‘Catspaw’: Por que o primeiro episódio de terror de Jornada nas Estrelas falhou

Em ‘Catspaw’, Jornada nas Estrelas tentou terror pela primeira vez — e falhou. Analisamos por que o roteiro de Robert Bloch (autor de ‘Psycho’) não funciona, e como o mesmo escritor acertou a mão em ‘Wolf in the Fold’ sete episódios depois na mesma temporada.

Jornada nas Estrelas sempre soube que terror e ficção científica podem coexistir — basta ver como ‘O Império Contra-Ataca’ constrói tensão em Hoth, ou como ‘Alien’ transformou naves espaciais em casas assombradas. Mas nem toda franquia acerta na primeira tentativa. ‘Catspaw’ Jornada nas Estrelas é o tipo de episódio que soa bem no papel: um autor de terror consagrado escrevendo uma história de Halloween para a tripulação da Enterprise. Na prática, resulta em um dos momentos mais constrangedores da Série Original.

O fracasso de “Catspaw” ganha contornos curiosos quando descobrimos que o mesmo roteirista, Robert Bloch, retornaria na mesma temporada com “Wolf in the Fold” e entregaria exatamente o que o primeiro episódio prometia. Comparar onde um tropeçou e o outro acertou revela algo sobre como terror funciona dentro de universos estabelecidos. E revela, também, que boas intenções não salvam roteiros mal executados.

Robert Bloch e a promessa de ‘Catspaw’

A premissa tinha credenciais respeitáveis. Exibido em 27 de outubro de 1967, uma semana antes do Halloween, o episódio mergulha Kirk, Spock e McCoy em um planeta desolado onde alienígenas criaram um cenário de terror literal — castelos, bruxas, gatos pretos, correntes chacoalhando. É uma “casa assombrada” intergaláctica, com os personagens comentando sobre “trick or treating” como se estivessem em um passeio turístico.

Robert Bloch não era qualquer nome. O autor do romance “Psycho” — adaptado por Hitchcock em 1960 — sabia construir suspense e explorar os cantos mais sombrios da psique humana. Sua participação deveria elevar o material. Há ainda um detalhe histórico: “Catspaw” foi o primeiro episódio que Walter Koenig filmou como Pavel Chekhov, embora não tenha sido o primeiro a ir ao ar. A produção claramente tinha expectativas.

Mas credenciais não garantem resultados. O problema central de “Catspaw” é que ele confia demais em seu próprio conceito e pouco no que faz Jornada nas Estrelas funcionar. Parece ter sido escrito para outra série — ou para nenhuma série específica, apenas para o conceito genérico de “terror na TV dos anos 60”.

Onde o roteiro desmorona

A falha mais evidente está nos personagens. Kirk, Spock e McCoy não agem como eles mesmos. Em uma cena particularmente irritante, os três entram em um castelo sinistro e aceitam “presentes” de uma figura misteriosa sem questionar — algo que qualquer oficial da Frota Estelar treinado evitaria. Eles caem em armadilhas óbvias porque o enredo exige, não porque suas caracterizações permitiriam. Não é que personagens inteligentes não possam cometer erros — é que os erros aqui servem ao roteiro, não à lógica interna dos personagens.

A direção de Joseph Pevney, que assinou clássicos como “The City on the Edge of Forever” e “The Trouble with Tribbles”, faz o que pode com orçamento de TV dos anos 60. Mas há um descompasso entre o que o episódio quer ser (terror gótico) e o que a série consegue entregar visualmente. O resultado fica preso em um limbo: nem é assustador o suficiente para funcionar como terror, nem é autoconsciente o suficiente para funcionar como pastiche. Fica estranho — e não de forma intencional.

Há também um problema estrutural: cenas de diálogo que se arrastam sem propósito. Terror exige ritmo, tensão acumulativa, sensação de que algo está sempre prestes a acontecer. “Catspaw” interrompe qualquer momentum com conversas que poderiam ser cortadas inteiras. Para um episódio que deveria ser tenso, passa grande parte do tempo sendo tedioso.

