Um teste de animação 2D descartado de ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ mostra visual que rivaliza com o Studio Ghibli. Analisamos por que a Pixar escolheu o 3D e o que esse material revela sobre o processo criativo por trás das decisões do estúdio.
Às vezes, o melhor conteúdo de um filme não está no filme. Parece contraditório, mas é exatamente o que aconteceu com ‘Cara de Um, Focinho de Outro’. No último fim de semana, o diretor Daniel Chong compartilhou nas redes sociais um teste de animação 2D que deixou muita gente se perguntando: e se o filme inteiro fosse assim?
O vídeo, animado por Lorenzo Fresta ainda em 2020, mostra versões protótipos de Mabel — no corpo robótico de castor ‘hopper’ — e King George nadando juntos. São talvez 15 segundos de sequência simples, mas que carregam algo que a versão final do filme, por mais competente que seja, não consegue replicar: uma textura artesanal que remete diretamente ao Studio Ghibli.
Por que a comparação com Ghibli se justifica — e não é exagero
Comparações com Ghibli são feitas com tanta frequência que perderam peso. Mas aqui, a analogia se sustenta por motivos concretos. Repare nos traços dos personagens: as linhas são orgânicas, imperfeitas de propósito, como se tivessem sido desenhadas à mão com um lápis macio. A água não é simulada com física computacional — é sugerida com ondas de linhas que lembram aquarela. Há uma fluidez no movimento de Mabel que o 3D, por mais avançado que seja, dificilmente alcança.
O Ghibli construiu sua identidade visual sobre dois pilares: reverência pela natureza e a imperfeição humana como virtude. O teste de Fresta captura exatamente isso. Quando King George emerge da água, as gotas em seu pelo não seguem uma lógica de partículas — seguem uma lógica de emoção. É a diferença entre simular realidade e sugerir sensação.
Nos comentários do post original, a reação foi unânime: fãs pedindo uma versão completa nesse estilo. O ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ final é visualmente competente — a Pixar sabe fazer 3D como ninguém — mas essa versão 2D carrega uma alma diferente, algo que a tecnologia de ponta não conseguiu reproduzir.
A decisão pelo 3D faz sentido — mesmo que doa admitir
Agora, vamos ser diretos sobre o elefante na sala: uma produção inteira em 2D seria inviável para o que a Pixar queria com esse filme. E não é apenas questão de custo ou tempo — é questão de identidade de marca e expectativa de público.
Desde ‘Toy Story’, em 1995, a Pixar construiu seu império sobre a promessa de que computadores poderiam criar mundos que o desenho tradicional não alcançaria. A empresa se tornou sinônimo de 3D de alta qualidade. Quando você vê o logo da lâmpada, espera texturas de pelo simuladas por física, iluminação global, reflexos de ray-tracing. Um filme 2D, por mais bonito que seja, quebraria essa expectativa de forma potencialmente alienante para o público geral.
Há também uma questão narrativa: ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ brinca conscientemente com diferentes estilos visuais. Os animais têm um visual quando interagem entre si — mais expressivo, mais ‘cartunesco’ — e outro quando os humanos os observam em forma de ‘hopper’ — mais mecânico, mais artificial. Essa dualidade é central para a história, e o 3D permite essa transição de forma mais fluida do que o 2D conseguiria.
Inserir uma sequência 2D no meio do filme, mesmo que nos créditos, criaria uma dissonância que o público poderia ler como inconsistência. O filme já tem uma cena pós-créditos e uma sequência de encerramento em 3D — encaixar o teste de Fresta ali seria forçar algo que não pertence à gramática visual que a obra estabeleceu.
O que esse teste revela sobre o processo criativo da Pixar
O mais interessante desse material descartado não é lamentar o que poderíamos ter tido — é entender o que ele revela sobre como a Pixar funciona. A existência desse teste significa que, em algum momento, a equipe considerou seriamente o 2D como linguagem possível.
Isso contradiz uma percepção comum de que a Pixar é uma fábrica de decisões corporativas frias. Daniel Chong não precisaria ter compartilhado esse teste. O fato de ele ter feito — e celebrado o trabalho de Fresta publicamente — sugere um ambiente onde experimentação é valorizada, mesmo quando não resulta em produto final.
Para quem acompanha animação, isso é sinal de saúde criativa. Os melhores estúdios são aqueles que permitem que ideias ‘fracas’ existam no processo, porque é dessas experiências que surgem as soluções inesperadas. O teste 2D pode não ter ido para a tela, mas provavelmente influenciou decisões visuais que foram.
Quanto conteúdo extraordinário fica nas gavetas dos estúdios
‘Cara de Um, Focinho de Outro’ estreou quebrando recordes de bilheteria para a Pixar desde ‘Viva: A Vida é uma Festa’ em 2017 — $88 milhões mundialmente nos primeiros dias. As críticas elogiam particularmente o trabalho de animação. É um sucesso por qualquer métrica.
Mas a existência desse teste 2D levanta uma pergunta que vai além desse filme específico: quanto material extraordinário fica nas gavetas dos estúdios, nunca compartilhado com o público? E quanto perdemos por não ter acesso a esses ‘fracassos’ criativos?
A sorte é que, dessa vez, Chong decidiu compartilhar. Para fãs de animação, esse tipo de conteúdo bônus é tão valioso quanto o filme final — às vezes mais. Ver o que poderia ter sido expande nossa compreensão do que é. E no caso desse teste 2D, nos lembra que a tecnologia mais avançada do mundo ainda não substitui a magia de um traço humano em movimento.
Se você ainda não viu o teste, vale a busca nas redes sociais do diretor. E se você já viu o filme, talvez seja hora de reconsiderar: a versão final é a ‘melhor’ versão, ou apenas a versão que tínhamos condições de fazer?
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Perguntas Frequentes sobre ‘Cara de Um, Focinho de Outro’
Onde assistir ‘Cara de Um, Focinho de Outro’?
O filme está disponível nos cinemas desde março de 2026. Como é uma produção Pixar/Disney, deve chegar ao Disney+ alguns meses após a janela de theatrical, provavelmente em meados de 2026.
Onde encontrar o teste de animação 2D descartado?
O teste foi compartilhado por Daniel Chong, diretor do filme, em suas redes sociais (X/Twitter e Instagram). Procure por ‘Daniel Chong’ ou ‘Lorenzo Fresta’ combinados com o título do filme para encontrar o vídeo original.
Quem dirigiu ‘Cara de Um, Focinho de Outro’?
O filme foi dirigido por Daniel Chong, criador da série premiada ‘We Bare Bears’ (Os Ursinhos Carinhosos). É sua estreia na direção de um longa-metragem da Pixar.
A Pixar já fez filmes em animação 2D?
Não em longas-metragens. A Pixar é conhecida exclusivamente por animação 3D desde sua fundação. No entanto, já utilizou elementos 2D em curtas como ‘Day & Night’ (2010) e em sequências específicas de alguns filmes, mas nunca como linguagem principal de um longa.
‘Cara de Um, Focinho de Outro’ tem cena pós-créditos?
Sim, o filme possui uma cena durante os créditos finais. Vale ficar até o fim para ver um fechamento complementar à história principal.

