‘O VelociPastor’: quando a falta de orçamento vira a melhor piada

Analisamos como ‘O VelociPastor’ (2017) transforma orçamento zero em ferramenta cômica intencional. Do cartaz “VFX: Car On Fire” ao controle tonal que separa este trash de desastres como ‘Sharknado’, entendemos por que o filme virou cult classic.

Existe um tipo de filme que define seu próprio sucesso por parâmetros que nenhuma crítica tradicional conseguiria mensurar. O VelociPastor é exatamente isso: uma obra que olha para você, sorri, e diz “sim, somos um filme de padre que vira dinossauro feito com trocados — e daí?”. A resposta, surpreendentemente, é que isso funciona genialmente.

Lançado em 2017 após um longo ciclo de festivais, o filme de Brendan Steere se tornou um marco do cinema trash moderno — não pelo que faz errado, mas pelo que acerta intencionalmente. O cinema de horror e comédia sempre compartilharam um DNA comum: ambos buscam reações físicas involuntárias no espectador. O riso escancarado e o grito de terror são primos próximos. O que O VelociPastor faz de brilhante é apostar nessa fronteira — mas em vez de fazer você rir para depois gritar, ele faz você rir do próprio horror. É uma distinção que transforma o que poderia ser um desastre em uma experiência de culto.

A premissa que não tenta se levar a sério — e isso é o ponto

A premissa que não tenta se levar a sério — e isso é o ponto

O roteiro segue Doug Jones, um padre que após perder os pais em um acidente de carro na China (sim, a geografia é elástica), adquire a habilidade de se transformar em um Velociraptor. Ele usa esse poder para combater o crime, auxiliado por uma profissional do sexo que também é advogada parcial e estudante de medicina. Ao longo do caminho, descobrem que a Igreja emprega ninjas para distribuir drogas na comunidade e aumentar a frequência aos cultos. Se você leu esse parágrafo e pensou “isso é ridículo”, você entendeu completamente o filme.

O que separa O VelociPastor de produções similares que falharam miseravelmente — pense em Sharknado e sua franquia cansada — é uma diferença fundamental: consciência. Steere sabia exatamente o que estava fazendo. Não há aqui a incompetência acidental de um Ed Wood — há a competência intencional de alguém que abraçou a piada e levou às últimas consequências. Cada elemento que parece “errado” na tela foi calculado para gerar exatamente a reação que você está tendo.

Quando “VFX: Car On Fire” se torna a melhor piada visual do ano

Tem um momento específico que define todo o ethos dessa produção. Quando os pais de Doug morrem em um acidente de carro, ouvimos o som de uma explosão. Então, ao invés de mostrar um veículo em chamas — o que exigiria efeitos visuais que o orçamento não permitia — aparece na tela um cartaz preto com letras brancas: “VFX: Car On Fire”. É impossível não rir. É impossível não admirar a audácia.

Essa escolha encapsula tudo o que funciona no filme. Um diretor menos confiante teria evitado mostrar a cena, focando apenas na reação do personagem. Steere faz o oposto: ele exibe a limitação como se fosse uma medalha de honra. O cartaz é um convite para abandonar todas as preconcepções sobre cinema como medium de narrativa séria e simplesmente se entregar ao absasso. Funciona porque é genuíno — não há cinismo aqui, apenas criatividade sob pressão.

O humor que parece acidental — mas tem controle tonal cirúrgico

O humor que parece acidental — mas tem controle tonal cirúrgico

Grande parte do público que assiste a O VelociPastor nos primeiros minutos assume que está rindo do filme, não com ele. Os efeitos visuais caseiros, as escolhas de edição bizarras, o elenco que parece ter sido recrutado em uma festa de vizinhos — tudo grita “amador”. Mas então você presta atenção nos detalhes: os nomes dos personagens são deliberadamente ridículos, o diálogo é tão exagerado que beira o teatral, a estrutura narrativa costura eventos aleatórios de forma que quase faz sentido.