Mais fundamental: a ficção científica funciona como afterthought. Os alienígenas Korob e Sylvia são explicados de forma perfunctória no final — exploradores de outra galáxia usando tecnologia avançada para criar ilusões. É uma justificativa que parece cumprir obrigação contratual com o gênero da série. Jornada nas Estrelas sem FC robusta não é Jornada nas Estrelas — é fantasia com uniformes coloridos.

Quando Bloch acertou: ‘Wolf in the Fold’

Ao comparar com “Wolf in the Fold”, exibido em 22 de dezembro de 1967, a diferença salta aos olhos. A premissa: Scotty é acusado de assassinatos que replicam o modus operandi de Jack, o Estripador. O episódio constrói mistério real e integra terror com os valores da série.

A diferença está na abordagem. Enquanto “Catspaw” impõe elementos de terror externos sobre os personagens, “Wolf in the Fold” emerge de situações que poderiam acontecer no universo da série. A tripulação age logicamente, investiga com método, e quando as coisas dão errado, é porque o antagonista é genuinamente ameaçador — não porque os protagonistas foram reduzidos a versões estúpidas de si mesmos.

Há também uma diferença tonal. “Wolf in the Fold” entende que horror funciona melhor quando é sutil, quando a ameaça é sugerida mais do que mostrada. Não precisa de castelos ou bruxas; precisa de corredores escuros, silêncios desconfortáveis, e a sensação crescente de que algo muito errado está acontecendo com alguém que conhecemos. É terror que emerge da violação de um espaço seguro — a Enterprise —, e isso funciona muito melhor do que enfeites de Halloween.

“Wolf in the Fold” é lembrado como um episódio subestimado da Série Original. “Catspaw” permanece como nota de rodapé constrangedora. O mesmo autor, a mesma temporada, a mesma série série — execuções radicalmente diferentes.

O que a franquia aprendeu com o fracasso

O contraste entre os dois episódios de Bloch oferece uma lição: terror em universos estabelecidos precisa trabalhar com as regras desses universos, não contra elas. Quando “Catspaw” força Kirk e Spock a agirem como personagens de filme B de terror, trai o que torna a série interessante. Quando “Wolf in the Fold” mantém a competência da tripulação intacta e constrói ameaça legítima, honra a série enquanto entrega o que promete.

Jornada nas Estrelas não desistiu de terror após seu primeiro deslize — e bem que não desistiu. Episódios posteriores mostram que o gênero pode funcionar quando tratado com seriedade e integrado à identidade da série. “Catspaw” permanece como um lembrete: mesmo autores consagrados podem errar quando subestimam o material com que estão trabalhando.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Catspaw’

Quando ‘Catspaw’ foi ao ar?

‘Catspaw’ foi exibido originalmente em 27 de outubro de 1967, uma semana antes do Halloween — data escolhida propositalmente para acompanhar a temática de terror do episódio.

Quem escreveu ‘Catspaw’ e ‘Wolf in the Fold’?

Ambos os episódios foram escritos por Robert Bloch, autor do romance “Psycho” (1959), adaptado por Alfred Hitchcock em 1960. Bloch é considerado um mestre do terror literário.

Por que ‘Catspaw’ é considerado um dos piores episódios de Jornada nas Estrelas?

O episódio falha em três frentes: os personagens principais agem de forma inconsistente com suas caracterizações, o ritmo é arrastado com diálogos sem propósito, e a ficção científica funciona como afterthought em vez de elemento central.

Vale a pena assistir ‘Catspaw’?

Para completistas e fãs interessados em entender os altos da série, vale pelo contexto histórico — foi o primeiro trabalho de Walter Koenig como Chekhov. Para quem busca bons episódios de Jornada nas Estrelas, há opções melhores na mesma temporada, incluindo o próprio ‘Wolf in the Fold’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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