‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ resgatou o termo ‘Os Outros’ dos livros de George R.R. Martin — algo que ‘Game of Thrones’ evitou por causa de ‘Lost’. Analisamos por que essa fidelidade textual representa uma mudança de filosofia nas adaptações de Westeros.
Tem algo poeticamente irônico em O Cavaleiro dos Sete Reinos ser a série que finalmente faz justiça aos livros de George R.R. Martin. Ironia porque, durante oito temporadas, ‘Game of Thrones’ se tornou um fenômeno cultural tão grande que ofuscou a obra original — e agora, seu spin-off de menor escala está corrigindo as “liberdades criativas” que a mãe da franquia tomou. A mais recente? Resgatar o nome verdadeiro dos Caminhantes Brancos.
No primeiro episódio, Lyonel Baratheon — num momento de frustração vulgar enquanto tenta tratar os ferimentos de Dunk — solta uma imprecação que passaria despercebida por 99% dos espectadores: “Que Os Outros o carreguem”. Para quem só conhece Westeros pela HBO, isso soa como uma maldição genérica. Para leitores de Martin, é um momento que valida anos de espera: finalmente, na tela, os vilões gelados recebem seu nome original.
Por que “Os Outros” importa mais do que parece
Não é pedantismo de fã de livro. A diferença entre “White Walkers” e “The Others” revela algo sobre como cada obra enxerga seus antagonistas. O nome em inglês que a HBO adotou — White Walkers — é descritivo, literal, quase funcional. Você ouve e sabe o que são: figuras brancas que caminham. Mas “Os Outros” carrega uma carga semântica completamente diferente. Sugere algo alienígena, algo que não pertence a esta realidade, algo fundamentalmente outro. É um termo que inspira mistério e desconforto existencial, não apenas ameaça física.
George R.R. Martin construiu os Caminhantes como uma força cósmica, quase lovecraftiana em sua alienidade. A série, por questões práticas de produção e comunicação, reduziu isso a “monstros de gelo”. O nome é sintomo de uma abordagem maior: enquanto os livros tratam Os Outros como uma ameaça existencial cuja natureza permanece misteriosa, a HBO precisava torná-los compreensíveis para audiências mainstream. Daí a lenta transformação de força sobrenatural em “exército de zumbis de gelo com líder carismático”.
Quando Baratheon pronuncia “Os Outros” em O Cavaleiro dos Sete Reinos, mesmo que como xingamento, a série sinaliza algo importante: ela está falando a língua de Martin, não a língua da HBO. É uma declaração de princípios disfarçada de linha de diálogo.
A culpa é de ‘Lost’ — e isso é uma história fascinante
A razão pela qual ‘Game of Thrones’ mudou o nome não foi criativa, foi pragmática. Em 2011, quando a série estreou, ‘Lost’ ainda estava fresco na memória cultural — e seu grupo de antagonistas misteriosos também se chamava “The Others”. Os produtores temiam confusão de audiência, então optaram por “White Walkers”.
É irônico que uma série definida por sua complexidade narrativa tenha feito uma escolha tão… cautelosa por causa de outra série. Mas revela algo sobre como ‘Game of Thrones’ operava: sempre negociando entre fidelidade literária e acessibilidade televisiva. Na maior parte das vezes, a acessibilidade vencia. Os Stark tinham cachorros-lobo gigantes nos livros, mas na tela foram reduzidos a animais de estimação que desapareciam por conveniência de orçamento. A magia de Sangue de Corvo foi simplificada. E, claro, Os Outros viraram White Walkers.
Agora, em 2026, ‘Lost’ é relíquia de outra era. Ninguém confundiria Os Outros de Westeros com os sobreviventes da ilha. O timing permitiu que O Cavaleiro dos Sete Reinos corrigisse o registro sem medo — e essa correção simboliza algo maior sobre a abordagem do spin-off.
