Gen Z exige o fim do ‘herói isolado’ e transforma a masculinidade no cinema

Um estudo da UCLA com 1.500 jovens revela que 60% da Geração Z rejeita o “herói isolado” e quer ver mais homens vulneráveis e pais afetivos nas telas. Analisamos por que essa transformação da masculinidade no cinema é vantajosa para a narrativa — não apenas para a sociedade.

Em 2011, Ryan Gosling dirigiu silenciosamente pelas ruas de Los Angeles em ‘Drive’, e o cinema celebrou. O personagem — sem nome, sem passado, emocionalmente hermético — era a personificação perfeita do “herói isolado”: aquele arquétipo que Hollywood construiu ao longo de um século. Quinze anos depois, um estudo do Center for Scholars & Storytellers da UCLA revela algo que eu já sentia nas salas de cinema: a Geração Z não quer mais saber desse cara. E, francamente, eu entendo perfeitamente por quê.

A pesquisa liderada por Yalda Uhls — professora do departamento de psicologia da UCLA e fundadora do centro que estuda como mídia molda valores desde 1999 — ouviu 1.500 jovens entre 10 e 24 anos. Os números são categóricos: quase 60% querem ver mais pais afetivos e emocionalmente presentes nas telas. Quase metade quer ver homens pedindo ajuda — inclusive para saúde mental. O que estamos testemunhando não é apenas uma mudança de preferência estética. É uma rejeição cultural de um modelo de masculinidade no cinema que, convenhamos, já deu o que tinha que dar.

O “herói isolado” morreu — e a Geração Z foi quem enterrou

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Uhls sintetizou assim: “Para as audiências jovens de hoje, o herói mais convincente não é aquele que está sozinho, mas aquele que tem coragem de estar presente”. Eu li isso e pensei: claro. Faz todo o sentido. O problema é que Hollywood passou 100 anos nos ensinando o oposto.

Pegue ‘Drive’, por exemplo. Eu amo esse filme — a direção de Nicolas Winding Refn é impecável, a trilha sonora synth-driven criou uma estética que influenciou uma década. Mas vamos ser honestos: o Driver é emocionalmente incapaz de conexão genuína. Ele protege, sim, mas de uma forma que beira o paternalismo. Ele não cresce, não se abre, não evolui. Para a Geração Z, criada em uma cultura que valoriza saúde mental e vulnerabilidade, isso não é “cool” — é um problema.

O estudo chama isso de rejeição à “hipermasculinidade”, mas eu iria mais longe: é uma rejeição à masculinidade como performance. O herói isolado não é forte de verdade — ele está performando força. E jovens hoje, bombardeados com conteúdo sobre autenticidade e bem-estar emocional, enxergam isso com uma clareza que gerações anteriores não tinham.

Paternidade afetiva: o novo ideal masculino que o cinema ignorou por décadas

O dado mais revelador do estudo é também o mais simples: “paternidade alegre” emergiu como a representação de masculinidade mais desejada. Jovens querem ver pais expressando amor abertamente, encontrando prazer em criar filhos, sendo — palavra que Hollywood costumava evitar como praga — afetivos.

Pense nos pais do cinema clássico. Marlon Brando em ‘O Poderoso Chefão’? Amor paterno expresso através de violência e controle. Os pais de Spielberg geralmente ausentes ou emocionalmente distantes até o terceiro ato. Até mesmo figuras mais recentes — Bryan Cranston em ‘Godzilla’, por exemplo — frequentemente sacrificam a paternidade no altar do heroísmo tradicional.

A exceção que confirma a regra? Tony Soprano. Sim, ele é um gangster violento e moralmente corrupto. Mas ‘Família Soprano’ fez algo que poucas obras ousaram: mostrou um homem poderoso desesperado por conexão emocional, em terapia, lutando com depressão, tentando — falhando, mas tentando — ser um pai presente. A série foi revolucionária exatamente porque expôs a masculinidade tradicional como uma gaiola dourada. A Geração Z está olhando para essa gaiola e dizendo: “não, obrigado”.

Por que heróis vulneráveis fazem filmes melhores

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Eu sei que parte da crítica vai reagir a isso como mais uma “concessão ao politicamente correto”. Mas aqui está a coisa: do ponto de vista puramente narrativo, o herói isolado é um beco sem saída. Personagens que não se conectam, não crescem, não se vulnerabilizam têm um teto dramático baixíssimo.

Compare dois filmes de Denis Villeneuve: ‘Prisoners’ e ‘Duna’. No primeiro, Hugh Jackman interpreta um pai que, diante do sequestro da filha, recorre à tortura. É uma performance de masculinidade tradicional — força bruta como resposta ao trauma. O filme é excelente, mas o personagem é tragicamente limitado. Em ‘Duna’, Paul Atreides herda um legado de violência, mas a narrativa constantemente questiona esse legado. A vulnerabilidade de Paul — seus medos, suas dúvidas — é o que torna a jornada interessante.

