O showrunner Dario Scardapane explica por que ‘Demolidor: Renascido’ fecha as portas para o MCU: foco granular em Hell’s Kitchen, noir sem interferência dos Vingadores, e a lição de que isolamento criativo pode salvar histórias que a conectividade sufocou.
Há algo irônico no fato de a Marvel, estúdio que construiu um império sobre conectividade, agora escolher o isolamento como estratégia criativa. Demolidor: Renascido chega em março na Disney+ com uma premissa implícita que vai contra tudo o que o MCU nos ensinou a esperar: este é um mundo que deliberadamente fecha as portas para o resto do universo.
A declaração do showrunner Dario Scardapane para a Deadline é reveladora não pelo que diz, mas pelo que admite sobre o estado atual da Marvel. “A piada que fazemos é: ‘Ah, aqueles caras estão uptown — nós estamos downtown'”, explicou. Traduzindo: o Homem-Aranha e os Vingadores podem existir no mesmo universo, mas estão em outro ZIP code criativo.
Por que Hell’s Kitchen precisa ser um “bolso” isolado do MCU
A metáfora do “bolso” que Scardapane usa não é acidental. Ela descreve exatamente o que tornou a série original do Netflix — aquela de 2015 a 2018 — uma exceção na fórmula Marvel: intimidade geográfica gerando intimidade emocional. Quando Matt Murdock persegue um criminoso pelos becos de Hell’s Kitchen, a câmera está literalmente e figurativamente no nível da rua. Não há drones alienígenas cruzando o céu. Não há portais se abrindo sobre Manhattan.
Isso não é limitação orçamentária — é escolha de gênero. Demolidor: Renascido opera na tradição do noir urbano, e noir exige sombras, não clarões de lasers intergaláticos. Scardapane sabe que cada vez que você menciona os Vingadores em uma cena de investigação, você lembra ao público que existe um deus do trovão voando por aí que poderia resolver o problema em segundos. Isso mata a tensão. Melhor fingir que aquele mundo “uptown” não existe.
A decisão criativa de manter o foco “granular” — a palavra que Scardapane usou — é uma resposta implícita a um problema que assolou o MCU na Fase 4: a tirania do interconectado. Cada produção passou a funcionar mais como teaser para a próxima do que como obra autônoma. Ao desenhar uma linha em torno de Hell’s Kitchen, a série se permite contar uma história que começa e termina dentro de seus próprios limites.
O rumor do Homem-Aranha e o desmentido de Charlie Cox
Fãs são otimistas por natureza. Quando Charlie Cox foi flagrado filmando em Londres, a internet conectou os pontos: ele estaria em ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’, certo? Afinal, Cox já tinha feito um cameo breve mas memorável em ‘Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa’ como o advogado de Peter Parker — cena de 30 segundos que rendeu mais discussão do que filmes inteiros. A lógica era simples: se funcionou uma vez, vai funcionar de novo.
Cox foi direto ao desmentir: “Sei que todos acham que estou no Homem-Aranha porque estou filmando algo em Londres, mas não estou. Não estou no Homem-Aranha.” Ele também confirmou que não aparecerá em ‘Vingadores: Doutor Destino’. A mensagem é clara: o ator está focado em uma coisa apenas.
Há algo quase revolucionário nisso. Em um MCU onde atores são contratados para aparecer em múltiplos projetos simultaneamente, Cox está desenhando um perímetro em volta de seu personagem. Isso não é ego — é proteção do material. O Demolidor funciona melhor quando seu universo tem o tamanho de alguns quarteirões, não de uma galáxia.
O contraponto é Jon Bernthal. O Punisher do ator está confirmado para saltar para o cinema em uma sequência própria. Isso sugere que a Marvel está adotando uma abordagem seletiva: alguns personagens funcionam expandidos, outros precisam permanecer contidos. Frank Castle carrega bem o peso de um filme de ação brutal. Matt Murdock carrega melhor o peso de uma série que respira.
Coerência não é crossover: o que Brad Winderbaum revela
As declarações de Brad Winderbaum, chefe de Streaming, Televisão e Animação da Marvel Studios, adicionam uma camada importante ao quebra-cabeça. “Estamos nos comunicando muito com a equipe de ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ para garantir que haja coerência”, disse ele. “Não queremos estragar nada, mas [a série] muito existe no mesmo mundo, e isso é importante.”
