‘Uma Segunda Chance’: bom elenco preso num roteiro raso

‘Uma Segunda Chance’ confirma um padrão preocupante nas adaptações de Colleen Hoover: elencos talentosos — Maika Monroe, Bradley Whitford, Lauren Graham — presos num roteiro que transforma trauma em decoração e abandona suas melhores ideias no segundo ato. Uma análise do problema estrutural que já atravessa três filmes.

Existe um padrão nas adaptações de Colleen Hoover que, a esta altura, já deveria ter nome próprio. Três filmes, três elencos acima da média, três roteiros que não fazem jus ao que os atores poderiam entregar. ‘Uma Segunda Chance’ é o mais recente exemplo — e talvez o mais frustrante, porque o material de base tinha potencial real para ser diferente dos anteriores.

Mas não foi.

O elenco que merecia um roteiro melhor

O elenco que merecia um roteiro melhor

Maika Monroe é uma atriz que sabe habitar silêncios. Quem a viu em ‘It Follows’ sabe que ela consegue carregar peso emocional sem precisar de diálogos explicativos — o corpo dela atua. Em ‘Uma Segunda Chance’, ela interpreta Kenna, uma mulher que volta à cidade natal depois de sair da prisão e tenta se reconectar com a filha que nunca conheceu. É uma premissa carregada, o tipo de situação que exige atriz com camadas. Monroe tem essas camadas. O roteiro, não.

Tyriq Withers, como Ledger, traz uma culpa sutil que colore cada cena com ele — uma hesitação aqui, um olhar evitado ali. O problema é que o filme nunca se aprofunda nessa culpa partilhada entre os dois personagens de forma consistente. Você sente que há algo genuíno sendo construído nas trocas entre eles, e então o script muda de assunto. É como assistir a dois músicos improvisando algo bonito enquanto um produtor fica interrompendo para adicionar trilha genérica por cima.

Bradley Whitford e Lauren Graham, nos papéis dos avós da criança, fazem algo que poucos atores conseguem: mostram raiva e amor simultaneamente, sem que um anule o outro. Há uma cena em que Graham simplesmente olha para Kenna — sem falar nada — e você entende tudo o que aquela personagem carrega: anos de dor, de dúvida, de proteção. É um trabalho fino que o filme não merece. Jennifer Robertson aparece em momentos cômicos que insinuam uma profundidade de personagem que o roteiro jamais tem coragem de desenvolver.

Todos esses atores fazem o que bons atores fazem: tentam encontrar a humanidade onde o texto não a fornece. Às vezes conseguem. Mas não deveriam precisar tanto.

O padrão que ‘É Assim Que Acaba’ e ‘Se Não Fosse Você’ já anunciavam

Quando ‘É Assim Que Acaba’ chegou em 2024, a crítica notou que o filme tinha uma abordagem razoável para um tema delicado — violência doméstica — mas nunca cavou fundo o suficiente. Em 2025, ‘Se Não Fosse Você’ repetiu o movimento: luto como pano de fundo emocional para uma história de romance que, no fundo, não queria lidar com o luto de verdade. Agora, ‘Uma Segunda Chance’ completa uma trilogia não-intencional de adaptações que prometem complexidade e entregam superfície.

Não é coincidência. É um problema sistêmico de como esses roteiros são construídos.

Os livros de Colleen Hoover funcionam, em parte, porque a prosa dá acesso à vida interior dos personagens de uma forma que o cinema precisaria traduzir ativamente. É um desafio real de adaptação — transformar introspeção em imagem. Mas em vez de enfrentar esse desafio, os três filmes optam pelo caminho mais fácil: mostrar o trauma como evento, não como processo. Algo ruim aconteceu, o personagem conhece alguém, o amor resolve o que anos de dor não resolveram. Pronto.

Em ‘Uma Segunda Chance’, isso fica especialmente claro no personagem de Scotty — o namorado morto de Kenna e melhor amigo de Ledger, figura central para entender por que esses dois se atraem e se culpam ao mesmo tempo. Nos flashbacks, ele aparece como uma espécie de ‘cara perfeito sem personalidade’, uma função narrativa em vez de uma pessoa. Se o filme tivesse investido em torná-lo real e contraditório, a dinâmica entre Kenna e Ledger teria peso moral genuíno. Sem isso, vira drama de superfície.

