Sydney Sweeney como Kim Novak: o paralelo com Scarlett Johansson

Ao viver Kim Novak em ‘Escândalo’, Sydney Sweeney traça caminho similar ao de Scarlett Johansson em ‘Hitchcock’. Analisamos o paralelo entre as duas carreiras e o que ambas revelam sobre o tratamento de Hollywood com suas musas loiras — de Grace Kelly a Tippi Hedren.

Quando Scarlett Johansson entrou no set de ‘Hitchcock’ em 2012 para viver Janet Leigh, havia algo irônico na escolha: uma “loira de Hitchcock” moderna interpretando a original. Quatorze anos depois, Sydney Sweeney repete o movimento — vai encarnar Kim Novak em ‘Escândalo’, e o paralelo é impossível de ignorar. Sydney Sweeney Kim Novak não é apenas uma frase de elenco; é um espelhamento de carreiras que diz muito sobre como Hollywood trata suas musas loiras.

A conexão entre as duas atrizes vai além da coincidência de interpretarem mulheres que trabalharam com Alfred Hitchcock. Tanto Sweeney quanto Johansson carregam o peso de terem sido, em determinado momento de suas carreiras, reduzidas a símbolos sexuais antes de serem levadas a sério como intérpretes. A diferença? Johansson já tinha consolidado sua transição quando aceitou o papel de Leigh. Sweeney está no meio desse processo.

Por que Sydney Sweeney como Kim Novak faz sentido — e gera preocupações

Por que Sydney Sweeney como Kim Novak faz sentido — e gera preocupações

Kim Novak não era apenas uma “loira de Hitchcock” — era uma atriz que lutou contra o rótulo durante toda sua carreira. Seu trabalho em ‘Um Corpo Que Cai’ (1958) é frequentemente lembrado pela beleza gelada e pelo mistério que Hitchcock orquestrou, mas quem assiste com atenção percebe algo que o diretor raramente permitia: uma performance com fôlego dramático real. A cena em que Novak mergulha na água fria, emergindo com o rosto contorcido de dor e determinação, é um momento de atuação pura que o próprio Hitchcock tentou sufocar com seu controle absoluto.

A ironia do casting de Sweeney é que ela própria tem sido vítima do mesmo tipo de reducionismo. Após ‘Euphoria’ e ‘A Empregada’, a conversa sobre seu trabalho frequentemente orbita em torno de sua aparência física — exatamente o que Novak enfrentou quando foi empurrada para o estrelato nos anos 1950. A diferença crucial é que Novak nunca conseguiu escapar completamente dessa armadilha; sua carreira declinou quando a indústria decidiu que ela “envelhecera” fora do padrão de musa.

Não é surpresa que a própria Kim Novak, hoje com 91 anos, tenha expressado preocupação sobre como será retratada. Ela conhece de perto o mecanismo de Hollywood: transforma mulheres em ícones para depois descartá-las.

O que Scarlett Johansson ensina — e onde o paralelo encontra seu limite

Em ‘Hitchcock’, Scarlett Johansson teve a tarefa de encarnar Janet Leigh durante as filmagens de ‘Psicose’. O filme de Sacha Gervasi é medíocre — uma biografia que adiciona pouco ao que já sabemos sobre a produção do clássico — mas Johansson brilha precisamente porque entende o que Leigh representava. Não a reduz a “a mulher do chuveiro”; captura uma profissional que sabia que estava participando de algo maior que si mesma.

Há uma cena específica que ilustra isso: Johansson assiste ao teste de tela de sua própria morte, e a expressão dela mistura fascinação e terror. É um momento sutil que diz muito sobre a relação entre atriz e personagem. Sweeney faria bem em estudar essa abordagem — não para copiar, mas para entender que o desafio não é “parecer” Kim Novak, mas compreender o que significava ser Kim Novak em 1958.

Mas o paralelo tem seu limite. Janet Leigh era uma coadjuvante que se tornou imortal por uma cena de três minutos. Kim Novak era uma protagonista que carregou um filme inteiro nas costas — e cujo romance interracial com Sammy Davis Jr. abalou a América segregada dos anos 50. O peso dramático é incomparavelmente maior.

A oportunidade que ‘Escândalo’ tem — e que ‘Hitchcock’ desperdiçou

A oportunidade que 'Escândalo' tem — e que 'Hitchcock' desperdiçou

O filme de 2012 sobre o Mestre do Suspense tinha uma premissa fascinante: mostrar o processo criativo de um gênio. O problema é que se contentou com o óbvio — cenas de reconstituição que qualquer fã de cinema já conhece de cor. ‘Escândalo’, por outro lado, tem material explosivo que vai muito além de “como foi feito ‘Um Corpo Que Cai'”.

A relação entre Kim Novak e Sammy Davis Jr. não era apenas um escândalo de tabloide — era uma afronta direta à estrutura racial da América. Quando o casamento dos dois foi impedido por pressão de estúdios e ameaças de morte, não foi apenas um drama pessoal; foi um episódio que expôs a hipocrisia de uma indústria que lucra com a imagem de liberdade enquanto mantém seus artistas em correntes invisíveis.