O ponto não é eliminar força, coragem ou estoicismo do repertório masculino. O ponto é que personagens que têm acesso a todo o espectro emocional são simplesmente mais interessantes. E a Geração Z, criada em uma cultura de terapia, meditação e conversas sobre saúde mental, reconhece isso intuitivamente.

Hollywood já está mudando — mas devagar demais

O estudo da UCLA não é apenas um retrato de preferências. É um aviso. Os autores mencionam que suas recomendações já estão influenciando salas de roteiristas — o que é um começo, mas não suficiente.

A mudança é visível, mas lenta. ‘Whiplash’ (2014) ainda celebrava a masculinidade tóxica como virtude necessária. ‘Moonlight’ (2016) mostrou o contrário — e ganhou o Oscar. ‘Oppenheimer’ (2023) deu a Nolan seu maior sucesso exatamente centrando um “herói” que é, fundamentalmente, um homem intelectual e emocionalmente complexo, não um action hero.

Na TV, a transformação é mais avançada. Em ‘The Bear’, Carmy Berzatto — interpretado por Jeremy Allen White — é um chef de alta gastronomia que tem ataques de pânico, chora na cozinha, e luta abertamente com o luto pelo irmão. A série foi um fenômeno de audiência exatamente porque essa vulnerabilidade não é fraqueza — é o que torna o personagem real. Em ‘The Last of Us’, Pedro Pascal interpreta Joel como um homem que construiu muros emocionais, mas cujo arco inteiro é sobre a coragem de se abrir novamente para o amor paterno. Ambas as séries foram sucessos massivos com a Geração Z.

A mensagem para estúdios é clara: o público jovem não está pedindo menos masculinidade — está pedindo mais humanidade. Homens que choram, homens que pedem ajuda, homens que são pais presentes e parceiros emocionais não são “menos homens”. São, na verdade, personagens com mais potencial narrativo.

Para a Geração Z, o herói que enfrenta o mundo sozinho não é inspirador — é triste. E eles têm razão. Cinema sempre refletiu os valores de sua época. Se os valores mudaram, é a arte que precisa acompanhar — não o público que precisa se adaptar a fórmulas envelhecidas.

No fim das contas, isso não é sobre “censurar” o herói isolado. É sobre reconhecer que ele dominou a tela por um século, e talvez seja hora de dar espaço para outras formas de ser homem. A Geração Z está votando com seus olhos e seu tempo. Hollywood faria bem em ouvir.

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Perguntas Frequentes sobre masculinidade no cinema

O que é hipermasculinidade no cinema?

Hipermasculinidade é a exageração de traços estereotipicamente masculinos — agressividade, estoicismo emocional, rejeição de qualquer comportamento percebido como “feminino”. No cinema, manifesta-se em personagens que nunca choram, resolvem conflitos com violência e evitam conexões emocionais profundas.

Quais filmes e séries mostram masculinidade vulnerável?

Além de ‘Moonlight’ (2016) e ‘Oppenheimer’ (2023), ‘The Bear’ mostra um chef com ataques de pânico, ‘The Last of Us’ apresenta um pai aprendendo a se abrir emocionalmente, e ‘Manchester à Beira-Mar’ (2016) retrata um homem lidando com luto de forma visceral. ‘Família Soprano’ foi pioneira ao mostrar um gangster em terapia.

Quem é Yalda Uhls, autora do estudo da UCLA?

Yalda Uhls é professora do departamento de psicologia da UCLA e fundadora do Center for Scholars & Storytellers, centro que estuda como mídia influencia desenvolvimento infantil desde 1999. Ela é autora do livro “Media and the Developing Child” e atua como consultora para estúdios de Hollywood sobre representação em conteúdo jovem.

A Geração Z rejeita filmes de ação e heróis tradicionais?

Não exatamente. O estudo indica que a Geração Z não rejeita força ou coragem — rejeita a ausência de outras dimensões emocionais. Filmes como ‘Duna’ e ‘Top Gun: Maverick’ foram sucessos com esse público justamente porque combinam ação com personagens que têm vulnerabilidade e conexões emocionais genuínas.

Por que ‘Drive’ (2011) é exemplo de herói isolado?

Em ‘Drive’, Ryan Gosling interpreta um personagem sem nome, sem passado revelado, que comunica-se quase exclusivamente através de ações. Ele protege a mulher e o filho dela de forma paternalista, mas nunca se abre emocionalmente. O filme funciona como thriller visual, mas o protagonista é deliberadamente hermético — exatamente o tipo de arquétipo que o estudo da UCLA identificou como rejeitado pela Geração Z.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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