Em ‘O Refúgio’, o diretor Frank E. Flowers traduz táticas de operações especiais para piratas do século XIX. Analisamos como a influência de ‘Resgate’ criou um híbrido curioso entre ação moderna e aventura histórica no Prime Video.
Piratas e operações táticas. À primeira vista, parecem universos opostos — um remete a velas, sabres e aventura romântica; o outro, a equipes de elite, comunicação por rádio e precisão cirúrgica. Mas foi exatamente essa fusão que ‘O Refúgio’ buscou, e o resultado é um dos experimentos mais curiosos do cinema de ação recente no streaming.
O diretor Frank E. Flowers passou duas décadas longe da cadeira de direção — seu último filme foi ‘Identificação’, thriller criminoso com Orlando Bloom em 2004. No meio tempo, construiu carreira roteirizando dramas como ‘Metro Manila’ e biopics como ‘Bob Marley: One Love’. Voltar a dirigir um filme de ação no século XIX exigia uma pergunta fundamental: como fazer piratas parecerem ameaçadores para uma audiência acostumada a heróis de operações especiais?
A resposta veio de Chris Hemsworth e dos irmãos Russo
Os mesmos produtores de ‘Resgate’ — a franquia de mercenários de elite estrelada por Hemsworth — estavam envolvidos em ‘O Refúgio’. Flowers não desperdiçou a oportunidade. Estudou a textura daquelas produções: a forma como a violência é encenada com brutalidade eficiente, como as equipes se comunicam com código e disciplina, como cada movimento tem peso físico.
“Piratas geralmente são mostrados como aventureiros, aquele estilo ‘swashbuckling’ de filmes clássicos”, explicou Flowers em entrevista. “Eu queria transformá-los em uma força de ataque. Uma strike force.” A decisão não é apenas estética — muda completamente a dinâmica de tensão. Quando os vilões se movem como unidade militar coordenada, a ameaça se torna organizada, calculada, implacável.
O elemento mais genial dessa adaptação é o sistema de comunicação. Em ‘Resgate’, os mercenários usam rádios para coordenar posições. Em 1800, isso não existe. Solução? Os piratas de ‘O Refúgio’ desenvolveram um código de assobios e estalos — simples, historicamente plausível, e assustadoramente eficaz. É o tipo de detalhe que separa pastiche de inspiração genuinamente integrada. Quando os assobios ecoam na trilha sonora antes de um ataque, o filme cria uma antevisão sonora que funciona como relógio regressivo.
De ‘The Professional’ a ‘New Jack City’: o swagger dos anos 90 transplantado
Ao citar ‘The Professional’ (1994) e ‘New Jack City: A Gangue Brutal’ (1991) como referências, Flowers revela outra ambição: não queria apenas ação moderna, queria atitude. Aquele “swagger” dos filmes dos anos 90 — personagens com presença magnética, vilões que ocupam a tela com confiança — foi transplantado para o Caribe do século XIX.
Karl Urban, que o público conhece como o irreverente Billy Butcher em ‘The Boys’, encarna o Capitão Connor com essa mentalidade. Não é o pirata caricato que ri com “argh” — é um comandante de operações que mata com precisão militar. A diferença sutil mas crucial: ele não quer tesouro, quer cumprir missão. A mentalidade de mercenário moderno aplicada a contexto histórico. Urban carrega o personagem com aquele cansaço de quem já viu demais — há algo de cansaço existencial no olhar de Connor que o torna mais crível do que qualquer vilão de ‘Piratas do Caribe’.
Priyanka Chopra Jonas e as armas improvisadas que funcionam
O compromisso com autenticidade vai além da estética de ação. Priyanka Chopra Jonas, que interpreta a protagonista Ercell Bodden, viajou às Ilhas Cayman para conversar com descendentes de piratas reais. Os anciãos locais compartilharam técnicas de sobrevivência — como trançar cordas, como usar conchas como ferramentas — que foram transformadas em armas no filme.
Há algo particularmente satisfatório em ver uma personagem usar conhecimento prático como arma. Quando Ercell mata um pirata com uma concha, não é exibicionismo gratuito — é sobrevivência transformada em violência. A cena funciona porque o filme estabeleceu previamente que ela conhece aquele ambiente melhor que os invasores. A montagem de Pablo Propp, que também editou ‘Resgate 2’, mantém essas sequências de combate legíveis — cada golpe tem espaço para ser entendido, o que raramente acontece em filmes de ação contemporâneos.
Flowers também pesquisou armas do período com obsessão histórica. O revólver de 20 tiros que Connor carrega? Arma real da época. “Parece absurdo pensar em um revólver de 20 tiros no século XIX”, admite o diretor, “mas existiu.” O detalhe importa porque comunica ao público: este não é um filme que inventa regras por conveniência — é um filme que pesquisa a realidade e a intensifica.
Um híbrido que justifica sua existência
‘O Refúgio’ não é perfeito. O ritmo em alguns momentos arrasta, e a premissa de “mulher com passado secreto precisa proteger família” é terreno conhecido demais. Mas onde o filme acerta — e acerta com força — é naquilo que se propõe: modernizar o filme de piratas sem trair o período.
A influência de ‘Resgate’ não é copy-paste — é tradução. Flowers entendeu que o que torna aqueles filmes eficazes não é o rádio ou o equipamento tático, mas a sensação de competência letal, de inimigos que funcionam como unidade coordenada. Ao transplantar essa lógica para o século XIX, criou algo que se sente fresco em um gênero que andava estagnado desde ‘Piratas do Caribe’.
Para quem busca ação inteligente no Prime Video, vale o teste: se você consegue aceitar piratas que se comportam como equipe de operações especiais, ‘O Refúgio’ entrega exatamente isso — com a vantagem de ter Priyanka Chopra Jonas e Karl Urban comprometidos com material que poderia facilmente descarrilar para o ridículo. Não acontece. E isso já é conquista suficiente.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Refúgio’
Onde assistir ‘O Refúgio’?
‘O Refúgio’ está disponível exclusivamente no Prime Video desde fevereiro de 2026. É uma produção original da Amazon MGM Studios.
Precisa ter visto ‘Resgate’ para entender ‘O Refúgio’?
Não. São filmes completamente independentes. A influência de ‘Resgate’ é estética e de linguagem de ação — não há conexão de enredo ou personagens entre as produções.
‘O Refúgio’ é baseado em história real?
Não. O filme é ficção, mas incorporou pesquisa histórica real — incluindo armas do período e técnicas de sobrevivência aprendidas com descendentes de piratas nas Ilhas Cayman.
Quem são os atores principais de ‘O Refúgio’?
O filme estrela Priyanka Chopra Jonas como Ercell Bodden e Karl Urban como o Capitão Connor. Urban é conhecido por ‘The Boys’ e a franquia ‘Star Trek’; Chopra Jonas por ‘Quantico’ e ‘Matrix Resurrections’.
Qual é a classificação indicativa de ‘O Refúgio’?
O filme é classificado como 16 anos por conter violência intensa, algumas cenas de sangue e linguagem forte. Não é recomendado para público infantil.

