‘O Refúgio’: o substituto adulto de ‘Piratas do Caribe’ vira sensação na Prime Video

‘O Refúgio’ lidera o streaming em 28 países como a resposta adulta que o gênero pirata precisava. Analisamos como o filme desmonta a fantasia Disney e por que a crítica social ao colonialismo ressoa com o público maduro de streaming.

Há algo ironicamente apropriado no fato de ‘Piratas do Caribe’ ter se tornado sinônimo de aventura infantil no cinema. Piratas reais não eram personagens de parque temático — eram criminosos brutos, produtos de um sistema colonial que os criou e depois os caçou. O Refúgio Prime Video chega justamente para desmontar essa fantasia, e o público está respondendo em massa: em menos de 48 horas, o thriller de piratas já é o filme mais assistido em 28 países.

O que estamos vendo não é coincidência. É um sinal de que o espectador de streaming amadureceu — e está faminto por histórias que tratem de piratas como o que realmente foram: figuras complexas, violentas, inseridas em um contexto histórico que Hollywood preferiu ignorar por décadas.

Por que ‘O Refúgio’ está dominando o streaming mundial

Por que 'O Refúgio' está dominando o streaming mundial

Os números falam por si para um filme que não teve campanha massiva de marketing. Segundo o FlixPatrol, a produção estreou diretamente no topo da plataforma, superando títulos como ‘Dupla Perigosa’ (com Jason Momoa e Dave Bautista), ‘O Bom Bandido’ de Channing Tatum, e até o thriller de espionagem ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ de Guy Ritchie. No Brasil, França, Alemanha e Reino Unido, o filme ocupa a primeira posição. Em 37 países, aparece no top 10.

Mas números explicam o quê, não o porquê. O sucesso de ‘O Refúgio’ revela algo mais interessante: existe uma audiência reprimida querendo filmes de piratas que não sejam comédias com Jack Sparrow. A classificação R — indicativa para maiores de 18 anos nos EUA — não foi obstáculo. Foi atrativo.

A crítica também ajudou a construir credibilidade. Com 68% de aprovação entre especialistas e 77% do público no Rotten Tomatoes, o filme conquistou um equilíbrio raro: respeitável o suficiente para ser levado a sério, acessível o suficiente para entreter. O ScreenRant deu 7 de 10 e fez uma comparação que diz muito: chamou Priyanka Chopra Jonas de uma “John Wick pirata”. Não é exagero — a atriz carrega sequências de ação com a mesma intensidade física que consagrou Keanu Reeves.

O elenco que carrega o filme nas costas

Karl Urban e Priyanka Chopra Jonas não são escolhas óbvias para um filme de piratas — e essa é a força do projeto. Urban vem de ‘The Boys’, onde construiu uma carreira interpretando personagens moralmente ambíguos com carisma perigoso. Seu Capitão Connor não é um vilão de opereta; é um homem movido por rancor legítimo, e o ator transmite isso sem precisar de monólogos explicativos.

Já Chopra Jonas tinha algo a provar depois de ‘Matrix Resurrections’ — filme que, sendo generoso, não deu a ela material à altura de seu talento. Aqui, como Ercell Bodden, ela finalmente recebe um papel que exige presença física e gravidade emocional. Ercell é uma ex-pirata tentando deixar seu passado para trás, mas o passado, em filmes desse tipo, nunca colabora.

O roteiro de Joe Ballarini e Frank E. Flowers acerta ao não explicar demais. Presumimos que Ercell carrega culpas, mas o filme deixa espaços em branco — o público preenche. É uma confiança narrativa que filmes de estúdio mainstream frequentemente abandonam por medo de “confundir” o espectador.

A crítica social que ‘Piratas do Caribe’ nunca teria coragem de fazer

A crítica social que 'Piratas do Caribe' nunca teria coragem de fazer

Aqui está onde ‘O Refúgio’ se separa definitivamente da franquia Disney. O filme não apenas mostra violência — ele a contextualiza. O crítico Gregory Nussen, em sua análise para o ScreenRant, apontou algo que passou despercebido por muitos: “O roteiro revela sua mensagem mais profunda sobre como a violência colonial sangra nas pessoas que ela aterroriza, inevitavelmente perpetuando um ciclo de derramamento de sangue.”

