‘Cidade das Estrelas’: spin-off de ‘For All Mankind’ vira thriller na Guerra Fria

‘Cidade das Estrelas’, spin-off de ‘For All Mankind’, troca o otimismo espacial pela paranoia soviética. Analisamos como a mudança de gênero — de drama aspiracional para thriller paranoico — expande o universo da Apple TV+ e por que a cidade fechada real onde cosmonautas treinavam é o cenário perfeito.

Há uma ironia precisa no fato de ‘For All Mankind’ — série construída sobre a premissa de que a corrida espacial nunca terminou e países cooperaram — ganhar um spin-off focado em paranoia. ‘Cidade das Estrelas’ não apenas muda de país (da NASA para o programa espacial soviético), mas troca o otimismo aspiracional pelo sufocamento de viver sob vigilância constante. O universo criado por Ronald D. Moore decidiu mostrar seu lado sombrio — e a escolha narrativa faz sentido completo.

A Apple TV+ descreveu a nova série como um “thriller paranoico propulsivo”. Quem acompanha ‘For All Mankind’ sabe que a série mãe tem seus momentos de tensão, mas o adjetivo “paranoico” nunca esteve no vocabulário da obra. A série original abraça uma visão quase utópica: cientistas de diferentes nacionalidades colaborando, mulheres astronautas nos anos 70, progresso como força motriz. ‘Cidade das Estrelas’ promete o oposto — o peso de viver atrás da Cortina de Ferro, onde cada decisão pode ser uma traição e cada sucesso pode ser uma armadilha.

Por que focar na URSS muda completamente o jogo

A decisão de situar ‘Cidade das Estrelas’ simultaneamente à primeira temporada de ‘For All Mankind’ é uma jogada estratégica inteligente. Em vez de avançar no tempo, a série retrocede geograficamente — para o lado soviético da corrida espacial que a obra original apenas vislumbrou de relance. Cosmonautas, engenheiros e oficiais de inteligência agora são protagonistas, não figuras distantes em centros de controle em Houston.

A mudança de foco permite explorar uma verdade histórica que ‘For All Mankind’ só tangenciou: o programa espacial soviético operava sob pressões completamente diferentes do americano. Enquanto a NASA lidava com políticos e orçamentos, os soviéticos lidavam com a KGB, com medo de serem considerados “inimigos do Estado” se falhassem, com a necessidade de provar lealdade ideológica enquanto tentavam avançar a ciência. Esse é material fértil para um thriller de paranoia.

O próprio nome da série carrega peso histórico. “Cidade das Estrelas” (Звёздный городо́к, Zvyozdny gorodok) é uma cidade fechada real nos arredores de Moscou, onde cosmonautas soviéticos treinam desde os anos 60. Era altamente secreta, não aparecia em mapas oficiais, e seus moradores viviam sob vigilância constante do KGB. Cada morador sabia que estava sendo observado — e que observava os outros. A Apple não escolheu um nome genérico; escolheu um lugar que existiu exatamente como o spin-off promete retratar.

O thriller paranoico como escolha de gênero — e não apenas marketing

Quando a Apple descreve ‘Cidade das Estrelas’ como “propulsivo”, a palavra faz sentido para quem viu ‘For All Mankind’. A série original sabe criar sequências de tensão visceral — basta lembrar os resgates orbitais ou os pousos dramáticos. Mas “paranoico” é outra categoria. Sugere que o perigo não está apenas no espaço, mas nos corredores, nas conversas privadas, nos olhares trocados entre colegas que podem ser informantes.

A paranoia como elemento narrativo exige uma construção diferente de cena. Em ‘For All Mankind’, os personagens discutem abertamente seus medos e esperanças. Em um thriller paranoico soviético, a confiança é luxo que ninguém pode pagar. Cada diálogo tem camadas. Cada relacionamento pode ser uma fachada. Isso não é apenas uma mudança de tom — é uma mudança de linguagem cinematográfica inteira.

Os modelos do gênero são claros. ‘The Americans’ mostrou como viver sob identidade falsa cria um estado permanente de exaustão mental — cada intimidade é uma vulnerabilidade potencial. ‘Tinker Tailor Soldier Spy’ demonstrou que a verdadeira paranoia institucional vem de não saber de onde vem a traição: pode ser o colega do lado, pode ser o chefe, pode ser ninguém. Se ‘Cidade das Estrelas’ conseguir combinar essa atmosfera com o rigor técnico que ‘For All Mankind’ demonstra em cada sequência espacial, teremos algo que a televisão raramente tentou.

O desafio será equilibrar essa atmosfera opressiva com o humanismo que fez ‘For All Mankind’ funcionar. A série original não é apenas sobre foguetes — é sobre pessoas que arriscam tudo por algo maior que elas. Se o spin-off perder isso no caminho, vira apenas mais um thriller de espionagem com cenário espacial. Se acertar, pode ser um retrato íntimo de pessoas tentando fazer ciência sob um regime que não tolera falhas.