A armadura branca da Kingsguard: outra correção silenciosa
Não é apenas o nome dos Caminhantes que o spin-off resgatou. No segundo episódio, quando Ser Roland Crakehall e Ser Donnel de Duskendale aparecem, eles vestem armaduras brancas — exatamente como Martin descreve nos livros. Em ‘Game of Thrones’, a Kingsguard usava dourado, visualmente indistinguível de cavaleiros comuns. Outra simplificação visual que diluiu a singularidade do mundo.
A armadura branca não é estética. Nos livros, ela representa a pureza (simbólica, pelo menos) dos sete cavaleiros mais próximos do rei. Eles são juridicamente separados do resto da nobreza, não podem herdar terras, não podem casar, não podem ter laços familiares. A armadura branca é manifestação física desse isolamento sagrado. Quando ‘Game of Thrones’ os vestiu de dourado, perdeu-se essa camada de significado.
Ver O Cavaleiro dos Sete Reinos se importar com esse detalhe — assim como se importou em não tocar o tema musical de ‘Game of Thrones’ até o quarto episódio — indica uma filosofia diferente. Esta é uma série que quer ser fiel à ideia de Westeros, não apenas à sua imagem.
Por que essa fidelidade muda tudo
Há algo de revigorante em assistir uma obra que não está tentando “melhorar” o material original, mas sim compreendê-lo. ‘Game of Thrones’, especialmente em suas temporadas finais, tratou os livros como ponto de partida — algo a ser adaptado, condensado, “televisado”. O resultado foi um desfecho que, para muitos fãs, traiu o espírito da obra.
O Cavaleiro dos Sete Reinos parece ter aprendido com esse erro. A série entende que os detalhes que parecem menores — um nome, uma cor de armadura — são o tecido conjuntivo que faz um mundo parecer real. Westeros funciona porque Martin pensou em tudo, desde economia até sistemas jurídicos, desde culinária até xingamentos regionais. Quando uma adaptação ignora esses detalhes, não está apenas mudando cosméticos; está erodindo a fundação que sustenta a credibilidade do universo.
A referência a “Os Outros” é um momento de três segundos que 90% dos espectadores não perceberá. Mas para aqueles que percebem, envia uma mensagem: esta série foi feita por pessoas que leem, que se importam, que entendem que a magia de Westeros está na sua densidade textual. E isso, para um fã de longa data, é mais significativo do que qualquer batalha de dragões.
Se ‘A Casa do Dragão’ representa a HBO expandindo o universo para cima — mais grandiosidade, mais escala, mais orçamento — O Cavaleiro dos Sete Reinos representa algo mais interessante: uma expansão para dentro. Menos espetáculo, mais textura. Menos “o que acontece depois”, mais “como este mundo realmente funciona”. E se essa abordagem continuar, talvez finalmente tenhamos a adaptação que os livros sempre mereceram.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’
Qual a diferença entre Os Outros e Caminhantes Brancos?
“Os Outros” é o nome original nos livros de George R.R. Martin, carregando conotação de alienidade e mistério existencial. “Caminhantes Brancos” (White Walkers) foi criado pela HBO para evitar confusão com “The Others” de ‘Lost’ em 2011.
Por que Game of Thrones mudou o nome dos Caminhantes?
Em 2011, quando ‘Game of Thrones’ estreou, a série ‘Lost’ ainda estava recente na memória do público — e seus antagonistas também se chamavam “The Others”. Os produtores temiam confusão de audiência e optaram por “White Walkers”.
O Cavaleiro dos Sete Reinos é fiel aos livros?
Sim, mais do que ‘Game of Thrones’. A série usa o termo “Os Outros”, mantém armaduras brancas na Kingsguard (como nos livros) e evita o tema musical de GOT até o quarto episódio — sinalizando uma abordagem focada em textura e fidelidade textual.
Onde assistir O Cavaleiro dos Sete Reinos?
A série está disponível exclusivamente na HBO Max (Max), sendo uma produção original da plataforma. Os episódios são lançados semanalmente.
Precisa ver Game of Thrones antes de O Cavaleiro dos Sete Reinos?
Não necessariamente. A história se passa cerca de 100 anos antes de ‘Game of Thrones’ e funciona de forma independente. Conhecer o universo ajuda a perceber referências, mas não é obrigatório.