Isso não é subtexto sutil — é o texto explícito. Ambientado no Caribe do século XIX, o filme retrata piratas não como rebeldes românticos, mas como produtos de um sistema de exploração. A colonização europeia criou as condições para a pirataria existir; depois, criminalizou aqueles que sobreviveram às suas próprias práticas. É uma crítica que transforma o gênero.

Não que ‘O Refúgio’ seja um ensaio acadêmico disfarçado de ação. O filme funciona primeiro como entretenimento — sequências de combate corpo a corpo filmadas com clareza espacial rara em blockbusters modernos, onde cada golpe tem peso e consequência. A direção de Frank E. Flowers, cineasta nascido nas Ilhas Cayman, traz uma autenticidade geográfica que filmes hollywoodianos raramente conseguem quando filmam o Caribe em estúdios da Bulgária.

O gênero pirata estava morto — ou só precisava crescer?

Depois de cinco filmes de ‘Piratas do Caribe’ com orçamentos inflacionados e qualidade decrescente, o gênero parecia exausto. A última tentativa de revivê-lo, ‘Pan’ (2015), foi um desastre de bilheteria e crítica. A mensagem para estúdios parecia clara: público não quer mais piratas.

Exceto que queria — só não queria a mesma coisa de sempre. ‘O Refúgio’ prova que existe apetite para histórias de navegação, espadas e traições, desde que tratadas com seriedade adulta. É o mesmo fenômeno que transformou filmes de super-heróis: o público que cresceu assistindo a versões infantis agora quer versões que reconheçam sua maturidade.

Não é coincidência que os irmãos Russo — os mesmos que dirigiram os maiores filmes da Marvel e agora preparam ‘Vingadores: Doutor Destino’ — sejam produtores executivos. Eles entendem que franquias precisam evoluir ou morrer. ‘Piratas do Caribe’ morreu por recusar a evoluir. ‘O Refúgio’ nasce aprendendo com esse erro.

Veredito: vale assistir?

Se você entra esperando diversão descompromissada com navios e espadas, vai encontrar — mas também vai levar na cara um filme que pede atenção. ‘O Refúgio’ não é perfeito: alguns diálogos pecam pela funcionalidade, e o terceiro ato acelera demais para resolver tramas que mereciam mais tempo. Mas é um filme honesto com sua proposta, e isso já coloca à frente da maioria dos blockbusters de estúdio.

Para quem gosta de ação com inteligência — pense em ‘John Wick’ cruzado com ‘Agente das Sombras’ de Liam Neeson — é uma descoberta gratificante. Para quem espera Jack Sparrow cantarolando rum, vai sair frustrado. E talvez isso seja o maior elogio possível: ‘O Refúgio’ não quer ser para todos. Quer ser para adultos que respeitam o gênero.

O diretor Frank E. Flowers já comentou que uma sequência é “algo em que pensamos muito”. Se os números continuarem assim, não vai ser pensamento por muito tempo. Hollywood finalmente aprendeu que piratas podem ser adultos — e o público, parece, estava esperando por isso há muito tempo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Refúgio’

Onde assistir ‘O Refúgio’?

‘O Refúgio’ está disponível exclusivamente na Prime Video desde fevereiro de 2026. É uma produção original Amazon MGM Studios.

Qual a classificação indicativa de ‘O Refúgio’?

O filme tem classificação R nos EUA (maiores de 17 anos acompanhados ou maiores de 18 anos) e 16 anos no Brasil. Contém violência gráfica, combates corpo a corpo intensos e temas maduros sobre colonialismo.

Quem são os protagonistas de ‘O Refúgio’?

Priyanka Chopra Jonas interpreta Ercell Bodden, uma ex-pirata tentando deixar o passado para trás. Karl Urban vive o Capitão Connor, antagonista movido por vingança. O filme é dirigido por Frank E. Flowers.

‘O Refúgio’ é baseado em história real?

Não é baseado em eventos específicos, mas contextualiza historicamente a pirataria no Caribe do século XIX. O filme retrata piratas como produtos do sistema colonial europeu — abordagem mais fiel à realidade histórica que as fantasiais rom Disney.

Para quem ‘O Refúgio’ é recomendado?

Para adultos que querem filmes de ação com peso narrativo e crítica social. Fãs de ‘John Wick’, thrillers de vingança e histórias que tratam violência com consequência vão aproveitar. Não é recomendado para quem busca aventura leve no estilo ‘Piratas do Caribe’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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