‘Em Um Piscar de Olhos’: o novo sci-fi do Hulu que divide crítica e público

Com 20% de aprovação crítica e 70% do público no Rotten Tomatoes, Em Um Piscar de Olhos domina o streaming com uma estrutura ambiciosa de três timelines. Analisamos por que o sci-fi do Hulu divide tanto — e se vale a paciência que exige.

Há algo fascinante em filmes que dividem crítica e público com a mesma intensidade. Em Um Piscar de Olhos chegou ao Hulu no final de fevereiro com 20% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes — e 70% do público. Essa disparidade de 50 pontos porcentuais não é apenas um dado estatístico; é um sintoma de algo que vale a pena investigar.

O filme estreou dia 27 de fevereiro e rapidamente subiu nos rankings de audiência. No momento em que escrevo, é o 6º título mais assistido no Hulu, superando ‘Django Livre’, ‘Frozen: Uma Aventura Congelante’ e ‘O Regresso’. Na Disney+, aparece em 8º lugar globalmente. O público está vendo — e aparentemente gostando do que vê, apesar do massacre crítico.

Três timelines, uma pergunta: vale a paciência?

Três timelines, uma pergunta: vale a paciência?

A estrutura de Em Um Piscar de Olhos é ambiciosa desde o primeiro minuto. O filme acompanha três timelines distintas: 47.000 anos no passado, com humanos pré-históricos; os dias atuais, seguindo uma cientista que estuda os restos daquele período; e um futuro distante, onde uma missão interestelar explora o sistema Kepler. Três épocas, três narrativas aparentemente separadas — até que o filme começa a costurá-las.

A comparação com ‘Passageiros’ é inevitável: ambos apostam em revelações que recontextualizam tudo que veio antes. Mas onde aquele filme usou o twist como ponto central, Em Um Piscar de Olhos distribui as conexões ao longo da narrativa — um modelo que exige mais do espectador, mas que evita o problema do ‘terceiro ato que muda tudo’. A montagem paralela de Andrew H. Jones cria um ritmo próprio: cerca de 15 minutos em cada timeline antes de começar a alternar com mais frequência, o que dá ao público tempo suficiente para se apegar a cada conjunto de personagens.

O elenco ajuda a sustentar a aposta. Kate McKinnon, conhecida pelo público de ‘Saturday Night Live’, demonstra alcance dramático que poucos esperavam — especialmente nas cenas de solidão no laboratório, onde seu rosto carrega uma exaustão que não precisa de diálogos. Rashida Jones, de ‘The Office’, traz uma naturalidade que funciona como âncora emocional. Daveed Diggs, que impressionou em ‘Expresso do Amanhã’, entrega um desempenho que conecta as eras com uma presença física marcante. Não é um elenco grande, mas cada nome carrega peso específico na narrativa.

Por que a crítica rejeitou — e o público abraçou

Olhando friamente para os 20% no Rotten Tomatoes, a tentação é assumir que o filme falhou em algum nível fundamental. Mas números contam apenas parte da história. Críticos de cinema tendem a avaliar obras com base em critérios de inovação formal, coerência narrativa e relevância cultural. Público geral, por outro lado, busca experiência emocional, entretenimento e identificação.

Em Um Piscar de Olhos parece ter acertado no segundo e vacilado no primeiro. A estrutura de três timelines exige trabalho do espectador — há momentos em que a conexão entre as histórias não é óbvia, e isso pode frustrar quem busca linearidade. Mas para quem aceita o jogo proposto, o filme oferece algo que poucos blockbusters ousam: um final que honra a jornada sem recorrer a explicação excessiva.

A fotografia é um ponto alto incontestável. Cada timeline tem paleta distinta — tons terrosos para o passado, cores frias e clínicas para o presente, e um azul-etéreo para as cenas futuristas no espaço. Não é apenas bonito; é narrativa visual. O diretor de fotografia entendeu que, quando você tem três histórias correndo paralelas, o público precisa de pistas visuais imediatas para se localizar. O som acompanha essa lógica: a trilha sonora usa instrumentos diferentes para cada época — percussão orgânica no passado, eletrônicos sutis no presente, e um ambient quase silencioso nas cenas espaciais, onde o vácuo domina.

O contexto de 2026 para a ficção científica

O contexto de 2026 para a ficção científica

Este não é um ano comum para o gênero. ‘Duna’ e ‘Guerra nas Estrelas’ retornaram aos cinemas com produções de escala monumental. No outro extremo, ‘Iron Lung: Oceano de Sangue’ provou que filmes menores, com ideias afiadas, podem conquistar público e crítica simultaneamente. Em Um Piscar de Olhos ocupa um território intermediário: é um lançamento streaming com orçamento modesto, mas com pretensões temáticas que remetem a filmes como ‘A Chegada’ e ‘Interestelar’ — sci-fi que usa o gênero para falar sobre conexão humana.

Essa posição intermediária pode explicar parte da divisão. Críticos podem ter comparado o filme aos grandes lançamentos cinematográficos de 2026 e achado que ele não se sustenta no mesmo patamar. O público, livre dessa comparação, pode ter avaliado a obra por seus próprios méritos — e encontrado valor suficiente na proposta emocional.

Vale a pena assistir?

Se você gosta de ficção científica que prioriza ideias sobre explosões, Em Um Piscar de Olhos merece suas duas horas. A premissa é original, o elenco está comprometido, e o terceiro ato recompensa a paciência exigida nos primeiros 40 minutos. Há algo genuíno na forma como o filme aborda conexão humana através do tempo — não de forma piegas, mas com uma melancolia que ressoa.

Agora, se você busca ritmo constante e respostas claras desde o início, pode sair frustrado. O filme não faz questão de ser fácil. Ele confia que o público vai acompanhar — e essa confiança, para alguns, pode parecer arrogância mal executada.

A divisão entre crítica e público diz mais sobre o momento do cinema do que sobre o filme em si. Em uma era de algoritmos que preveem exatamente o que queremos ver, Em Um Piscar de Olhos aposta em algo diferente. Isso merece respeito — mesmo que o resultado seja imperfeito.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Em Um Piscar de Olhos’

Onde assistir ‘Em Um Piscar de Olhos’?

O filme está disponível exclusivamente no Hulu desde 27 de fevereiro de 2026. Assinantes da Disney+ com pacote Bundle também têm acesso.

Quanto tempo dura ‘Em Um Piscar de Olhos’?

O filme tem aproximadamente 2 horas de duração. Os primeiros 40 minutos exigem mais paciência antes da narrativa começar a conectar as três timelines.

Por que a crítica rejeitou ‘Em Um Piscar de Olhos’?

A estrutura não-linear e as conexões não explícitas entre as três timelines frustraram críticos que buscam inovação formal e coerência narrativa. O público, buscando experiência emocional, parece ter respondido melhor à proposta.

‘Em Um Piscar de Olhos’ tem cenas pós-créditos?

Não. O filme tem uma conclusão definitiva e não há cenas durante ou após os créditos finais.

Para quem é recomendado ‘Em Um Piscar de Olhos’?

Fãs de ficção científica que priorizam ideias sobre ação — especialmente quem gostou de ‘A Chegada’, ‘Interestelar’ ou ‘A Astronauta’. Quem prefere ritmo constante e respostas claras pode se frustrar.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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