O cinema recente provou que é possível fazer muito mais com esse tipo de material. De ‘Manchester by the Sea’ a ‘Aftersun’, o luto como motor de conexão rendeu filmes que ficam na cabeça por semanas. As adaptações de Hoover parecem ter medo exatamente da profundidade que tornaria essas histórias memoráveis.

A ideia que o segundo ato esquece que teve

A ideia que o segundo ato esquece que teve

Tem algo interessante enterrado em ‘Uma Segunda Chance’: no primeiro ato, os personagens secundários funcionam como espelhos distorcidos dos protagonistas. Os avós guardam a mesma dualidade de amor e ressentimento que Kenna e Ledger precisam superar. É uma estrutura com potencial real — usar o entorno para amplificar o que está acontecendo no centro.

O problema é que essa lógica some no segundo ato. O filme a abandona quando mais precisaria dela, justamente no momento em que os conflitos começam a se resolver. É como se o roteirista tivesse tido a ideia, implementado pela metade e então esquecido dela. O resultado é uma sensação persistente de promessa não cumprida — que, curiosamente, é também a sensação que os três filmes deixam.

Bonito por fora, vazio por dentro

‘Uma Segunda Chance’ é decentemente fotografado. Há composições cuidadosas, uma paleta que sabe o que quer. Visualmente, não é um filme desleixado. Isso torna a superficialidade do roteiro ainda mais evidente — como uma casa bem decorada sem paredes estruturais.

O que incomoda não é que o filme seja incompetente. É que ele consistentemente escolhe o menos quando poderia escolher o mais. Cada vez que surge uma oportunidade de aprofundar um personagem, o script desvia. Cada vez que uma cena começa a construir tensão emocional real, algo acontece para aliviar antes da hora.

Com o mesmo elenco e um roteiro disposto a confiar na inteligência emocional do público, esse poderia ser um filme sobre culpa, redenção e o peso de amar alguém conectado à sua pior memória. Existe esse filme em potencial. Só não é o que foi lançado.

Se você já viu os dois anteriores e gostou apesar dos problemas, vai se sentir em casa — os pontos fortes e fracos são os mesmos. Se entrou esperando que desta vez as adaptações de Hoover tivessem resolvido o roteiro, prepare-se para a mesma frustração. E se você for fã da Maika Monroe, ao menos tem o consolo de vê-la fazer o melhor possível com o que recebeu — o que, no caso dela, ainda resulta em momentos genuinamente bons.

Só fica a pergunta que persiste depois dos três filmes: em algum momento alguém vai dar a esses elencos um roteiro à altura?

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Perguntas Frequentes sobre ‘Uma Segunda Chance’ filme

Onde assistir ‘Uma Segunda Chance’ (2026)?

‘Uma Segunda Chance’ estreou nos cinemas em março de 2026. Verifique a disponibilidade em plataformas de streaming conforme a janela de exibição for encerrada.

‘Uma Segunda Chance’ é baseado em livro?

Sim. O filme é adaptação do romance ‘Reminders of Him’ (2022), de Colleen Hoover. O livro acompanha Kenna, uma jovem que, após sair da prisão, tenta se reconectar com a filha que não conheceu — e acaba se envolvendo com Ledger, melhor amigo do pai da criança.

Preciso ter visto os outros filmes de Colleen Hoover antes?

Não. ‘Uma Segunda Chance’ é uma história independente, sem conexão com ‘É Assim Que Acaba’ ou ‘Se Não Fosse Você’. Cada adaptação traz personagens e enredos distintos.

Quem são os atores principais de ‘Uma Segunda Chance’?

O elenco principal inclui Maika Monroe como Kenna, Tyriq Withers como Ledger, Bradley Whitford e Lauren Graham como os avós da criança, e Jennifer Robertson em papel de suporte.

‘Uma Segunda Chance’ vale a pena assistir?

Depende do que você busca. Se você curtiu as adaptações anteriores de Colleen Hoover apesar das limitações roteirizadas, vai se sentir em casa. Se espera uma evolução em relação a ‘É Assim Que Acaba’ e ‘Se Não Fosse Você’ no quesito profundidade dramática, a frustração deve ser a mesma. O elenco — especialmente Maika Monroe e Lauren Graham — entrega momentos genuinamente bons dentro das restrições do script.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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