‘The Witcher’ T5 tem chance de dar a Geralt e Yennefer o fim que os livros negaram

Os livros de Sapkowski deixam o destino de Geralt e Yennefer propositalmente em aberto — um recurso literário legítimo que se torna problemático quando transportado para a televisão. Analisamos por que a quinta temporada de ‘The Witcher’ precisa ir além do cânone e o que um encerramento honesto desse casal realmente exige.

Existe uma espécie rara de problema narrativo que só adaptações televisivas enfrentam: o que fazer quando o material de origem termina mal — não por incompetência do autor, mas por escolha deliberada de deixar as coisas em aberto. The Witcher temporada 5 está prestes a confrontar exatamente esse dilema, e a decisão que a produção tomar vai definir se a série termina como uma adaptação corajosa ou como mais uma história que não teve coragem de concluir o que começou.

Os livros de Andrzej Sapkowski fazem algo literariamente interessante no final: Ciri narra o destino de Geralt e Yennefer com a consciência explícita de que está contando uma história, e que a história ‘real’ pode não ter o final que ela deseja para eles. Geralt é empalado por uma lança durante um tumulto em Rivia. Yennefer usa sua magia para salvá-lo, perdendo a consciência no processo. Ciri coloca os dois num barco, que some na neblina. O que vem depois é incerto — propositalmente.

Sapkowski escreveu isso como literatura. Como metáfora sobre a natureza das histórias e a distância entre o que queremos que aconteça e o que realmente acontece. É um final adulto, filosoficamente interessante, e completamente inadequado para uma série de televisão que passou cinco temporadas pedindo para que você se importasse com esses dois personagens.

O contrato narrativo que a Netflix criou — e precisa honrar

O contrato narrativo que a Netflix criou — e precisa honrar

Quando uma série de TV investe horas e horas construindo um relacionamento, ela firma um contrato com o espectador. Não um contrato de final feliz — esses são os piores tipos, mecânicos e previsíveis. Um contrato de resolução. De que as perguntas que foram abertas serão respondidas de alguma forma, mesmo que a resposta seja dolorosa.

Geralt e Yennefer não são apenas personagens de ‘The Witcher’. Eles são o coração emocional de uma série que passou anos mostrando a complexidade torturada do relacionamento deles — o Desejo de Djinn que os prendeu, as separações, as traições, as reconciliações, a construção lenta e real de algo que vai além da magia que os uniu. A série investiu nesse arco com muito mais consistência do que os próprios livros sustentam em certos volumes.

Seguir o final ambíguo de Sapkowski, então, não seria ‘fidelidade ao material de origem’. Seria abandonar o trabalho emocional que a própria série fez — e cobrar do espectador uma conta que ele não abriu.

Por que ambiguidade literária vira traição televisiva

A ambiguidade funciona na literatura porque o leitor preenche o vazio com a própria imaginação. Você fecha o livro e fica com aquela neblina e o que ela pode significar. É uma experiência solitária e contemplativa, e Sapkowski a construiu assim de forma deliberada — o narrador não confiável de Ciri é um recurso que a própria estrutura do texto sustenta.

Televisão é outra coisa. Você assiste em grupo ou em sequência de episódios, com abertura, trilha sonora, rostos reais de atores em quem você projetou afeto ao longo de anos. A ambiguidade numa tela funciona de forma diferente — ela não convida à contemplação, ela frustra. Principalmente quando a série já passou por mudanças suficientemente radicais para ter alienado parte da sua audiência ao longo do caminho.

A troca de Henry Cavill por Liam Hemsworth na quarta temporada foi um risco calculado. Hemsworth teve que reconstruir a confiança do público num personagem que muita gente considerava indissociável de Cavill — e fez isso, em boa parte, porque a temporada 4 teve o cuidado de dar a Geralt cenas com peso emocional real. Se a série encerrar a jornada desse Geralt com um barco desaparecendo na neblina, todo esse trabalho de reconquista vai embora junto.

