‘Mulheres Imperfeitas’: drama de amizade vale mais que o mistério

Em ‘Mulheres Imperfeitas’, a Apple TV+ entrega não o thriller policial que prometeu, mas um retrato preciso de amizades femininas corroídas por segredos — com Moss e Washington em performances que justificam o investimento mesmo quando o mistério decepciona. Analisamos por que essa aposta arriscada é tanto o maior trunfo quanto a principal limitação da série.

Quando o trailer de ‘Mulheres Imperfeitas’ chegou, a promessa era clara: thriller policial com elenco estelar na Apple TV+. Elisabeth Moss, Kerry Washington e Kate Mara investigando um assassinato? Parecia a receita perfeita para mais um mistério viciante. Mas aqui vai o que ninguém te conta: a série é muito mais interessada em desmontar uma amizade doente do que em resolver um crime. E essa escolha — arriscada, frustrante e ocasionalmente brilhante — define tanto o que ela acerta quanto onde tropeça.

Baseada no bestseller de Araminta Hall e adaptada por Annie Weisman, a produção chega com credenciais impecáveis. Moss vem de ‘O Conto da Aia’ e anos carregando thrillers complexos nas costas. Washington provou em ‘Scandal’ que consegue transformar diálogos expositivos em arte. Kate Mara tem o currículo de ‘House of Cards’ para provar que sabe navegar ambiguidade moral. O elenco não é ponto forte — é o alicerce inteiro. A pergunta real é: o que acontece quando você dá material de densidade emocional para atrizes acostumadas a plots mais cinéticos?

Por que o mistério é o menos importante da série

Por que o mistério é o menos importante da série

Vou ser direto: se você busca um quebra-cabeça elaborado com reviravoltas inteligentes, vai se frustrar. Os críticos que já viram os oito episódios são quase unânimes nesse ponto — a resolução do assassinato é previsível. Mas aqui está onde a série subverte expectativas de forma deliberada: o mistério nunca foi o foco. O assassinato funciona como dispositivo narrativo, não como motor dramático. É o que Hitchcock chamaria de MacGuffin — aquele elemento que todos os personagens perseguem, mas que importa menos do que as consequências dessa perseguição.

A estrutura revela essa intenção desde cedo. Os dois primeiros episódios estabelecem a dinâmica entre as três amigas — os olhares carregados, as conversas que evitam o óbvio, as lealdades que racham sob pressão — antes mesmo de nos dar razão para nos importarmos com a vítima. É uma aposta ousada. Funciona quando você percebe que a série está mais interessada em perguntar ‘o que esses segredos fazem com quem os carrega?’ do que ‘quem matou quem?’.

Quando o drama de amizade supera o thriller

Onde ‘Mulheres Imperfeitas’ brilha é nos momentos em que abandona as pretensões de investigação policial e se entrega ao que realmente lhe interessa: a anatomia de uma amizade corroída. Há uma cena no terceiro episódio onde duas personagens conversam num café, e a câmera permanece fixa enquanto a conversa aparentemente banal vai revelando camadas de ressentimento acumulado por décadas. Sem trilha sonora dramática, sem cortes frenéticos. Apenas duas mulheres tentando manter uma máscara que já está rachando.

Esse é o tipo de escolha de direção que separa conteúdo de verdadeira dramaturgia. A série entende que segredos entre amigos não são revelados em confrontos explosivos — eles vazam em pausas constrangedoras, em frases começadas e não terminadas, em mudanças sutis de tom. A fotografia acompanha essa intenção: paleta mais fria nas cenas de investigação formal, tons mais quentes nas cenas domésticas quando o foco recai nas relações pessoais. Não é coincidência — é linguagem visual servindo ao tema.

Moss e Washington carregam o peso dessa abordagem. Moss, em especial, consegue comunicar volumes com um único olhar — habilidade refinada em anos de ‘Mad Men’ e ‘O Conto da Aia’. Sua personagem Mary carrega uma exaustão existencial que transcende o roteiro. Washington, por sua vez, usa a intensidade controlada que a consagrou para sugerir vulnerabilidades que sua personagem Eleanor tenta desesperadamente esconder. Quando as duas dividem tela, a série atinge momentos de genuína tensão psicológica — o tipo que nenhum assassinato fictício conseguiria gerar.

