasce de um passo de dança. O resultado é Lindas e Letais, filme que estreia na Prime Video em 25 de março e chega com 90% de aprovação no Rotten Tomatoes após sua estreia no SXSW. Mas o que torna este projeto peculiar não é apenas a premissa — é o contraste brutal entre um elenco que vai de dançarinas profissionais a quem nunca tinha feito um plié na vida.
Como nasceu o ‘ballet-fu’ de Lindas e Letais
A ideia soa quase absurda no papel: misturar balé clássico com artes marciais. Mas Jewson não improvisou. Antes de rodar uma única cena de ação, ela foi conversar com prima ballerinas para entender se aquilo fazia sentido. A resposta que recebeu mudou completamente a abordagem do filme.
‘A primeira coisa que me disseram foi que elas veem seus corpos como armadura, como superpoder’, contou a diretora em entrevista no SXSW. Esse insight tornou-se a base de tudo. As personagens de Lindas e Letais não são lutadoras profissionais — são dançarinas forçadas a sobreviver. Cada golpe precisa vir de um movimento que elas já dominam.
O team de stunt que trabalhou no filme tem pedigree: vem de Bailarina: Do Universo de John Wick e Duna. Mas Jewson impôs uma regra clara: nada de copiar a gramática de John Wick – De Volta ao Jogo. Aqui, a ação precisa carregar a identidade do balé — a disciplina extrema, a competição interna, e principalmente, a necessidade de trabalhar em grupo mesmo quando você quer matar a colega que ganhou seu solo.
A mecânica é simples no conceito, complexa na execução: um grand jeté vira um chute lateral devastador. Um pirouette transforma-se em esquiva seguida de contra-ataque. O alongamento extremo que bailarinas desenvolvem desde a infância permite extensões de chute que lutadores convencionais não alcançam. Mas também cria vulnerabilidades — a postura ereta do balé expõe o centro de gravidade, então o coreógrafo de lutas precisou adaptar cada movimento para proteger os pontos fracos enquanto explorava os pontos fortes.
Do estrelato ao zero: o abismo de experiência do elenco
Se existe algo que separa Lindas e Letais de outros filmes de ação com elenco feminino, é o elenco em si. Maddie Ziegler — a bailarina que se tornou fenômeno mundial dançando nos clipes de Sia — contracena com Millicent Simmonds, que nunca tinha feito uma aula de dança na vida. A dinâmica entre essas duas realidades criou algo que poucos filmes de ação conseguem: autenticidade corporal.
Ziegler assumiu seu papel de referência natural. ‘Maddie foi tão útil para todas nós’, disse Lana Condor. ‘Sempre encorajadora, paciente. Eu nunca fui boa em balé, demora para a coreografia entrar no meu corpo. Ela ficava tipo: ‘Tá tudo bem, você consegue’.’ Não é apenas bondade — é reconhecimento de que a dança de alto nível exige uma mentalidade que não se improvisa.
Do outro lado, Simmonds — que cresceu jogando futebol e estreou em Um Lugar Silencioso — pulou de cabeça em um mundo completamente alienígena. ‘Foi tão desafiador’, admitiu. ‘Mas tive a sorte de ter meses de treinamento em Utah antes de chegar no set.’ O resultado? Avantika Vandanapu, que também cresceu dançando, confessou: ‘A Millie é tão boa. Ela diz que não tem background, mas tem tanta graça, é tão ágil. Ela tinha o melhor chute do elenco.’
Iris Apatow trouxe uma experiência de meio-termo: fez cheerleader competitiva na adolescência. ‘É outro esporte que te empurra ao limite e além, e você precisa estar perfeita, sorrindo. É parecido com o balé.’ Mas ela foi rápida em reconhecer a diferença: ‘Não existe nada como o balé. Seu corpo nunca chega no nível dessas meninas. Nem perto.’
Ballet bootcamp: quando o treinamento virou rotina
Ninguém fez filme de ação fingindo competência. Jewson montou o que o elenco batizou de ‘ballet bootcamp’ — cinco semanas de treinamento intensivo em Budapeste, com aulas diárias ministradas por uma diretora de balé premiada com o Lawrence Olivier Award. O team de stunt completo estava presente. Todo mundo colocou as horas.
‘Foi como um acampamento de verão’, resumiu Apatow. Mas Avantika trouxe um detalhe que revela muito sobre a mentalidade do filme: ela e Maddie treinaram juntas em Los Angeles antes de ir para Budapeste. ‘Chegar na aula e ver a Maddie… ela dizia ‘tô enferrujada também’. Enferrujada pra ela é meu melhor dia no meu auge. Mas foi ótimo ter essa preparação.’
O que emerge desses depoimentos não é apenas dedicação — é consciência corporal. Cada atriz sabia exatamente onde estava na hierarquia de habilidade, e isso informou como suas personagens se movem na tela. Quando Ziegler faz um movimento complexo em cena, há décadas de treino por trás. Quando Simmonds executa o mesmo movimento, há meses de esforço concentrado — e essa diferença é visível, humana, real.
