O que ’56 Dias’ ensina sobre o thriller erótico esquecido de Sydney Sweeney

O sucesso de ’56 Dias’ no Prime Video reacende o debate sobre ‘Observadores’, thriller erótico de 2021 com Sydney Sweeney que foi mal recebido. Analisamos por que o filme merece uma segunda chance — e onde seu final errou o tom que custou sua reputação.

Quando ’56 Dias’ chegou ao topo do ranking do Prime Video no último fim de semana, pouca gente percebeu que aquele não era o primeiro mergulho do streaming no thriller erótico. Antes da série com Oliver e Ciara e seus segredos obscuros, existiu ‘Observadores’ — um filme de 2021 estrelado por Sydney Sweeney que deveria inaugurar uma linha de produções para “encontros noturnos”, mas que acabou engavetado após recepção morna. Agora, o sucesso do novo lançamento oferece uma oportunidade de reavaliar aquele que foi, injustamente, esquecido.

O gênero thriller erótico vive um momento curioso. Por um lado, o público demonstra interesse consistente: ’56 Dias’ conquistou 78% de aprovação do público no Rotten Tomatoes, contra apenas 61% da crítica. Por outro, os críticos parecem resistir a produções que misturam sexo e suspense desde os anos 90. ‘Observadores’ foi vítima desse preconceito — mas também de escolhas narrativas questionáveis que merecem exame.

O que ‘Observadores’ herdou de Hitchcock — e onde errou o passo

O que 'Observadores' herdou de Hitchcock — e onde errou o passo

Dirigido por Michael Mohan, o mesmo cineasta que mais tarde conduziria Sweeney ao horror religioso de ‘Imaculada’, ‘Observadores’ é essencialmente um spin adulto de ‘Janela Indiscreta’. A premissa é simples e eficiente: Pippa (Sweeney) e Thomas (Justice Smith) são um jovem casal que se muda para um apartamento cujas paredes são, literalmente, de vidro. Do outro lado do pátio, um vizinho misterioso e sua esposa bonita se tornam objetos de curiosidade mórbida. O casal começa a espioná-los. Coisas dão errado.

A estrutura funciona. Mohan entende que o prazer do voyeurismo cinematográfico está na tensão entre querer olhar e saber que não deveria. Há uma sequência específica — Pippa ajustando os binóculos enquanto Thomas hesita ao lado — que captura essa dinâmica com exatidão. A câmera se aproxima do rosto de Sweeney, seus olhos se arregalam, e por um momento você esquece que está assistindo a um thriller. Está espionando junto com ela.

O problema surge quando o filme decide que precisa ser mais do que um exercício de tensão hitchcockiano. O terceiro ato introduz um twist brutal, sombrio, deliberadamente desagradável. Não vou estragar aqui para quem ainda não viu, mas basta dizer que o filme opta por um final que parece mais interessado em chocar do que em respeitar a jornada que construiu até ali.

Por que o final de ‘Observadores’ alienou seu público

O final de ‘Observadores’ não é ruim porque é triste. É ruim porque é gratuito. Quando David Fincher encerrou ‘Seven – Os Sete Crimes Capitais’ com aquele desfecho devastador, cada frame anterior havia preparado o terreno. A escuridão fazia parte do DNA da obra desde a primeira cena.

‘Observadores’, em contraste, brinca com o público por 90 minutos. É um filme que flerta com o camp, que tem prazer em sua própria absurdidade, que parece saber exatamente que tipo de entretenimento está oferecendo. E então, nos últimos 15 minutos, decide que quer ser algo completamente diferente. O resultado é uma dissonância: você sai não chocada, mas confusa sobre o que o filme achava que estava fazendo.

Comparado com ‘Objetos Cortantes’ — a minissérie da HBO que consolidou Sweeney como força dramática séria — ‘Observadores’ carece do peso temático para sustentar seu final sombrio. Não há gravitas suficiente nas duas horas anteriores para justificar o tom de desesperança que o filme abraça. É como se uma comédia romântica terminasse com um suicídio: tecnicamente possível, artisticamente incoerente.

O que ’56 Dias’ aprendeu com o erro do antecessor

O sucesso de ’56 Dias’ não é acidental. A produção estudou o que funcionou e o que fracassou em ‘Observadores’ e tomou decisões deliberadas. A mais significativa: mudou o final do livro de Catherine Ryan Howard para oferecer ao público algo que o filme de Sweeney negou — uma luz no fim do túnel.

Isso não significa que ’56 Dias’ seja otimista ou leve. A série começa com um corpo em decomposição em um apartamento luxuoso. A tensão sobre a identidade do cadáver — Oliver? Ciara? Outra pessoa? — sustenta a narrativa. Mas a produção entende que há uma diferença entre desconforto produtivo e punição gratuita ao espectador.

