‘Slanted’ usa body horror não para falar de vaidade, mas de autoódio étnico internalizado: uma adolescente chinesa-americana que decide cirurgicamente se tornar branca. Analisamos por que o filme de Amy Wang vai a um lugar mais doloroso — e mais humano — do que ‘A Substância’.
Existe um tipo de horror que não vem de monstros externos, mas do que vemos no espelho. ‘Slanted’ entende isso com uma clareza perturbadora — e usa o corpo como campo de batalha para algo que vai muito além da vaidade superficial que vimos em ‘A Substância’. Aqui, a transformação física é sobre sobrevivência emocional, sobre o peso de crescer odiando a própria face por causa de um mundo que nunca te quis como você é.
Escrito e dirigido por Amy Wang, ‘Slanted’ chega como uma das fusões de gênero mais honestas dos últimos anos: parte teen dramedy, parte body horror, parte sátira social afiada. A protagonista Joan Huang, filha de imigrantes chineses nos Estados Unidos, toma uma decisão que soa absurda em um primeiro momento — submeter-se a uma cirurgia experimental que a transforma em uma garota branca. Mas Wang constrói essa premissa bizarramente high-concept com tanta legitimidade emocional que, no meio do primeiro ato, você para de pensar ‘isso é ridículo’ e começa a pensar ‘isso é devastadoramente real’.
O body horror como metáfora para o apagamento de si mesmo
A comparação com ‘A Substância’ é inevitável e até justa — ambos usam transformações corporais grotescas para falar sobre pressões estéticas. Mas onde o filme de Coralie Fargeat foca na obsessão com a juventude e a beleza como validação profissional, ‘Slanted’ vai para um lugar mais específico e doloroso: o desejo de se tornar racialmente ‘aceitável’. Joan não quer apenas ser bonita. Ela quer ser branca. E essa distinção muda completamente o peso da narrativa.
O horror aqui não está apenas nas cenas de transformação — que existem e são desconfortáveis, mas nunca chegam aos extremos viscerais de ‘A Substância’. Está na normalização da ideia. Wang constrói um mundo onde a cirurgia para ‘embranquecer’ é tratada como procedimento estético comum, com outdoors de famílias brancas sorridentes convidando pessoas de todas as raças a ‘se juntarem a elas’. É absurdo, sim. Também é uma sátira que machuca porque reconhecemos o fundo de verdade nela — o racismo internalizado não precisa de monstros. Ele vive em formulários de matrícula, em comentários de ‘você fala tão bem o inglês’, em décadas de ausência em telas de cinema.
Quando Joan passa a se chamar ‘Jo’ e entra em um novo círculo social, o filme pede que Shirley Chen (a Joan original) se apague para dar lugar a Mckenna Grace (a Jo ‘transformada’). A troca de atrizes funciona como um comentário visual brutal: a menina chinesa-americana literalmente desaparece para que a versão branca possa existir. Chen e Grace entregam performances que se comunicam através do corte — há uma dor compartilhada entre as duas versões do mesmo personagem, um reconhecimento silencioso de que a transformação não trouxe paz, apenas um novo tipo de solidão. Chen em particular carrega o primeiro ato inteiro com olhos que dizem o que o roteiro não precisa escrever.
‘Slanted’ como cinema da diáspora: o que ‘Corra!’ abriu e Wang aprofunda
Jordan Peele demonstrou em ‘Corra!’ que o horror de ser visto como outro — de ter sua identidade reduzida, consumida, apagada — tem potência cinematográfica equivalente a qualquer slasher. ‘Slanted’ herda esse legado, mas desloca o foco: onde ‘Corra!’ trata o negro como objeto de fetiche e apropriação, aqui o apagamento é voluntário. Joan não é vítima de um sistema que a sequestra; ela assina o contrato. E isso é mais perturbador, não menos.
Wang está filmando o autoódio étnico internalizado — aquele que não precisa de vilão externo porque já foi absorvido tão completamente que virou desejo próprio. A cirurgia não é imposta. É sonhada. É poupada. É comemorada. Esse deslocamento transforma ‘Slanted’ em algo que ‘Corra!’ não tentou ser: um retrato de dentro para fora, onde o horror maior não é o que o mundo faz com você, mas o que você faz consigo mesmo quando o mundo te convenceu de que é necessário.
Teen dramedy com feridas que não cicatrizam
O risco de ‘Slanted’ é evidente: misturar humor adolescente com body horror e comentário racial soa como receita para bagunça tonal. Wang não evita todos os problemas. O filme perde foco em momentos, tentando ser muitas coisas ao mesmo tempo — sátira campy, drama familiar, horror visceral, coming-of-age. Funciona mais como experiência emocional do que como obra coesa, e quem busca a precisão cirúrgica de ‘Corra!’ pode sair frustrado.
