‘Everybody Wants Some!!’: a joia subestimada do baseball com o elenco que virou estrela

‘Everybody Wants Some!!’ captura o espírito do baseball sem mostrar um único jogo. Analisamos como Richard Linklater construiu um retrato do clubhouse universitário e por que este filme lançou Glen Powell e um elenco que dominaria Hollywood nos anos seguintes.

Existe uma ironia precisa em ‘Everybody Wants Some!!’: é um dos melhores filmes de baseball dos últimos anos, e praticamente não há baseball nele. Nenhum grande jogo, nenhum home run decisivo, nenhum treinamento motivacional com trilha épica. O que Richard Linklater capturou foi algo que a maioria dos filmes de esporte ignora — a camaradagem fora de campo, aquele sentimento de clubhouse que define o esporte tanto quanto qualquer estatística.

Lançado em 2016, o filme chegou discretamente nos cinemas e sumiu rápido das telas. Mas algo curioso aconteceu nos anos seguintes: o elenco praticamente explodiu em Hollywood. ‘Everybody Wants Some!!’ se transformou em uma espécie de cápsula do tempo — não só dos anos 80 que retrata, mas de um momento específico antes de Glen Powell, Wyatt Russell, Zoey Deutch e Tyler Hoechlin se tornarem nomes conhecidos.

Por que um filme de baseball sem baseball funciona

Por que um filme de baseball sem baseball funciona

Linklater sabe algo que muitos diretores de filmes esportivos ignoram: o que faz um time não é o que acontece entre as quatro linhas, mas o que constrói os jogadores antes de eles pisarem no campo. ‘Everybody Wants Some!!’ se passa nos dias que antecedem o início das aulas universitárias, seguindo um grupo de jogadores de baseball se instalando em duas casas compartilhadas.

A premissa parece simples demais para sustentar duas horas. Não há conflito dramático convencional, não há vilão, não há jogo decisivo no terceiro ato. O filme funciona como um estudo de personagens coletivo, uma observação antropológica de como jovens atletas navegam identidade, competição e amizade.

Reparando com atenção, percebe-se como a câmera de Linklater se comporta: ela não julga esses personagens, não os transforma em arquétipos. O diretor de fotografia Shane Kelly usa uma paleta quente, saturada, que evoca aquele final de verão texano sem nunca cair em nostalgia barata. A luz natural domina as cenas internas, criando uma sensação de verossimilhança que poucos filmes de época conseguem.

O elenco que ninguém previu que explodiria

Assistir a ‘Everybody Wants Some!!’ em 2026 é uma experiência singular — tipo encontrar uma foto antiga onde todos os desconhecidos se tornaram famosos. Glen Powell, que aqui interpreta Walt “Finn” Finnegan, estava longe de ser o nome que protagonizaria blockbusters e romances. Mas já se nota o carisma que o catapultaria.

Finnegan não é o melhor jogador do time, não é o mais inteligente, não é o líder natural. Mas é quem melhor entende o código social daquele ambiente — aquele cara que sabe navegar hierarquias sem pisar em ninguém. Há uma cena específica, durante uma festa, onde Finnegan explica para o novato Jake (Blake Jenner) como se portar. Poderia ser expositivo e chato. Powell entrega com uma naturalidade que disfarça completamente a construção do roteiro. É esse tipo de presença — alguém que rouba cenas sem parecer estar tentando — que define sua carreira posterior.

Wyatt Russell, que desde o filme entrou para o MCU como U.S. Agent em ‘Falcão e o Soldado Invernal’, também impressiona. Seu personagem Willoughby é o cara mais velho do time, um eterno universitário que parece ter encontrado seu lugar permanente naquele limbo entre adolescência e vida adulta. Russell consegue transmitir melancolia sem nunca verbalizá-la — um olhar aqui, uma hesitação ali. É o tipo de atuação sutil que passa despercebida na primeira vez, mas ganha camadas em reprises.

E tem Tyler Hoechlin, que depois se tornaria o Superman de ‘Superman e Lois’. Aqui, ele interpreta McReynolds, o melhor jogador do time — e o cara que mais claramente vê o baseball como profissão, não como paixão. Hoechlin faz um personagem que poderia ser antipático parecer humano, especialmente em momentos onde McReynolds revela suas próprias inseguranças sobre o futuro.

A trilha sonora que é time capsule dos anos 80

A trilha sonora que é time capsule dos anos 80

O filme se passa em 1980, e Linklater usa música como ferramenta narrativa. A trilha não é apenas cenário — é como esses personagens se definem. Temos desde o synth-pop do iniciozinho dos anos 80 até o rock clássico que os caras mais velhos ainda cultuam. Em uma cena, os jogadores discutem qual seria sua “walk-up song” — aquela música que toca quando um batedor entra no campo. O que poderia ser momento descartável se transforma em discussão reveladora sobre identidade, sobre como cada jogador quer ser percebido.

É baseball, sim, mas é também sobre autoimagem, sobre performance de gênero, sobre a persona que cada um constrói para si. A escolha musical de cada personagem diz mais sobre ele do que qualquer diálogo expositivo conseguiria.