Colman Domingo, que dirige e estrela como Sammy Davis Jr., traz credenciais impecáveis para essa história. Seu trabalho em ‘Rustin’ (2023) demonstrou que ele entende como contar histórias de figuras históricas sem cair na hagiografia. Se ‘Escândalo’ evitar o erro de ‘Hitchcock’ — romantizar o passado em vez de dissecá-lo —, pode ser algo significativo.

O legado das “loiras de Hitchcock” e o peso que carregam

Hitchcock criou um arquétipo: a mulher loira, elegante, aparentemente fria, que esconde segredos mortais ou se torna vítima de violência estilizada. Grace Kelly, Janet Leigh, Tippi Hedren, Kim Novak — todas foram moldadas por essa visão, e todas pagaram um preço por isso. Kelly fugiu para se tornar princesa. Leigh ficou eternamente associada a um chuveiro. Hedren denunciou abusos décadas depois. Novak recuou para uma vida isolada.

O que Sydney Sweeney representa nesse contexto é uma versão atualizada do mesmo fenômeno. A diferença é que ela opera em uma era onde atrizes têm mais voz — e onde o público está mais consciente das dinâmicas de poder em Hollywood. Interpretar Kim Novak não é apenas interpretar uma mulher; é interpretar uma mulher que foi consumida por uma máquina que Sweeney conhece de dentro.

A questão que ‘Escândalo’ precisa responder não é “como Kim Novak era?” — isso qualquer arquivo de estúdio revela. A pergunta real é: por que Hollywood ainda produz Kim Novaks em 2026? E o que acontece com elas quando a luz dos holofotes se apaga?

O veredito: promessa e risco em medida igual

Se Sydney Sweeney conseguir canalizar algo da complexidade que Kim Novak trouxe para ‘Um Corpo Que Cai’ — aquela mistura de vulnerabilidade e força que Hitchcock tentou controlar mas não conseguiu totalmente —, teremos algo especial. Se o filme cair na tentação de transformar Novak em mais uma “musa trágica”, será apenas mais uma camada de exploração sobre uma mulher que já foi explorada suficiente.

Scarlett Johansson provou em ‘Hitchcock’ que uma atriz moderna pode fazer justiça a uma “loira de Hitchcock” sem reduzi-la a caricatura. Mas Johansson tinha um roteiro funcional e um papel relativamente simples. Sweeney tem um desafio maior: dar voz a uma mulher cuja história foi contada por outros durante décadas. Se ela conseguir, não estará apenas repetindo o que Johansson fez — estará superando.

Para quem acompanha a carreira de Sweeney, ‘Escândalo’ é um teste decisivo. Ela tem o talento para isso — ‘The White Lotus’ e ‘Reality’ provaram que vai muito além do que seus papéis mais comentados sugerem. Mas talento não basta quando o material é fraco. Resta saber se Domingo e sua equipe entregarão um filme à altura da mulher que estão retratando.

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Perguntas Frequentes sobre Sydney Sweeney e Kim Novak

Quem foi Kim Novak e qual sua importância no cinema?

Kim Novak foi uma atriz americana que se tornou símbolo dos anos 1950, principalmente por seu papel em ‘Um Corpo Que Cai’ (1958) de Alfred Hitchcock. Diferente de outras “loiras de Hitchcock”, ela trouxe profundidade dramática que o diretor raramente permitia, e sua vida pessoal — incluindo o romance proibido com Sammy Davis Jr. — expôs as hipocrisias de Hollywood.

Qual filme Kim Novak fez com Alfred Hitchcock?

Kim Novak estrelou ‘Um Corpo Que Cai’ (1958), ao lado de James Stewart. O filme é considerado uma das obras-primas de Hitchcock, com Novak interpretando dois papéis: Madeleine Elster e Judy Barton. Sua performance é lembrada pela combinação de mistério e vulnerabilidade.

Quando estreia ‘Escândalo’ com Sydney Sweeney?

‘Escândalo’ ainda não tem data de estreia confirmada. O filme está em produção, dirigido e estrelado por Colman Domingo como Sammy Davis Jr., com Sydney Sweeney interpretando Kim Novak.

Sydney Sweeney já interpretou personagens reais antes?

Sim. Sydney Sweeney interpretou a denunciante Reality Winner em ‘Reality’ (2023), filme baseado em fatos reais que demonstrou sua capacidade de carregar um drama intimista. A performance foi elogiada pela crítica e mostrou que a atriz vai além dos papéis que a tornaram famosa em ‘Euphoria’.

Quem mais está no elenco de ‘Escândalo’?

O elenco confirmado inclui Colman Domingo como Sammy Davis Jr. e Sydney Sweeney como Kim Novak. Domingo também dirige o filme. Outros membros do elenco ainda não foram anunciados oficialmente.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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