Com 91% no Rotten Tomatoes, ‘This City Is Ours’ é a série de crime britânica que finalmente justifica a comparação com ‘Peaky Blinders’. Analisamos por que o elenco liderado por Sean Bean e a ambientação em Liverpool criam uma obra com identidade própria — e o que esperar da 2ª temporada já confirmada.
Quando ‘Peaky Blinders’ encerrou sua sexta temporada em 2022, deixou um vácuo estranho no cenário de séries de crime. Não faltavam tentativas de preencher o espaço — o problema é que a maioria confundia ‘ter gangsters britânicos’ com ‘ter a mesma qualidade’. Agora, em 2026, uma série finalmente parece à altura da comparação que não para de receber: ‘This City Is Ours’ não é apenas ‘a próxima Peaky Blinders’ — é uma obra com identidade própria que justifica os 91% no Rotten Tomatoes.
A premissa é simples, mas a execução é o que diferencia: Ronnie Phelan, um traficante de cocaína em Liverpool interpretado por Sean Bean, está considerando se aposentar. O que parece um setup para mais um drama de crime organizado se transforma em algo mais ambicioso — um estudo sobre poder, legado e os estragos que a ambição causa em uma família. Se isso soa familiar para quem acompanhou os Shelby de Birmingham, é porque as semelhanças são estruturais. Mas aqui está o detalhe que importa: ‘This City Is Ours’ usa essa estrutura para contar uma história diferente, com voz própria.
O que faz a série funcionar onde outras tentativas falharam
Depois de assistir a dezenas de tentativas de replicar a fórmula ‘crime familiar + cenário britânico + estilo visual marcante’, posso afirmar: a maioria falha porque tenta copiar a superfície sem entender a essência. ‘This City Is Ours’ acerta por um motivo específico — ela entende que o que fez ‘Peaky Blinders’ funcionar não era o visual estilizado ou a trilha anacrônica, mas sim a construção de personagens que você se importa em ver falhar.
O elenco é o primeiro sinal de que a BBC apostou alto. Sean Bean como Ronnie Phelan é um acerto de casting que funciona em múltiplas camadas: o ator carrega consigo uma filmografia de personagens marcantes, e o público sabe disso. Quando você vê Bean na tela, já espera gravidade — e ele entrega, mas com nuances que vão além do ‘vilão intimidador’. Ronnie é um homem cansado avaliando sua aposentadoria, e Bean transmite esse cansaço sem precisar de monólogos explicativos.
Mas o verdadeiro achado está ao redor dele. James Nelson-Joyce, que interpreta o braço direito ressentido de Ronnie, traz uma energia que reconheci imediatamente — ele esteve em ‘Mil Golpes’, a série de boxe criada por Steven Knight, o mesmo homem por trás de ‘Peaky Blinders’. Não é coincidência que o DNA se repita. Jack McMullen, como o filho explosivo de Ronnie, completa um triângulo de tensão que sustenta os oito episódios da primeira temporada.
Há algo curioso sobre esse elenco: tanto Nelson-Joyce quanto McMullen trabalharam com Sean Bean em ‘Time’, o drama prisional brutal que a BBC exibiu em 2021. Essa química pré-existente transparece na tela — as cenas de confronto entre os três têm uma naturalidade que elencos montados às pressas raramente alcançam. Quando você assiste, sente que aqueles homens têm história, mesmo que o roteiro não explicite.
Liverpool como personagem — e por que isso importa
‘Peaky Blinders’ usou Birmingham como parte integrante da narrativa — a cidade pós-Primeira Guerra Mundial era mais que cenário, era contexto social que explicava quem os Shelby eram. ‘This City Is Ours’ faz o mesmo com Liverpool, mas com uma diferença crucial: estamos em 2026, e a cidade contemporânea carrega marcas diferentes.
A série foi filmada nas ruas de Liverpool, e isso se nota. Não há aquele artificialismo de estúdio tentando fingir autenticidade — os becos, os pubs, os prédios brutalistas fazem parte da textura visual. A fotografia captura o cinza característico do norte da Inglaterra sem transformá-lo em cartão-postal de depressão. Liverpool respira na tela de forma que Birmingham respirava em ‘Peaky Blinders’ — não como pano de fundo, mas como parte do DNA desses personagens.
Essa escolha de cenário também estabelece uma diferença tonal importante. Enquanto ‘Peaky Blinders’ operava no universo do crime organizado entre guerras, com todos os códigos e formalidades que isso implicava, ‘This City Is Ours’ lida com o tráfico de cocaína em 2026 — um mundo mais volátil, mais violento, menos romântico. A comparação com os Shelby é inevitável, mas os Phelan operam em um universo moral diferente.
Os números que explicam o sucesso
Vamos direto aos dados, porque eles contam parte da história:
| Série | Temporadas | Críticos (RT) | Audiência (RT) |
| ‘Peaky Blinders’ | 6 | 93% | 94% |
| ‘This City Is Ours’ | 1 (2ª confirmada) | 91% | 93% |
Os números são notavelmente próximos — e isso não é acidente. Ambas as séries acertam no mesmo ponto fundamental: o público se importa quando as apostas são pessoais. Em ‘Peaky Blinders’, Tommy Shelby precisava defender sua posição de rivais externos e traições internas da família. Em ‘This City Is Ours’, a morte de Ronnie cria um vácuo de poder que colide o braço direito do patriarca contra seu próprio filho.