Leia com atenção: ele fala em “coerência”, não em “crossovers”. A diferença é fundamental. Coerência significa que se o Homem-Aranha mencionar Hell’s Kitchen em uma cena, ele não vai contradizer algo estabelecido na série. Crossover significa Matt Murdock aparecendo para processar o Duende Verde. A Marvel está prometendo o primeiro, não o segundo.
Essa é uma admissão tardia mas necessária de que o modelo anterior — onde tudo se conectava o tempo todo — se tornou um fardo criativo. O público começou a sentir que precisava fazer “dever de casa” para assistir a qualquer coisa. Se você pulou uma série, talvez não entenda uma referência crucial no próximo filme. A estratégia de “bolso” de Demolidor: Renascido é uma resposta a essa fadiga.
A lição que a série Netflix deixou — e a Marvel finalmente aprendeu
A série original do Demolidor na Netflix existia em uma espécie de limbo canônico. Estava tecnicamente no MCU, mas raramente o reconhecia. Luke Cage, Jessica Jones, Punisher e os Defensores formavam um microcosmo autônomo — e funcionava. Quando a Marvel cancelou tudo em 2018-2019, parecia o fim de um experimento interessante.
Agora, Demolidor: Renascido traz de volta Charlie Cox, Vincent D’Onofrio (Rei do Crime), Deborah Ann Woll (Karen Page) e Elden Henson (Foggy). A mensagem é dupla: esses personagens são canônicos, e a abordagem “boliga” que funcionava antes continua válida.
Há uma lição aqui sobre gênero e escala. O Demolidor de Frank Miller — a versão que definiu o personagem moderno nos anos 80 — é fundamentalmente uma história de bairro. Um advogado cego que protege seu pedaço de cidade. Quanto mais você expande esse escopo, mais dilui o que torna o personagem especial. Scardapane parece entender isso intuitivamente.
Veredito: isolamento criativo ou oportunidade perdida?
Depende do que você busca. Se seu ideal de Marvel é ver todos os personagens interagindo em uma grande festa compartilhada, a abordagem de Demolidor: Renascido pode parecer restritiva. Por que construir um universo conectado para não usá-lo?
Mas se você acredita que as melhores histórias do MCU recentemente foram as que ousaram ignorar o peso da continuidade, então essa estratégia é um sinal promissor. ‘Moon Knight’ funcionou porque não tentou se justificar no grande esquema. ‘Loki’ construiu seu próprio mito. Agora, o Demolidor está fazendo o que sempre fez melhor: focar no que está bem em frente ao nariz dele.
Demolidor: Renascido estreia em 4 de março de 2026 na Disney+. A promessa implícita é de que você pode assistir sem ter visto os últimos cinco filmes do MCU. Para um público exausto de conexões obrigatórias, isso pode ser mais atraente do que qualquer crossover.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Demolidor: Renascido’
Quando estreia ‘Demolidor: Renascido’ na Disney+?
‘Demolidor: Renascido’ estreia em 4 de março de 2026 na Disney+. A primeira temporada terá 9 episódios, lançados semanalmente.
Charlie Cox vai aparecer no filme do Homem-Aranha?
Não. O próprio Charlie Cox confirmou que não estará em ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ nem em ‘Vingadores: Doutor Destino’. O ator está focado exclusivamente na série do Demolidor.
‘Demolidor: Renascido’ é continuação da série da Netflix?
Sim, mas com ajustes. A série traz de volta Charlie Cox, Vincent D’Onofrio, Deborah Ann Woll e Elden Henson, confirmando que a versão Netflix é canônica. Porém, o tom será ajustado para a nova fase do MCU.
Por que a Marvel está evitando crossovers em ‘Demolidor: Renascido’?
A estratégia é criativa, não orçamentária. O showrunner Dario Scardapane explicou que o foco “granular” em Hell’s Kitchen preserva o tom noir da série. Mencionar os Vingadores mataria a tensão — basta lembrar que Thor poderia resolver qualquer problema em segundos.
Quais personagens da série Netflix retornam?
Charlie Cox (Matt Murdock/Demolidor), Vincent D’Onofrio (Wilson Fisk/Rei do Crime), Deborah Ann Woll (Karen Page) e Elden Henson (Foggy Nelson) estão confirmados. Jon Bernthal (Punisher) também aparecerá e terá seu próprio filme posteriormente.

