‘The Great’: a obra-prima satírica que redefine o drama histórico na Hulu

‘The Great’ série subverte o gênero de drama histórico ao tratar imprecisão como virtude, não defeito. Analisamos como a sátira de Tony McNamara usa anacronismo deliberado para falar de poder e gênero — e por que três temporadas já garantem seu lugar como uma das produções mais inteligentes do streaming.

Existe uma mentira que dramas históricos contam a si mesmos: a de que fidelidade aos fatos equivale a qualidade artística. ‘The Great’, série da Hulu, chega para desmontar essa premissa com a mesma elegância com que Catherine derruba seus inimigos políticos — ou seja, com estilo, veneno e um sorriso no rosto. Criada por Tony McNamara, a produção pegou a história de uma das governantes mais formidáveis da Rússia e decidiu que ‘verdade’ era o ingrediente menos interessante do cardápio. Acertou em cheio.

O resultado é algo que poucas produções de época ousam tentar: uma comédia satírica que usa o século XVIII como pano de fundo para falar de poder, gênero e política com vocabulário deliberadamente anacrônico. A tagline ‘uma história ocasionalmente verdadeira’ não é marketing engenhoso — é declaração de princípios estéticos. E três temporadas depois, com cancelamento prematuro mas legado consolidado, fica claro que essa foi a escolha certa.

Por que a imprecisão histórica é o maior trunfo da série

Por que a imprecisão histórica é o maior trunfo da série

Ao contrário de ‘The Crown’, que começou como biografia respeitosa e viu sua recepção criticar justamente quando se afastou dos fatos, ‘The Great’ nunca prometeu precisão — e por isso nunca precisou se desculpar. Isso libera os roteiristas para fazerem algo que dramas históricos ‘sérios’ raramente conseguem: tratar seus personagens como pessoas reais, não como figuras de museu de cera que precisam ser protegidas.

Catherine, a Grande, foi uma das mulheres mais poderosas da história. Também foi vítima de campanhas difamatórias misóginas que persistem até hoje. A série sabe disso, mas escolhe não fazer de sua protagonista uma santa perseguida. Esta Catherine é ambiciosa, manipuladora, às vezes cruel — e infinitamente mais interessante do que qualquer versão santificada.

Há um momento específico na primeira temporada que ilustra perfeitamente essa abordagem: Catherine descobre que pode usar sua inteligência como arma, e a série não hesita em mostrar o prazer que ela sente nisso. Não há moralização. Não há julgamento. Há apenas a alegria suja de ver uma mulher descobrindo seu poder em um mundo desenhado para negá-lo a ela.

A química explosiva entre Elle Fanning e Nicholas Hoult

Elle Fanning carrega a série nos ombros delicados, mas é Nicholas Hoult como Peter III quem rouba cena após cena. Isso não é crítica a Fanning — é reconhecimento de que Hoult construiu um dos vilões mais divertidamente hedonistas da TV recente. Peter é narcisista, alcoólatra, violento, e ainda assim você se pega rindo de suas atrocidades. É uma linha perigosa que o ator navega com precisão cirúrgica.

A dinâmica entre os dois transcende o clichê ‘heroína versus tirano’. Há cenas — especialmente na segunda temporada, quando Catherine está grávida e os dois negociam uma trégua tensa — onde a fronteira entre inimigos mortais e algo quase parecido com afeto se torna deliberadamente confusa. Você torce por Catherine derrubar Peter, mas também torce para que eles continuem compartilhando tela. É o tipo de tensão que roteiristas matam para conseguir.

O elenco de apoio não fica atrás. Gillian Anderson interpreta Joanna, mãe de Catherine, com aquele ar de matriarca manipuladora que ela aperfeiçoou em ‘The Crown’ — só que aqui há camadas de comédia que a série sabe explorar. Jason Isaacs, como tio Peter, traz presença sinistra sem nunca perder o tom satírico. Mas é a construção de mundo da série — esse palácio onde cortesãos fodem, bebem e conspiram o tempo todo — que faz tudo funcionar.