O filme entende que em uma produção zero-budget, tentar esconder as limitações seria o verdadeiro erro. Cada restrição vira oportunidade de piada. A transformação do protagonista em dinossauro é feita com efeitos que seriam ridículos em qualquer outro contexto — mas aqui, eles são a própria piada. O espectador que entra esperando um filme ruim sai admirando o controle tonal necessário para fazer esse tipo de humor funcionar.

Por que este trash funciona melhor que os blockbusters autoconscientes

O filme chega em um momento curioso para a comédia. A década de 2020 tem sido marcada por um humor referencial, contido, excessivamente autoconsciente — uma resposta compreensível ao estado do mundo. Mas existe espaço para algo mais solto, mais caótico, mais disposto a cometer erros de propósito. O VelociPastor representa essa energia: uma obra que não tem medo de parecer ridícula porque sua convicção no absurdo é total.

Há uma lição maior aqui sobre criatividade cinematográfica. O cinema independente de baixo orçamento sempre foi fértil para inovação — não por escolha, mas por necessidade. Quando você não tem dinheiro para efeitos convincentes, precisa inventar. Quando não pode contratar atores famosos, precisa encontrar performers que tragam algo único. O VelociPastor é uma demonstração prática de como restrições geram soluções que produções milionárias jamais considerariam.

Veredito: para quem esse filme foi feito?

Se você é do tipo que precisa de produção impecável, fotografia cuidadosa e performances naturais, O VelociPastor vai te irritar em aproximadamente trinta segundos. Mas se você consegue apreciar cinema como exercício de criatividade sob restrições extremas, se você ri de piadas visuais que funcionam precisamente porque são “erradas”, se você já passou horas discutindo filmes trash com amigos — este é seu filme.

A reputação de cult classic é justificada. Com 59% no Rotten Tomatoes — quase fresco, significativamente acima do que a premissa sugere — provou que existe audiência para obras que abraçam seu próprio absurdo. É uma celebração de paixão cinematográfica que brilha mesmo com recursos mínimos, e uma prova de que compromisso com uma ideia, não importa quão bizarra, quase sempre gera resultados que merecem ser vistos.

No final, O VelociPastor entrega exatamente o que promete: uma experiência de horror-comédia que não pede desculpas por existir. Em uma era de produções polidas demais e marketing agressivo para filmes que prometem muito e entregam pouco, há algo refrescante sobre um projeto que diz “temos um padre que vira dinossauro e zero dinheiro para fazer isso parecer real” — e ainda consegue ser memorável.

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Perguntas Frequentes sobre O VelociPastor

Onde assistir O VelociPastor?

‘O VelociPastor’ está disponível no Amazon Prime Video e pode ser alugado ou comprado nas plataformas Apple TV, Google Play e YouTube. Em 2017, chegou a circular em festivais de cinema antes do lançamento digital.

Qual foi o orçamento de O VelociPastor?

O filme foi feito com aproximadamente 11.000 dólares, valor arrecadado via crowdfunding no Kickstarter. O baixo orçamento foi abraçado como elemento cômico intencional, não tratado como limitação a esconder.

O VelociPastor tem sequência?

Não há sequência lançada, mas o diretor Brendan Steere chegou a comentar ideias para um segundo filme. Por enquanto, o original permanece como obra única — o que, para muitos fãs, preserva seu charme.

O VelociPastor é de terror ou comédia?

É uma comédia de terror que ridiculariza os clichês dos dois gêneros. A classificação oficial é horror-comédia, mas o foco está no humor derivado do absurdo deliberado, não em sustos genuínos.

Quem dirigiu O VelociPastor?

Brendan Steere dirigiu, escreveu e editou o filme. Ele desenvolveu o projeto durante anos, passando por festivais antes do lançamento oficial em 2017. O curioso: a ideia surgiu de um meme que ele criou em 2011.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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