Os clássicos do thriller erótico dos anos 90 que ’56 Dias’ homenageia — ‘Instinto Selvagem’, ‘Invasão de Privacidade’, ‘Relação Indecente’ — sabiam equilibrar sombra e luz. Mesmo ‘Instinto Selvagem’, com seu final ambíguo, deixava espaço para interpretação. ‘Observadores’ escolheu o caminho oposto, e pagou o preço.

A carreira de Sydney Sweeney e o peso das expectativas

É impossível discutir ‘Observadores’ sem considerar o momento da carreira de Sweeney quando o filme foi lançado. 2021 foi o ano em que ela explodiu com ‘Euphoria’ e ‘White Lotus’. O público esperava que tudo o que ela tocasse virasse ouro. Quando ‘Observadores’ chegou com 45% de aprovação tanto da crítica quanto do público, a decepção amplificou as falhas do filme.

Curiosamente, foi apenas em 2025 que Sweeney retornou ao thriller psicológico com ‘A Empregada’, adaptação campy do bestseller de Freida McFadden. O filme funcionou melhor — em parte porque abraçou seu lado melodramático sem pedir para ser levado a sério demais, em parte porque Sweeney aprendeu a calibrar suas escolhas de projeto.

A colaboração com Mohan continuou com ‘Imaculada’, filme de horror sobre freiras possuídas que, ironicamente, acertou onde ‘Observadores’ errou. A diferença? ‘Imaculada’ construiu terror consistente do início ao fim. Quando o final brutal chegou, ele parecia inevitável, não imposto.

Por que ‘Observadores’ merece uma segunda chance

‘Observadores’ está longe de ser o desastre que seus 45% no Rotten Tomatoes sugerem. As atuações centrais são sólidas — Sweeney e Smith têm química genuína, e há momentos em que o roteiro permite que eles brilhem além do material. A fotografia de Egor Povolotsky aproveita bem o cenário de Montreal, criando uma sensação de isolamento mesmo em meio a uma cidade populosa. Os tons frios e a luz natural que invade o apartamento de vidro funcionam como metáfora visual para a exposição constante dos personagens.

O maior mérito do filme é sua imprevisibilidade genuína. Em uma era onde trailers revelam terços inteiros de filmes, ‘Observadores’ guarda segredos reais. O problema é que um desses segredos, quando revelado, ressoa como um golpe baixo.

Para fãs do gênero, vale o investimento. Se você consegue separar o final do resto da experiência — ou se prefere filmes que tomam riscos mesmo quando eles falham — há muito a apreciar. A sequência em que Pippa percebe que talvez tenha cometido um erro irreparável ao investigar o vizinho é tensão construída frame a frame, com o som ambiente de Montreal desaparecendo enquanto a trilha de Antonio Gambale cresce.

‘Observadores’ é um filme frustrante exatamente porque tinha potencial para ser memorável. Não é ruim o suficiente para ser esquecido, nem bom o suficiente para ser celebrado. Fica em um limbo — aquele espaço ocupado por filmes que tentaram algo ambicioso e tropeçaram na própria ambição.

O sucesso de ’56 Dias’ prova que o público tem interesse por thrillers eróticos bem executados. Prova também que o tom importa tanto quanto o conteúdo. ‘Observadores’ pode ter falhado em calibrar esse tom, mas suas ambições merecem respeito. Em um cenário cinematográfico cada vez mais dominado por produtos seguros e testados em grupos focais, um filme que arrisca — e erra — ainda tem mais valor do que uma produção que nem tenta.

Se você assistiu a ’56 Dias’ e ficou curioso sobre o que veio antes, dê uma chance a ‘Observadores’. Apenas prepare-se: o final vai te irritar. Às vezes, isso é melhor do que a indiferença que a maioria dos filmes deixa.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Observadores’

Onde assistir ‘Observadores’ com Sydney Sweeney?

‘Observadores’ está disponível na Amazon Prime Video desde 2021. O filme é um original da plataforma e não deve migrar para outros serviços.

‘Observadores’ é baseado em livro?

Não. ‘Observadores’ é um roteiro original escrito por Michael Mohan, que também dirigiu o filme. A história não é adaptação de nenhuma obra literária.

Qual é a classificação indicativa de ‘Observadores’?

O filme é classificado como R (menores de 17 anos acompanhados de adulto) nos EUA, e 16 anos no Brasil. Contém nudez, sexualidade e violência.

‘Observadores’ tem relação com ’56 Dias’?

Não são conectados narrativamente. A relação é de contexto: ambos são thrillers eróticos lançados pela Prime Video, e o sucesso de ’56 Dias’ motivou a reavaliação do filme anterior de Sweeney.

Quanto tempo dura ‘Observadores’?

O filme tem 1 hora e 35 minutos de duração. É uma produção enxuta que mantém o ritmo ágil até o terceiro ato.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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