A estrutura é similar, mas a execução difere em um aspecto que considero crucial: o tratamento das personagens femininas. Muitas séries de crime — incluindo grandes obras do gênero — mantêm mulheres nas margens da narrativa, como figuras que reagem aos homens mas não impulsionam a trama. ‘This City Is Ours’ evita essa armadilha. As mulheres aqui têm agência, motivações próprias e impacto real no rumo dos eventos. Não é um detalhe menor — é uma das razões pelas quais a série se destaca em um gênero saturado.
A 2ª temporada e a chegada de Shaun Evans
A BBC confirmou que ‘This City Is Ours’ retornará para uma segunda temporada em 2026, e os detalhes já dão motivos para otimismo. O elenco principal retorna, mas a adição mais interessante é Shaun Evans — conhecido por ‘Endeavour’, onde interpretou o jovem Morse por oito temporadas. Evans entrará como um ex-gangster perigoso, descrito por James Nelson-Joyce em entrevista ao Radio Times como alguém que ‘traz um pouco de vilania para a série’.
Se a primeira temporada terminou com um gangster sendo brutalmente eliminado — e estou sendo deliberadamente vago para não estragar a experiência —, a segunda promete explorar as consequências dessa violência. Nelson-Joyce deu uma pista intrigante sobre seu personagem: ele começa a temporada em paz com sua esposa, mas suas ações destroem essa tranquilidade. Não é difícil imaginar o arco — vingança, traição e queda são pilares do gênero, e ‘This City Is Ours’ demonstrou saber trabalhar com eles.
O detalhe que me deixa genuinamente curioso é a presença de Evans. Um ator que passou quase uma década construindo um personagem complexo e contido em ‘Endeavour’ agora entra em um universo de criminalidade aberta. A faísca entre seu estilo mais interiorizado e o tom visceral de ‘This City Is Ours’ tem potencial para criar algo memorável.
Veredito: para quem é ‘This City Is Ours’?
Se você é fã de ‘Peaky Blinders’ e sentiu falta de um drama de crime britânico com personagens tridimensionais e apostas emocionais reais, ‘This City Is Ours’ é obrigatória. A comparação é justa, mas não faz justiça completa — esta série tem voz própria, cenário próprio e elenco que segura o peso da expectativa.
Se você prefere thrillers de ação constante, pode achar o ritmo lento demais. ‘This City Is Ours’ é construída em acumulação de tensão, não em explosões constantes. Os primeiros episódios estabelecem personagens e dinâmicas com paciência que alguns acharão excessiva — mas que paga dividendos nos momentos de ruptura.
Para quem valoriza atuação acima de tudo, aqui está um banquete. Sean Bean demonstra por que continua sendo um dos atores britânicos mais respeitados de sua geração, e o elenco ao redor não o deixa carregar o peso sozinho. A química entre Nelson-Joyce e McMullen — construída em colaborações anteriores — eleva cenas de confronto que poderiam ser genéricas.
No fim das contas, ‘This City Is Ours’ merece os 91% dos críticos e os 93% do público no Rotten Tomatoes. Não porque reinventa o gênero de crime drama, mas porque executa suas premissas com competência rara. Em um cenário saturado de tentativas de replicar o sucesso de ‘Peaky Blinders’, esta é uma das poucas que justifica a comparação — e, em alguns aspectos, a supera.
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Perguntas Frequentes sobre ‘This City Is Ours’
Onde assistir ‘This City Is Ours’?
‘This City Is Ours’ é uma produção original da BBC, disponível no BBC iPlayer no Reino Unido. No Brasil, a série chega através do Globoplay com legendas em português.
Quantos episódios tem ‘This City Is Ours’?
A primeira temporada tem 8 episódios. A segunda temporada, já confirmada pela BBC, deve manter o mesmo formato.
‘This City Is Ours’ tem conexão com ‘Peaky Blinders’?
Não há conexão narrativa entre as séries. A comparação acontece por ambas serem dramas de crime britânicos com foco em dinâmicas familiares, mas ‘This City Is Ours’ é uma história independente ambientada em Liverpool nos dias atuais.
Quando estreia a 2ª temporada de ‘This City Is Ours’?
A BBC confirmou a segunda temporada para 2026, mas ainda não divulgou a data específica de estreia. O elenco principal retorna, com a adição de Shaun Evans (‘Endeavour’) como um ex-gangster perigoso.
Sean Bean morre em ‘This City Is Ours’?
Sean Bean interpreta Ronnie Phelan, o patriarca do crime cuja morte é mencionada em análises da série. Para evitar spoilers, não detalhamos quando ou como isso acontece — mas quem conhece a reputação do ator por ‘morrer em seus filmes’ não será surpreendido.