A conexão espiritual com ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’

É impossível ignorar que ‘Everybody Wants Some!!’ funciona como uma espécie de sequência espiritual de ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’ (Dazed and Confused), o clássico de 1993 do próprio Linklater. Ambos capturam um dia — ou dias — na vida de jovens americanos, ambos evitam julgamento moral, ambos terminam sem conclusões definitivas. Mas há uma diferença fundamental: onde ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’ focava em estudantes do ensino médio ainda descobrindo quem são, ‘Everybody Wants Some!!’ trata de jovens adultos que já têm uma identidade — a de atletas.

Isso cria uma dinâmica interessante. Esses personagens não estão perdidos existencialmente da mesma forma que os adolescentes de ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’. Eles sabem exatamente quem são: jogadores de baseball. O que eles estão descobrindo é o que acontece quando essa identidade colide com outras — com a vida acadêmica, com relacionamentos, com perspectivas de futuro que não envolvem o esporte.

Linklater, que cresceu no Texas e frequentou universidade em Houston, sabe do que está falando. Há uma autenticidade nos diálogos, na forma como esses caras interagem, que só vem de observação real. Não é coincidência que o filme funcione melhor nas cenas de grupo — aqueles momentos onde cinco ou seis personagens conversam ao mesmo tempo, interrompendo uns aos outros, completando frases, criando piadas internas. É a gramática de um clubhouse traduzida para cinema.

O que o filme entende sobre esporte que outros não entendem

O que o filme entende sobre esporte que outros não entendem

Filmes de baseball clássicos como ‘Garra de Campeões’, ‘O Homem Que Mudou o Jogo’ e ‘Uma Equipe Muito Especial’ focam no drama dentro de campo. São histórias de superação, de vitórias improváveis, de momentos que definem carreiras. Funcionam, mas apresentam uma visão parcial do que significa ser atleta.

‘Everybody Wants Some!!’ preenche essa lacuna. Mostra que grande parte da vida de um atleta acontece fora dos holofotes — nas casas compartilhadas, nas festas universitárias, nas conversas de vestiário. O baseball aqui é pano de fundo, não protagonista. E isso permite que Linklater explore algo mais universal: não o esporte em si, mas o que o esporte constrói nos que o praticam.

Zoey Deutch, que depois brilhou em ‘Zumbilândia: Atire Duas Vezes’ e ‘O Plano Imperfeito’, tem um papel menor mas crucial como a estudante de teatro que questiona a mentalidade de atleta. Seus diálogos com Jenner expõem o abismo entre dois mundos universitários — o dos atletas e o dos “normais” — sem nunca cair em caricatura de um lado ou outro.

Um filme que merece ser redescoberto

Quando lançado, ‘Everybody Wants Some!!’ foi tratado como uma curiosidade menor na filmografia de Linklater. Veio depois do ambicioso ‘Boyhood: Da Infância à Juventude’, antes de projetos mais “sérios”. A crítica elogiou, mas o público não apareceu. Em parte, o marketing falhou — venderam como comédia adolescente quando o filme é algo mais específico.

Ver hoje é outra experiência. Sabendo o que o elenco se tornou, reconhecendo a mão de Linklater em cada escolha, percebendo como o filme antecipa discussões sobre masculinidade e identidade que ganharam força nos anos seguintes, ‘Everybody Wants Some!!’ revela-se mais substancial do que parecia inicialmente.

Não é perfeito. O ritmo deliberadamente lento pode frustrar quem espera a estrutura tradicional de comédia. Alguns personagens permanecem esboços. A ausência de conflito dramático convencional exige paciência do espectador. Mas essas escolhas são também o que diferencia o filme — Linklater se recusa a forçar artificialidade onde não pertence.

Para quem curte baseball, o filme oferece algo raro: um retrato honesto da cultura do esporte sem glorificação ou condenação. Para quem curte cinema, oferece um estudo de como construir personagens coletivos com economia e precisão. E para quem curte ver atores antes de estourarem, é um documento fascinante de um elenco no momento exato antes de tudo mudar.

Se você procura o típico filme de vitória esportiva, passe direto. Mas se quer entender o que acontece nos bastidores de uma temporada — a camaradagem, as tensões, a descoberta de identidade — ‘Everybody Wants Some!!’ é uma descoberta que vale cada minuto. E Glen Powell como Finnegan sozinho justifica conferir.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Everybody Wants Some!!’

Onde assistir ‘Everybody Wants Some!!’?

‘Everybody Wants Some!!’ está disponível no Amazon Prime Video e pode ser alugado ou comprado em plataformas como Apple TV, Google Play e YouTube. A disponibilidade varia por região.

Quanto tempo dura ‘Everybody Wants Some!!’?

O filme tem 1 hora e 57 minutos de duração. O ritmo é deliberadamente vagaroso, sem pressa para chegar a um clímax convencional.

‘Everybody Wants Some!!’ é sequência de ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’?

Não é sequência direta. Linklater descreveu o filme como “sequência espiritual” de ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’ (1993) — ambos capturam um período curto na vida de jovens americanos, mas com personagens e épocas diferentes. ‘Everybody Wants Some!!’ se passa em 1980 e foca em atletas universitários.

Por que o título tem duas exclamações?

O título vem da música homônima da banda Van Halen, lançada em 1980 — mesmo ano em que o filme se passa. As duas exclamações fazem parte do título original da canção.

O filme tem cenas de baseball?

Praticamente não. Há breves momentos de prática e referências ao esporte, mas nenhum jogo é mostrado na tela. O foco é a vida fora de campo — o clubhouse, as festas, as conversas de vestiário.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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