Ross Geller não mudou — nós mudamos. Analisamos os comportamentos que ‘Friends’ normalizou como românticos e por que hoje soam claramente problemáticos, do ciúme possessivo ao vídeo íntimo gravado sem consentimento.
Reassistir ‘Friends’ em 2026 é uma experiência estranha. Você ri das piadas que decorou, reconhece as roupas que foram icônicas, mas algo mudou. Especificamente, Ross Geller — o romanticon da série, o ‘cara certo’ do famoso casal Ross and Rachel — soa diferente. Não é só envelhecimento natural de uma comédia dos anos 90. É algo mais preciso: comportamentos que eram tratados como engraçados ou românticos agora soam claramente problemáticos.
Não estou aqui para cancelar um personagem fictício. Estou aqui para entender por que nossa percepção mudou tanto — e o que isso diz sobre a série e sobre nós como público.
O ciúme possessivo que a série normalizou
Quando ‘Friends’ estreou, em 1994, Ross era apresentado como o cara que todo mundo deveria torcer. O marido traído, o romântico incorrigível, o homem que amava Rachel desde sempre. Mas olhe de perto: o comportamento dele com ela é um catálogo de red flags.
A série trata como engraçado Ross aparecer sem aviso no trabalho de Rachel. Na época, a gente ria. Hoje, reconhecemos: isso é assédio. Ele desrespeita a profissão dela — primeiro como garçonete, depois na indústria da moda — com piadinhas que expõem uma insegurança profunda. O ciúme doentio que ele demonstra quando ela interage com qualquer homem não é tratado como problema sério. É tratado como amor intenso.
O detalhe que me impressiona: a série nunca pede que Ross mude de verdade. Ele faz grandes gestos — o ‘I’m fine’ no planetário, a declaração no aeroporto — mas o comportamento possessivo retorna. O ciclo se repete. E a mensagem implícita é que Rachel deveria aceitar isso como parte do pacote.
O vídeo secreto: consentimento não era piada
Tem um episódio que me fez parar no meio. Na 8ª temporada, Ross gravou sem consentimento um vídeo íntimo com Rachel. A série brinca com a situação — quem veio em quem primeiro, a disputa sobre a narrativa — mas o fato central é perturbador: ele manteve uma gravação de sexo que ela não autorizou.
O episódio até reconhece que isso é errado. Ross diz que vai dar o vídeo para ela destruir. Mas não segue adiante. Mais tarde, usa o vídeo como ‘prova’ em uma disputa de ego. Em nenhum momento a série trata isso como gravíssimo. É só mais uma confusão de sitcom.
Se você assistiu esse episódio nos anos 2000, provavelmente não pensou duas vezes. Eu também não. Mas a distância revela o problema: a série coloca o desejo de Ross de ‘estar certo’ acima do direito básico de privacidade de Rachel. E espera que a gente ache normal.
O namoro com aluna e a questão do poder
Este é um dos momentos que me incomodou mesmo na primeira vez que assisti. Ross, professor universitário, começa a namorar Elizabeth, sua aluna. A série tenta equilibrar mostrando que ela se interessa primeiro — ele recebe um comentário anônimo de que é bonito, e rastreia qual aluna enviou.
O ponto central: não importa quem iniciou. Ross é o adulto na posição de poder. Ele tinha a responsabilidade de não seguir adiante. É antiético, é abuso de poder institucional, é uma dinâmica que coloca a aluna em posição vulnerável.
O que torna isso mais bizarro: Ross parece surpreso quando Elizabeth, uma universitária de 20 e poucos anos, age de forma imatura. Ele se mostra indignado com ela indo para spring break, com ela usando biquíni. A série quer que a gente ria dele sendo ‘careta’, mas o problema real é que ele se colocou nessa posição sabendo quem ela era.
‘We were on a break’: a defesa que não se sustenta
O debate mais famoso da série — estavam ou não ‘numa pausa’ quando Ross dormiu com Chloe? — sempre me pareceu o foco errado. A questão técnica do status do relacionamento obscurece o que realmente importa: como Ross se comportou depois.
Se ele realmente acreditava que o relacionamento tinha acabado, por que escondeu Chloe no apartamento? Por que tentou impedir Rachel de descobrir? Por que agiu como alguém que tinha feito algo errado? As ações dele no dia seguinte contam a verdade que a boca dele nega.
A série investe dez temporadas nessa piada recorrente, transformando ‘we were on a break’ em bordão. Mas quanto mais você pensa, mais percebe: Ross quer a validação de estar certo mais do que quer assumir responsabilidade. E isso é um padrão.