O que um final definitivo precisa fazer — e o que ele não precisa ser

O que um final definitivo precisa fazer — e o que ele não precisa ser

Definitivo não significa açucarado. Não significa Geralt e Yennefer numa casa com jardim e filhos e um cachorro. Pode ser trágico. Pode ser custoso. O importante é que seja claro — que a série diga algo sobre esses personagens ao invés de devolver a pergunta para o espectador como se fosse um presente.

O formato televisivo tem ferramentas que Sapkowski não tinha: podemos ver o rosto de Yennefer no momento em que ela decide usar sua magia sabendo o que vai custar. Podemos ouvir Geralt antes do tumulto em Rivia, carregando o peso acumulado de tudo que aconteceu. A câmera pode mostrar o que o texto do livro deliberadamente escondeu atrás da voz de Ciri. Usar isso não é trair o autor — é fazer o que a linguagem televisiva existe para fazer.

Há precedente para esse tipo de decisão. Peter Jackson tomou liberdades em ‘O Senhor dos Anéis’ que divergem do texto de Tolkien — a morte de Saruman movida para as telas, a jornada de Arwen expandida, o destino dos Elfos tornado mais visível. Algumas dessas escolhas são discutíveis; outras o cinema claramente exigia. A adaptação honesta não é a que copia palavra por palavra: é a que entende o que o original estava tentando fazer e encontra o equivalente na nova linguagem.

O que a quinta temporada carrega — e o peso disso

A temporada 5 de ‘The Witcher’ vai entrar com Ciri como protagonista central, o que é narrativamente correto e estava previsto tanto nos livros quanto na trajetória da série. Freya Allan construiu um personagem que cresceu visivelmente ao longo das temporadas, e as histórias mais sombrias de Ciri têm potencial real para televisão.

Mas Geralt e Yennefer não podem ser empurrados para segundo plano com um final nebuloso enquanto a câmera segue Ciri. A estrutura familiar que a série estabeleceu — e que só nos últimos episódios começou a funcionar com a organicidade que merecia — exige que os três tenham encerramentos que se conectem. Ciri obtendo seu destino enquanto os pais adotivos somem numa metáfora literária não é narrativamente satisfatório. É conveniente para a produção e injusto com o espectador.

A série tem uma chance real aqui. Depois de temporadas que oscilaram entre brilhante e problemático, a temporada 4 sinalizou que a produção reconheceu onde havia errado e tentou corrigir o curso. A temporada 5 pode ser o capítulo que redefine como ‘The Witcher’ vai ser lembrado — não como a série que decepcionou fãs de Sapkowski, mas como a adaptação que entendeu seus personagens profundamente o suficiente para dar a eles o final que a mídia anterior não pôde dar.

Essa janela fecha em setembro. Vale usar.

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Perguntas Frequentes sobre The Witcher Temporada 5

Quando estreia The Witcher temporada 5 na Netflix?

A data oficial de estreia ainda não foi confirmada pela Netflix, mas a produção está prevista para ser concluída em 2025, com lançamento esperado ainda neste ano. Setembro é a janela mais citada nos bastidores.

Liam Hemsworth continua como Geralt na temporada 5?

Sim. Liam Hemsworth assumiu o papel de Geralt de Rívia na quarta temporada após a saída de Henry Cavill e permanece no elenco para a quinta e última temporada da série.

Como termina a história de Geralt e Yennefer nos livros?

No final do livro ‘A Senhora do Lago’, Geralt é gravemente ferido durante o massacre de Rivia. Yennefer usa sua magia para tentar salvá-lo, desmaiando no processo. Ciri coloca os dois num barco que desaparece na neblina — um final intencionalmente ambíguo que Sapkowski nunca resolveu de forma definitiva.

A temporada 5 de ‘The Witcher’ vai seguir os livros?

A série já se afastou do cânone em diversas ocasiões desde a terceira temporada. A expectativa é que a temporada 5 use os livros como base mas tome liberdades significativas, especialmente no arco de encerramento de Geralt e Yennefer.

A temporada 5 é a última de ‘The Witcher’?

Sim. A Netflix confirmou que a quinta temporada será a última da série principal. O universo de ‘The Witcher’ deve continuar em outros formatos — o spin-off ‘The Witcher: Blood Origin’ já foi ao ar, e outros projetos estão em desenvolvimento.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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