‘Suits’: por que o original é imbatível e os spinoffs fracassaram

‘Suits’ voltou a dominar o streaming em 2023, mas seus spinoffs ‘Pearson’ e ‘Suits LA’ naufragaram. Explicamos por que o original funciona e o que os derivados erraram ao trocar essência por formato.

Em 2023, algo curioso aconteceu: uma série que havia terminado em 2019 se tornou um dos títulos mais assistidos nos Estados Unidos. Não era um lançamento novo, não tinha marketing agressivo, não estava em evidência cultural. Era simplesmente ‘Suits’ chegando ao Netflix e provando que sua fórmula — aquele equilíbrio preciso entre drama jurídico, humor afiado e química entre personagens — continuava funcionando anos depois do último episódio. Mas esse renascimento traz uma pergunta inevitável: se o original é tão forte assim, por que seus dois spinoffs naufragaram tão rápido?

Para entender isso, preciso voltar ao que faz ‘Suits’ funcionar. E não é a advocacia.

O segredo não está nos processos, está nas mesas de reunião

O segredo não está nos processos, está nas mesas de reunião

Quando ‘Suits’ estreou em 2011, no canal USA Network, a paisagem dos dramas jurídicos era dominada por dois extremos. De um lado, séries como ‘The Good Wife’ apostavam em realismo processual e intrincadas tramas políticas. Do outro, ‘How To Get Away With Murder’ transformava o sistema legal em um thriller de conspirações e assassinatos. ‘Suits’ se posicionou no meio — e encontrou um espaço que ninguém estava explorando.

A premissa é absurda se você pensar friamente: um jovem com memória fotográfica consegue um emprego em um dos maiores escritórios de advocacia de Nova York fingindo ser advogado. Qualquer série menor teria transformado isso em uma comédia pastelão ou um thriller de tensão constante. ‘Suits’ fez algo mais inteligente — usou a mentira como pano de fundo para explorar dinâmicas de poder, lealdade e ambição.

O que prende o espectador não é saber se Mike Ross vai ser descoberto. É assistir àqueles diálogos afiados entre Harvey Specter e quem quer que esteja do outro lado da mesa. A série entendeu algo fundamental: num ambiente corporativo de alto nível, as batalhas reais acontecem em salas de reunião, não em tribunais. E a forma como construiu essas cenas — com cortes rápidos, réplicas cortantes e uma tensão que cresce sem nunca explodir de forma melodramática — criou uma gramática própria.

Reassistindo em 2026, percebo o quanto essa estrutura envelheceu bem. Os episódios têm um ritmo que parece ter sido desenhado para streaming antes de streaming ser dominante. Não há filler. Cada cena serve para avançar trama ou aprofundar personagem. E a química entre Gabriel Macht (Harvey) e Patrick J. Adams (Mike) carrega arcos inteiros que, no papel, poderiam ser tediosos — basta ver a sequência em que Harvey descobre a verdade sobre Mike nos primeiros episódios, ou o arco da 2ª temporada em que a tensão entre lealdade e chantagem sustenta episódios inteiros.

‘Pearson’: quando mudar de tom significa perder o público

O primeiro spinoff, ‘Pearson’, parecia fazer sentido no papel. Jessica Pearson, interpretada por Gina Torres, era uma presença marcante em ‘Suits’ — uma personagem que carregava autoridade sem precisar levantar a voz, cujo silêncio pesava mais que os discursos de outros personagens. Dar a ela uma série própria soava como uma aposta segura.

O problema foi o que fizeram com ela.

Enquanto ‘Suits’ se passa no mundo brilhante e competitivo dos escritórios de advocacia corporativa de Manhattan, ‘Pearson’ mergulhou Jessica na política suja de Chicago. A troca de cenário trouxe uma mudança de tom radical: onde o original tinha charme e humor, o spinoff apostou em cinismo e dramaticidade pesada.

Não estou dizendo que séries mais sombrias não funcionam. Estou dizendo que o público de ‘Suits’ não estava procurando isso. Você chega em ‘Pearson’ esperando mais daqueles diálogos rápidos e confrontos inteligentes que faziam o original viciante. Em vez disso, recebe intriga política com ritmo lento e pouca daquela energia que fazia você querer maratonar episódios.

Gina Torres entrega o que pode. A atriz tem presença suficiente para carregar uma série sozinha. Mas o material não estava à altura — e o tom errado afastou tanto o público fiel de ‘Suits’ quanto novos espectadores que poderiam ter se interessado por um drama político independente. ‘Pearson’ foi cancelada após uma temporada, com audiência caindo episódio a episódio. A lição deveria ter sido clara: não basta ter personagens do universo original se você abandona o que faz esse universo funcionar.