A expansão necessária de um universo que não podia se repetir

A expansão necessária de um universo que não podia se repetir

‘For All Mankind’ cobre décadas. A série abrange múltiplos países, múltiplos programas espaciais, múltiplas gerações de astronautas e engenheiros. Tentar contar uma história similar dentro desse universo seria redundância — já existe uma série fazendo exatamente isso. A única forma de expandir sem competir consigo mesmo é mudar o jogo.

‘Cidade das Estrelas’ faz isso ao escolher um foco mais estreito e um tom mais sombrio. Em vez de décadas, provavelmente lidaremos com meses — o período específico da primeira temporada de ‘For All Mankind’, vista do outro lado. Em vez de esperança aspiracional, teremos a urgência de quem sabe que um passo em falso pode custar mais que uma missão fracassada.

Os oito episódios anunciados sugerem uma narrativa mais condensada, mais focada em tensão imediata do que na construção épica de longo prazo. Isso é inteligente. Dá à série espaço para ser algo diferente sem exigir o compromisso de tempo que ‘For All Mankind’ pede de seus espectadores.

O precedente de ‘Better Call Saul’ e os riscos de mudar de tom

A combinação de universo estabelecido com mudança radical de tom é sempre um risco. Fãs de ‘For All Mankind’ podem se sentir perdidos sem o otimismo que os atraiu. Fãs de thrillers de espionagem podem achar o elemento espacial distrator. Mas há um precedente que funcionou: ‘Better Call Saul’ provou que um spin-off pode ter ritmo, tonalidade e até gênero diferentes da série original e ainda assim ser aclamado — a crítica especializada chegou a argumentar que superou ‘Breaking Bad’ em sofisticação narrativa.

A diferença crucial é que ‘Better Call Saul’ tinha personagens já estabelecidos para ancorar a transição. ‘Cidade das Estrelas’ parte do zero — novos personagens, novo ambiente, nova linguagem visual. O vínculo com ‘For All Mankind’ será temático e contextual, não emocional. Isso exige que a série conquiste sua audiência do início, sem atalhos.

‘Cidade das Estrelas’ tem material humano suficiente para funcionar. A história real do programa espacial soviético inclui tragédias ocultadas por décadas — como a morte de Vladimir Komarov na Soyuz 1, que ele sabia que falharia mas foi obrigado a pilotar sob pressão política. Inclui rivalidades internas destrutivas entre bureaus de design concorrentes. Inclui cientistas que realizaram proezas técnicas sob condições que seriam impensáveis no Ocidente. Se a série conseguir capturar isso com a mesma atenção aos detalhes que ‘For All Mankind’ demonstra, terá algo worth watching.

A pergunta central fica: a série conseguirá fazer seus cosmonautas tão humanos quanto os astronautas de ‘For All Mankind’? Conseguirá mostrar que pessoas do outro lado da Cortina de Ferro tinham os mesmos sonhos, mas sob condições radicalmente diferentes? Se a resposta for sim, ‘Cidade das Estrelas’ não será apenas um spin-off competente — será a prova de que o universo de Ronald D. Moore tem mais a dizer do que imaginávamos.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Cidade das Estrelas’

O que é ‘Cidade das Estrelas’?

‘Cidade das Estrelas’ (Star City) é um spin-off de ‘For All Mankind’ focado no programa espacial soviético durante a Guerra Fria. A série promete um tom mais sombrio, descrito pela Apple como um “thriller paranoico propulsivo”.

Precisa assistir ‘For All Mankind’ para entender ‘Cidade das Estrelas’?

Provavelmente não. A série se passa no mesmo universo e período da primeira temporada de ‘For All Mankind’, mas com personagens e foco novos. Conhecer a série original pode enriquecer a experiência, mas não deve ser obrigatório.

Quando estreia ‘Cidade das Estrelas’?

A Apple TV+ ainda não anunciou data de estreia oficial. A série foi confirmada com oito episódios, mas produção e elenco completos permanecem sob detalhes limitados.

A ‘Cidade das Estrelas’ é um lugar real?

Sim. “Cidade das Estrelas” (Zvyozdny gorodok) é uma cidade fechada real nos arredores de Moscou, onde cosmonautas soviéticos e russos treinam desde os anos 60. Era altamente secreta, não aparecia em mapas, e seus moradores viviam sob vigilância constante do KGB.

Qual a diferença entre ‘Cidade das Estrelas’ e ‘For All Mankind’?

Enquanto ‘For All Mankind’ foca na NASA com tom otimista e expansivo, ‘Cidade das Estrelas’ foca no programa espacial soviético com tom paranoico e confinado. A primeira abrange décadas; o spin-off deve ser mais condensado, focado em tensão imediata.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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