Onde a série perde o fôlego

Onde a série perde o fôlego

O problema surge quando ‘Mulheres Imperfeitas’ tenta ser duas coisas ao mesmo tempo e não consegue sustentar ambas com igual competência. A investigação policial — com seus procedimentos, suspeitos e clímax judicial — parece enxertada em um material que teria funcionado melhor como drama puro. Há episódios inteiros onde a trama do assassinato avança centimetricamente enquanto as relações entre as mulheres ganham densidade. Para quem busca ritmo de thriller, isso vai parecer arrastamento. Para quem se envolve com o drama interpessoal, as interrupções para cenas de investigação soam como intrusões.

O final também divide opiniões. Sem revelar detalhes, a resolução do mistério carece da sofisticação que o drama de personagens construiu. É como se a série tivesse gasto toda sua inteligência emocional nas relações e sobrado apenas o previsível para o plot criminal. Nick Schager, do The Daily Beast, apontou que o desfecho ‘nunca quite ganha a intriga que promete’ — avaliação justa, mas talvez irrelevante se você aceitar desde o início que o assassinato nunca foi o ponto.

Para quem vale a pena assistir

Com 67% no Rotten Tomatoes, ‘Mulheres Imperfeitas’ ocupa um espaço interessante: nem fracasso, nem obra-prima. Mas essa classificação esconde o que realmente importa. Se você curte dramas de personagem com complexidade emocional — pense ‘Big Little Lies’ sem o brilho visual de Jean-Marc Vallée, ou ‘The Affair’ com menos pretensão literária — há muito a aproveitar aqui. As atuações de Moss e Washington sozinhas justificam o tempo investido.

Agora, se sua expectativa é um thriller com reviravoltas inteligentes, prepare-se para decepção. A previsibilidade que os críticos apontam não é falha de execução — é consequência de a série ter priorizado o emocional acima do formato que prometeu. É uma questão de expectativas mal geradas pelo marketing, não de incompetência criativa.

No fim, ‘Mulheres Imperfeitas’ é exatamente o que seu título sugere: uma obra interessante, bem atuada, emocionalmente honesta, mas que não consegue resolver a tensão entre o que quer ser e o que prometeu ser. Para quem busca retratos de amizades femininas com todas as feridas expostas, é uma jornada que vale. Para quem quer resolver um quebra-cabeça, o enigma maior permanece: por que tentar ser thriller quando o drama já era suficiente?

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Perguntas Frequentes sobre ‘Mulheres Imperfeitas’ na Apple TV+

Onde assistir ‘Mulheres Imperfeitas’?

‘Mulheres Imperfeitas’ é uma produção original da Apple TV+, disponível exclusivamente na plataforma. É necessária uma assinatura ativa para assistir.

Quantos episódios tem ‘Mulheres Imperfeitas’?

A série tem 8 episódios na primeira temporada.

‘Mulheres Imperfeitas’ é baseada em livro?

Sim. A série é adaptação do romance ‘Perfect Remains’ da escritora britânica Araminta Hall, publicado em 2017. O roteiro foi desenvolvido por Annie Weisman para a Apple TV+.

‘Mulheres Imperfeitas’ é um thriller ou um drama?

Na prática, é muito mais drama do que thriller. Apesar do marketing centrado no assassinato, a série prioriza o retrato das relações entre as três protagonistas. Quem busca um mistério com reviravoltas pode se frustrar; quem curte dramas de personagem tende a se envolver mais.

Vale a pena assistir ‘Mulheres Imperfeitas’ na Apple TV+?

Depende da expectativa. Se você gostou de ‘Big Little Lies’ ou ‘The Affair’ pelo drama emocional, sim — as atuações de Elisabeth Moss e Kerry Washington justificam o tempo. Se a prioridade é um thriller policial elaborado, o mistério vai decepcionar.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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