Por que ‘Better Call Saul’ superou ‘Breaking Bad’ e redefiniu o spinoff

Better Call Saul não só escapou da sombra de Breaking Bad como a ultrapassou. Analisamos por que Jimmy McGill é um antierói mais complexo que Walter White, e como a 6ª temporada representa o pico narrativo de todo o universo Gilligan.

Existe uma pergunta que persegue qualquer série derivada antes mesmo de ela estrear: por que isso existe? No caso de Better Call Saul, a resposta chegou devagar — e isso faz parte do que torna a série tão notável. Não foi amor à primeira vista. Foi o tipo de amor que você só reconhece quando olha para trás e percebe que aquele show mudou o que você espera de televisão.

Vou ser direto sobre minha posição: Better Call Saul não apenas escapou da sombra de ‘Breaking Bad’ — ele a ultrapassou. E não por pouco.

O spinoff que não deveria funcionar

O spinoff que não deveria funcionar

Em 2015, quando ‘Better Call Saul’ estreou, o ceticismo era justificado. ‘Breaking Bad’ havia encerrado dois anos antes como uma das séries mais aclamadas da história da televisão. Propor um desdobramento protagonizado pelo advogado trapaceiro cômico da série — sem Walter White, sem Jesse Pinkman, centrado em Bob Odenkirk, conhecido principalmente como ator de esquetes — soava como aposta suicida.

E os primeiros episódios realmente hesitavam. Havia uma busca por tom, uma incerteza sobre quanto humor cabia numa narrativa tão sombria. O formato de comédia procedimental planejado originalmente foi abandonado durante o desenvolvimento, mas os fantasmas desse plano ainda assombravam as primeiras horas. Dava para sentir os criadores Vince Gilligan e Peter Gould testando os limites do que tinham construído.

Então Jimmy McGill começou a se revelar. E tudo mudou.

Jimmy McGill é um antierói mais complexo que Walter White — e o roteiro prova isso

Walter White é uma tragédia sobre o ego. A queda de Walt segue uma lógica quase aristotélica: um homem que confunde competência com virtude, que usa a doença e a humilhação como desculpa para o que sempre desejou ser. É poderoso. Mas é também, em retrospecto, bastante legível.

Jimmy McGill é outra coisa. A série passa seis temporadas argumentando — de forma cada vez mais sofisticada — que Jimmy não nasceu Saul Goodman. Ele foi moldado assim. Pela relação com o irmão Chuck, cujo desprezo velado por Jimmy é um dos retratos mais perturbadores de ressentimento familiar que já vi em qualquer ficção. Pelo sistema jurídico que o rejeitou repetidamente não por falta de talento, mas por falta de pedigree. Por cada pequena capitulação moral que parecia razoável no momento.

Essa é a diferença fundamental: Walter White escolhe o mal com crescente entusiasmo. Jimmy McGill escorrega para ele, tenta se segurar, às vezes consegue por um tempo — e então escorrega de novo. O processo é doloroso de assistir porque é reconhecível de uma forma que Walt nunca foi.

A 6ª temporada como o pico de um universo inteiro

A 6ª temporada como o pico de um universo inteiro

Assistir à sexta temporada de ‘Better Call Saul’ foi uma experiência que não consigo comparar a muita coisa. Lembro de ficar acordado depois de ‘Fun and Games’ — o episódio onde o casamento de Jimmy e Kim desmorona de forma irreversível — não pelo evento em si, mas pela frieza cirúrgica com que a série o constrói ao longo de horas. Você vê chegando, não consegue desviar, e quando chega é pior do que esperava.

A temporada final opera em pelo menos três registros simultâneos. Há o thriller de alta voltagem — o confronto entre Gus Fring e Lalo Salamanca no episódio ‘Point and Shoot’ é das sequências mais tensas que a televisão produziu nesta década, com uma montagem que intercala silêncios sufocantes com violência repentina. Há a tragédia íntima de Jimmy e Kim Wexler, que a série transforma no epicentro emocional de todo o universo Gilligan. E há a reflexão quase filosófica sobre identidade, sobre o ponto em que uma persona adotada deixa de ser máscara e vira rosto.