Visualmente exuberante, textualmente anacrônico

Visualmente exuberante, textualmente anacrônico

O figurino de Emma Scott e a direção de arte de Helen Jarvis merecem menção específica. Os trajes são historicalmente reconhecíveis, mas com exageros que servem a sátira: decotes mais dramáticos, cores mais saturadas, silhuetas que funcionam como caricatura visual do excesso rococó. Quando Catherine aparece com vestidos cada vez mais elaborados ao longo das temporadas, isso marca sua transformação de ingênua para poderosa.

A escolha de manter sotaques naturais — todos falam com seus sotaques originais, sem afetação ‘russa’ — é outro elemento de distanciamento brechtiano. McNamara aprendeu com ‘Maria Antonieta’ (2006) de Sofia Coppola que anacronismo linguístico pode ser ferramenta, não defeito. Quando personagens usam gírias atuais ou referências contemporâneas, não é apelo ao público jovem — é comentário sobre como cada época reinventa seu passado para servir seus próprios propósitos.

Como ‘The Great’ se posiciona entre ‘Bridgerton’ e ‘The Crown’

2020 foi ano de ruptura para dramas de época. ‘Bridgerton’ e ‘The Great’ estrearam praticamente juntos, e ambas decidiram que precisão histórica era opcional. Mas onde ‘Bridgerton’ opta por fantasia romântica com paleta de cores de doceria, ‘The Great’ escolhe sátira política com navalha escondida na manga.

Os números de Rotten Tomatoes contam uma história interessante: enquanto a audiência geral mostrou satisfação consistente, os críticos profissionais foram ficando mais entusiasmados com o tempo. Segunda e terceira temporadas atingiram 100% de aprovação crítica. Isso sugere algo: quanto mais a série afiava sua identidade própria, menos interessada em agradar todo mundo, mais ela conquistava quem valoriza risco artístico.

Veredito: para quem é (e para quem não é) esta sátira histórica

Se você procura rigor histórico, passe longe. A série inventa, exagera, distorce — e faz tudo isso com orgulho. Mas se você aceita que ficção pode ser verdadeira de outras formas, ‘The Great’ oferece algo raro: um drama de época que é sempre sobre agora, nunca sobre o século XVIII.

Alguns detalhes que parecem pura invenção são surpreendentemente reais. Catherine de fato inventou montanhas-russas na Rússia. Era defensora de vacinas e educação feminina. Peter III era de fato um desastre ambulante de arrogância e instabilidade. A série brinca com essas verdades, mas também as respeita mais do que aparenta.

O cancelamento antes da quarta temporada deixou fãs frustrados, e com razão. Mas três temporadas de qualidade consistente já é mais do que a maioria das séries entrega hoje em dia. ‘The Great’ merece ser assistida, discutida, e provavelmente reassistida — não apesar de sua ‘imprecisão’, mas por causa dela.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Great’

Onde assistir ‘The Great’ no Brasil?

No Brasil, ‘The Great’ está disponível no Star+. A série é original da Hulu (EUA), mas foi distribuída internacionalmente nas plataformas Disney.

Quantas temporadas tem ‘The Great’?

‘The Great’ tem 3 temporadas completas, totalizando 30 episódios. A série foi cancelada em agosto de 2023, antes da produção da quarta temporada.

‘The Great’ é baseada em fatos reais?

Parcialmente. A série se inspira em figuras históricas reais (Catarina, a Grande; Pedro III) e em alguns eventos verdadeiros, mas inventa livremente diálogos, relacionamentos e tramas. A própria tagline ‘uma história ocasionalmente verdadeira’ avisa o público.

Por que ‘The Great’ foi cancelada?

A Hulu não explicou oficialmente o motivo do cancelamento. Especula-se que fatores como custo de produção, greves de Hollywood em 2023 e métricas de audiência tenham pesado na decisão, apesar da aclamação crítica.

Qual a classificação indicativa de ‘The Great’?

A série é indicada para maiores de 16 anos. Contém violência gráfica, cenas de nudez, relações sexuais explícitas e linguagem forte — tudo usado com propósito satírico, mas presente.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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