Susan, Carol e a homofobia disfarçada de ciúme
Aqui é onde a série envelhece mais mal. Ross foi casado com Carol antes dela assumir-se lésbica e se relacionar com Susan. A série reconhece que ele tem direito de sentir dor. Mas o tratamento que ele dá ao relacionamento de Carol e Susan é sistematicamente desrespeitoso.
Ele se refere ao casamento delas como algo menor. Sugere que Carol ‘deveria colocar de lado’ sua orientação sexual. Faz piadas sobre Susan ‘transformar’ sua esposa em lésbica. Demoniza Susan consistentemente, mesmo quando ela está criando junto o filho dele.
O que torna isso frustrante: ‘Friends’ foi progressista para sua época ao mostrar um casamento lésbico na TV mainstream. Mas o preço dessa representação foi deixar Ross fazer comentários homofóbicos que a série raramente desafia de verdade.
Quando o romantismo vira manipulação
O momento que melhor encapsula o problema de Ross: o final da série, quando ele tenta impedir Rachel de aceitar o emprego dos sonhos em Paris. Depois de anos lutando para se estabelecer na moda, ela consegue uma posição que sustentaria ela e a filha. A reação de Ross? Tentar sabotar.
Primeiro, ele busca fazer ela voltar para o emprego antigo. Quando isso falha, corre para o aeroporto. A série quer que a gente veja isso como gesto romântico — o amor dele é tão grande que ele não consegue deixê-la ir.
Mas pense friamente: Ross coloca seus sentimentos acima da carreira dela e do bem-estar da filha. Ele não pergunta o que ela quer. Ele tenta manipular a situação para conseguir o que deseja. E a série recompensa isso: Rachel desce do avião. O final ‘feliz’ depende dela abrir mão de uma oportunidade transformadora.
Ross não mudou — fomos nós
Não é que Ross Geller seja um vilão. David Schwimmer criou um personagem complexo, engraçado, com momentos genuinamente tocantes. A questão é que ‘Friends’ frequentemente tratou comportamentos questionáveis como excêntricos ou românticos, e o público da época aceitou.
Hoje, temos vocabulário diferente. O movimento #MeToo trouxe à tona discussões sobre consentimento que mal existiam nos anos 90. Entendemos melhor gaslighting, love bombing, abuso de poder. Vamos com mais clareza dinâmicas de controle em relacionamentos e como homofobia se manifesta em microagressões.
O problema não é que Ross seja ‘o pior’. É que a série nunca pediu que ele crescesse de verdade. Ele repetiu padrões, e a narrativa o recompensou com o final feliz que ele ‘merecia’.
Reassistir ‘Friends’ ainda pode ser prazeroso. Mas exige uma nova lente — uma que reconheça os acertos da série e também seus limites. Ross Geller não envelheceu mal porque o personagem mudou. Envelheceu mal porque nós mudamos. E isso, no fim das contas, pode ser o sinal mais positivo de todos.
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Perguntas Frequentes sobre Ross Geller e Friends
Por que Ross Geller é considerado tóxico hoje?
Ross apresenta padrões recorrentes de comportamento possessivo, desrespeito ao consentimento (como gravar vídeo íntimo sem autorização), abuso de poder (namorar aluna) e homofobia disfarçada de ciúme. Comportamentos tratados como românticos nos anos 90 são hoje reconhecidos como red flags.
Qual episódio de Friends é mais problemático com Ross?
O episódio da 8ª temporada em que Ross revela ter gravado um vídeo íntimo com Rachel sem consentimento dela é particularmente perturbador. A série trata como piada, mas o ato constitui violação de privacidade grave.
O que significa ‘we were on a break’?
É o bordão que Ross usa para justificar ter dormido com outra mulher durante uma pausa no relacionamento com Rachel. O debate sobre se a pausa significava fim ou não percorre toda a série, mas as ações de Ross no dia seguinte — esconder a outra mulher, tentar impedir Rachel de descobrir — sugerem que ele sabia ter feito algo errado.
Friends envelheceu mal como um todo?
Partes da série envelheceram mal — especialmente piadas sobre peso, homofobia disfarçada de humor e normalização de comportamentos controladores. Mas Friends também foi progressista para sua época, mostrando um casamento lésbico e discutindo infertilidade. Requer lente crítica, mas ainda tem momentos que funcionam.
David Schwimmer comentou as críticas ao personagem?
Em entrevistas recentes, Schwimmer reconheceu que alguns comportamentos de Ross não envelheceram bem e que a série teria abordado certos temas de forma diferente hoje. Ele defendeu o personagem como produto de sua época, mas não descartou as críticas.