Mas a autenticidade da experiência adolescente salva o filme de ser apenas uma mistura malfeita. Os conflitos de Joan com seus pais imigrantes seguem arquétipos conhecidos — a pressão pelos bons resultados, a comunicação falha, o abismo cultural entre gerações — mas são interpretados com tanta verdade que não soam como preguiça de roteiro. A frustração de Joan não é genérica; é específica de alguém que cresceu sentindo que sua própria existência era um erro a ser corrigido.
Maitreyi Ramakrishnan, como a melhor amiga de Joan, e Amelie Zilber, como a nova colega de Jo, servem como espelhos morais opostos. Uma representa a conexão que Joan abandona; outra, o mundo que ela tenta desesperadamente conquistar. Nenhuma das duas é vilã ou santa — e isso é crucial para o filme funcionar. ‘Slanted’ recusa a tentação de julgar Joan por sua escolha. Em vez disso, pergunta: o que você faria se o mundo te dissesse, toda a sua vida, que você nasceu errado?
Por que ‘Slanted’ merece ser visto além do hype de ‘A Substância’
Dizer que ‘Slanted’ é ‘o A Substância para questões raciais’ seria uma simplificação injusta. Amy Wang criou algo que dialoga com o momento do body horror — gênero que vive um renascimento com ‘A Substância’, ‘Corra!’ e obras como ‘Titane’ e ‘Men’ nos últimos anos — mas carrega sua própria identidade. O filme é menos polido, menos controlado, talvez menos ‘perfeito’ como experiência cinematográfica. Também é mais humano.
A cena que pega despreparado não é uma transformação grotesca. É um momento aparentemente simples: Joan, ainda em seu corpo original, olhando para as garotas brancas populares na escola, e você percebe que não há inveja nesses olhos — há um luto silencioso. Ela não quer ser elas. Ela quer ser permitida a existir no mesmo espaço que elas. A diferença é fundamental, e Wang tem a delicadeza de não sublinhar o momento com trilha sonora ou close-up didático. A câmera só observa.
Para quem normalmente evita body horror por não aguentar o visual explícito, ‘Slanted’ é uma entrada acessível. O grotesco existe, mas serve à narrativa, não ao choque pelo choque. A recompensa de aguentar o desconforto é um filme que diz algo real sobre crescer odiando o que se é — e sobre a ilusão de que mudar o exterior conserta o que está quebrado por dentro.
Veredito: quando o horror é espelho
‘Slanted’ não é perfeito. Sua ambição de fundir gêneros às vezes cria uma experiência que perde foco, e a sátira caminha no limite do campy de uma forma que pode afastar quem busca algo mais soturno. Mas a clareza de sua visão emocional compensa as falhas estruturais. Amy Wang fez um filme sobre uma adolescente que decide apagar sua própria identidade racial — e teve a coragem de tratar essa decisão não como loucura, mas como resposta lógica a um mundo que a rejeitou primeiro.
Se você curte body horror com substância, teen dramas com dentes ou simplesmente filmes que dizem algo verdadeiro sobre crescer em um corpo que o mundo te ensinou a odiar, vale a sessão. Para quem espera algo tão preciso quanto ‘Corra!’ ou tão visualmente agressivo quanto ‘A Substância’, o ajuste de expectativa é necessário. ‘Slanted’ é mais bagunçado, mais emocional, mais imperfeito. Também é mais pessoal — e talvez seja exatamente isso que o torne memorável.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Slanted’
Onde assistir ‘Slanted’?
‘Slanted’ está disponível no MUBI desde março de 2026, após passagem por festivais incluindo Sundance. Verifique a disponibilidade na sua região, pois janelas de streaming podem variar.
‘Slanted’ é tão perturbador visualmente quanto ‘A Substância’?
Não. ‘Slanted’ tem cenas de transformação corporal desconfortáveis, mas bem menos viscerais do que ‘A Substância’. O foco do horror é emocional e social, não visual. É uma entrada mais acessível para quem não costuma assistir body horror.
Quem são as atrizes que interpretam Joan em ‘Slanted’?
Shirley Chen interpreta Joan Huang, a protagonista original. Após a transformação, o personagem passa a ser interpretado por Mckenna Grace. A troca de atrizes é uma escolha narrativa intencional — a menina chinesa-americana literalmente desaparece para que a versão branca exista.
‘Slanted’ é baseado em história real ou livro?
Não. ‘Slanted’ é roteiro original de Amy Wang. A premissa é ficção científica satírica, mas se inspira em discussões reais sobre racismo internalizado, padrões de beleza eurocêntricos e a experiência de adolescentes da diáspora asiática nos Estados Unidos.
Para quem ‘Slanted’ não é recomendado?
Quem busca horror puro e constante ou a precisão narrativa de ‘Corra!’ pode sair frustrado — o filme mistura gêneros de forma às vezes irregular. Também pode ser emocionalmente pesado para quem tem histórico com questões de identidade racial e autoestima.