A mudança de paleta de cores para os segmentos em preto e branco — representando o presente pós-‘Breaking Bad’ de Gene Takavic — não é detalhe estético. É linguagem. A série usa cor como argumento: quando Jimmy perde o acesso ao colorido, perde algo essencial sobre si mesmo. É o tipo de decisão visual que só funciona quando o roteiro merece.

O que ‘Breaking Bad’ fez que ‘Better Call Saul’ faz melhor

‘Breaking Bad’ foi revolucionário na sua representação do crime organizado como burocracia — o cartel como empresa, com hierarquias, ineficiências e política interna. ‘Better Call Saul’ herda esse vocabulário e o expande. Gus Fring, que em ‘Breaking Bad’ era uma ameaça magnética mas relativamente opaca, torna-se em ‘Better Call Saul’ um homem que sacrificou tudo — humanidade, relacionamentos, alegria — por uma vingança que nunca o satisfará. Mike Ehrmantraut deixa de ser o pragmático durão e se torna um pai destroçado negociando com a culpa.

Isso não é apenas fan service competente. É o que a melhor ficção seriada faz: aproveita a arquitetura de um mundo já construído para explorar andares que a série original não tinha tempo de habitar.

E tem algo mais técnico que precisa ser dito: a direção de ‘Better Call Saul’ é frequentemente superior. Os episódios finais da sexta temporada mostram um domínio de linguagem cinematográfica — composição de quadro que usa espelhos e reflexos para fragmentar a identidade de Jimmy, uso do silêncio como elemento narrativo, edição que respeita a inteligência do espectador — que poucos dramas televisivos alcançam. Não é coincidência que vários diretores que passaram pelo show tenham carreiras cinematográficas sólidas. Gilligan e Gould tratam cada episódio como se fosse um filme curto com identidade própria.

Por que o consenso ainda resiste em admitir isso

Há uma resistência compreensível em declarar que um spinoff superou o original. ‘Breaking Bad’ chegou primeiro, formou gerações de fãs, definiu a gramática do antierói televisivo dos anos 2010. Há um apego afetivo legítimo nisso.

Mas afeto não é análise. E quando olho para os dois shows lado a lado — para a profundidade de Jimmy McGill versus a trajetória de Walter White, para a sofisticação visual da sexta temporada versus qualquer temporada de ‘Breaking Bad’, para o desfecho emocional que cada um oferece — a conclusão é difícil de evitar.

‘Breaking Bad’ abriu uma porta. ‘Better Call Saul’ atravessou essa porta e construiu uma casa inteira do outro lado.

Se você assistiu ao original mas ainda não deu uma chance real ao spinoff — especialmente se abandonou nas primeiras temporadas achando lento demais — volte. Talvez você precise ser mais paciente do que está acostumado. Mas o payoff existe, é real, e a sexta temporada vai te fazer questionar tudo que você achava saber sobre o que televisão pode alcançar.

E se você já assistiu tudo e ainda prefere ‘Breaking Bad’, quero entender por quê. É apego emocional ao original, ou você genuinamente acha que Walt é um personagem mais rico que Jimmy? Porque essa é uma conversa que vale ter.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Better Call Saul’

Preciso assistir ‘Breaking Bad’ antes de ‘Better Call Saul’?

Não necessariamente. ‘Better Call Saul’ funciona como história independente — mas assistir ‘Breaking Bad’ primeiro enriquece a experiência, especialmente nas aparições de personagens conhecidos e nos callbacks que se intensificam na 6ª temporada.

Quantas temporadas tem ‘Better Call Saul’?

A série tem 6 temporadas, totalizando 63 episódios. Foi concluída em agosto de 2022 com um final fechado e aclamado pela crítica.

Onde assistir ‘Better Call Saul’?

No Brasil, ‘Better Call Saul’ está disponível na Netflix. Nos EUA, pode ser assistido na AMC+ e também na Netflix.

‘Better Call Saul’ tem final fechado?

Sim. A série encerra de forma conclusiva na 6ª temporada, conectando-se diretamente ao início de ‘Breaking Bad’ e mostrando o destino de Jimmy McGill após os eventos da série original.

Por que ‘Better Call Saul’ é mais lento que ‘Breaking Bad’?

A série prioriza construção de personagem sobre ritmo de thriller. Essa escolha é intencional: o foco está em como Jimmy McGill se torna Saul Goodman, um processo psicológico que exige tempo. O payoff chega especialmente na 5ª e 6ª temporadas.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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