O que cada ‘bailarina lutadora’ traz para a tela
O conceito de ‘superpoder’ para cada personagem foi discutido exaustivamente no set. Grace, interpretada por Avantika, funciona como ‘bússola moral do grupo’ — sua coreografia de luta é mais contida, refletindo uma personagem que precisa aprender que ‘ser boa às vezes significa ser o vilão’. Chloe, de Simmonds, é independente ao extremo, obcecada pela arte da dança, e precisa descobrir que não soba sozinha. Princess, de Lana Condor, usa teimosia e atitude como combustível para sobreviver — ‘ela está irritada e inconveniente por estar morrendo, e isso dá a energia pra continuar’.
Bones, a personagem de Ziegler, carrega a narrativa mais dura: ‘A vida dela sempre foi sobrevivência. Ela é bruta, e a dança é a primeira vez que sente que pertence a algum lugar.’ A jornada da personagem espelha algo que o filme entende profundamente — ir de proteger apenas a si mesma para aceitar que precisa do grupo.
Uma Thurman como a vilã que já foi protagonista
Thurman não dança no filme — e isso é intencional. Sua personagem, Devora Kasimer, é uma ex-prodígio do balé que se tornou líder de uma gangue. ‘Ela está presa no sonho de infância’, explicou Jewson. ‘É o que torna sua devolução interessante, e o que conecta todas elas.’
A atriz trouxe algo que ninguém mais poderia: ela já foi o ícone de ação feminina que esse elenco cresceu admirando. ‘Vocês estavam me fazendo Kill Bill’, Thurman disse para as colegas. A resposta de Ziegler foi reveladora: ‘Você era nossa refercia antes mesmo de assinar o contrato. Estávamos te citando. Foi extremamente circular.’
Thurman também trouxe humor involuntário para o processo. ‘Fui expulsa da aula de balé. Era alta alta demais, meus pés eram grandes demais. A professora simplesmente mandou embora.’ A ironia de se tornar conhecida por dançar — ela citou a música do Fall Out Boy ‘Dance Like Uma Thurman’ — não passa despercebida. ‘Ballet teachers são muito cruéis. Elas precisam ensinar disciplina extrema. O método é duro.’
Por que ‘Lindas e Letais’ funciona onde outros falhariam
Lindas e Letais chega em um momento curioso para o cinema de ação feminino. Depois de Bailarina: Do Universo de John Wick e diversos projetos que colocam mulheres em papéis tradicionalmente masculinos, o filme de Jewson faz algo diferente: não pede desculpas por ser sobre bailarinas, não tenta transformá-las em soldados genéricos.
O ‘ballet-fu’ funciona porque nasce de uma premissa honesta — essas mulheres não são lutadoras, são artistas que descobrem que seus corpos treinados por anos de disciplina extrema podem ser armas. A mistura de experiências reais do elenco cria uma textura que filmes com elenco treinado de forma uniforme raramente alcançam.
Para quem gosta de ação coreografada com alma, Lindas e Letais entrega. Para quem curte ver elencos femininos que realmente trabalharam juntas antes de fingir se odiar na tela, melhor ainda. E para quem sempre quis ver Uma Thurman no outro lado da luta — desta vez sendo ‘Kill Bill-ada’ por uma nova geração — há um prazer metalinguístico que o filme sabe explorar.
Fica a pergunta: quantos filmes de ação teriam coragem de investir cinco semanas em ballet bootcamp antes de rodar uma única cena de luta? Lindas e Letais aposta que essa preparação faz diferença. Pelo que vimos nas entrevistas e na recepção crítica, a aposta valeu.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Lindas e Letais’
Onde assistir ‘Lindas e Letais’?
‘Lindas e Letais’ estreia exclusivamente na Prime Video em 25 de março de 2026. É uma produção original da plataforma.
O que é ‘ballet-fu’ no filme?
‘Ballet-fu’ é o estilo de luta criado para o filme, onde cada movimento de combate nasce de um passo de dança clássica. Um grand jeté vira um chute lateral, um pirouette transforma-se em esquiva. O conceito explora o fato de que bailarinas têm alongamento e controle corporal que lutadores convencionais não desenvolvem.
‘Lindas e Letais’ tem conexão com ‘John Wick’?
Não são do mesmo universo. A conexão é o team de stunt — os mesmos profissionais que trabalharam em ‘Bailarina: Do Universo de John Wick’ coreografaram as lutas de ‘Lindas e Letais’. Mas a diretora Vicky Jewson impôs que a gramática de ação fosse diferente, com identidade própria do balé.
Quem está no elenco de ‘Lindas e Letais’?
O elenco principal inclui Maddie Ziegler (bailarina dos clipes de Sia), Millicent Simmonds (‘Um Lugar Silencioso’), Lana Condor (‘To All the Boys I’ve Loved Before’), Avantika Vandanapu e Iris Apatow. Uma Thurman interpreta a vilã Devora Kasimer.
Quanto tempo durou o treinamento do elenco?
O elenco passou cinco semanas de treinamento intensivo em Budapeste — o ‘ballet bootcamp’ — com aulas diárias de balé ministradas por uma diretora premiada com o Lawrence Olivier Award. Algumas atrizes, como Maddie Ziegler e Avantika Vandanapu, treinaram juntas adicionalmente em Los Angeles antes do bootcamp.