‘Suits LA’: copiar a estrutura sem entender a essência

'Suits LA': copiar a estrutura sem entender a essência

Se ‘Pearson’ errou por mudar demais, ‘Suits LA’ errou por tentar copiar sem entender o que estava copiando.

Lançada após o fim da série original, a ideia era simples: transplantar a dinâmica de ‘Suits’ para Los Angeles, com novos personagens e o mesmo tipo de história. Stephen Amell, vindo do universo Arrow, assumiu o papel protagonista como Ted Black. Gabriel Macht fez aparições como Harvey Specter, tentando criar uma ponte entre os dois mundos.

Não funcionou.

O problema central é que ‘Suits’ nunca foi apenas sobre advogados em escritórios chiques. Era sobre um elenco específico com uma dinâmica específica. A relação Harvey-Mike, construída temporada a temporada através de confiança, traições e reconciliações. A química Harvey-Donna, que a série manteve em tensão não resolvida por anos sem perder o público. O jeito que Louis Litt equilibrava patetismo e competência, transformando um personagem que poderia ser caricatura em alguém por quem você torce.

Ver Harvey Specter aparecendo em ‘Suits LA’ só reforçava o que faltava. Cada cena com Macht lembrava o quanto a série original tinha algo que o spinoff não conseguia emular. E para novos espectadores sem conexão prévia com o universo, não havia razão para escolher ‘Suits LA’ em vez de simplesmente assistir ao original — que estava bombando no streaming.

A série foi cancelada rapidamente, provando que expandir uma franquia não é questão de marca, é questão de essência.

O legado de ‘Suits’: quando parar é a melhor decisão

O renascimento de ‘Suits’ em 2023 provou algo que executivos de TV frequentemente ignoram: o público reconhece autenticidade. A série funcionou porque tinha uma visão clara do que queria ser e executou essa visão com confiança. Não tentou ser tudo para todos. Apostou em diálogos inteligentes, personagens carismáticos e um tom que equilibrava leveza e consequência.

Os spinoffs falharam porque partiram de uma premissa errada: de que o sucesso de ‘Suits’ estava no formato, não no que o formato continha. ‘Pearson’ mudou o tom e perdeu o público. ‘Suits LA’ copiou a estrutura sem sem os elementos que a faziam funcionar.

Se a franquia vai voltar — e considerando os números do streaming, alguém vai tentar — o caminho não é criar novas séries com novos personagens no mesmo universo. É voltar ao que funciona. Um projeto limitado focado em Harvey e Donna, ou um especial de reunião com o elenco original, teria muito mais chances de sucesso do que qualquer tentativa de expandir horizontalmente.

O público de ‘Suits’ não está procurando mais do mesmo universo. Está procurando mais daquela dinâmica específica entre aqueles personagens específicos. E isso não se replica com novos atores em novos escritórios. Se replica voltando ao que já funcionou e respeitando o suficiente para não dilar.

Em 2026, ‘Suits’ permanece imbatível não porque foi perfeita, mas porque foi ela mesma do começo ao fim. Seus spinoffs falharam exatamente por não entenderem isso. Às vezes, o melhor legado de uma série é saber quando parar.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Suits’

Onde assistir ‘Suits’?

No Brasil, ‘Suits’ está disponível na Netflix e na Amazon Prime Video. A série completa (9 temporadas) pode ser assistida em ambas as plataformas.

Quantas temporadas tem ‘Suits’?

‘Suits’ tem 9 temporadas, totalizando 134 episódios. A série foi exibida de 2011 a 2019 no canal USA Network.

‘Suits’ tem spinoffs?

Sim, ‘Suits’ gerou dois spinoffs: ‘Pearson’ (2019), focada na personagem Jessica Pearson, e ‘Suits LA’ (2024), com novos personagens em Los Angeles. Ambos foram cancelados após poucos episódios.

Por que ‘Pearson’ foi cancelada?

‘Pearson’ foi cancelada após uma temporada por baixa audiência. O spinoff mudou radicalmente o tom da série original, apostando em drama político sombrio em vez do humor e ritmo que fizeram ‘Suits’ funcionar.

Por que Meghan Markle saiu de ‘Suits’?

Meghan Markle deixou ‘Suits’ após a 7ª temporada (2018) ao se casar com o príncipe Harry e se tornar membro da família real britânica. Sua personagem, Rachel Zane, teve um final satisfatório ao se casar com Mike Ross.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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