Histórias inacabadas: os episódios de ‘Black Mirror’ que clamam por uma sequência

Com a sequência de ‘USS Callister’ confirmada, analisamos quais episódios de ‘Black Mirror’ terminaram com perguntas maiores que suas respostas — de ‘Beyond the Sea’ a ‘Fifteen Million Merits’ — e por que alguns mundos construídos pedem continuação enquanto outros devem permanecer intocados.

Quando ‘Black Mirror’ anunciou que ‘USS Callister’ ganharia uma sequência na sétima temporada, quebrou uma regra sagrada da série. Desde 2011, Charlie Brooker construiu um universo antológico onde cada episódio era uma história autossuficiente — um soco no estômago, uma reflexão, e pronto. Você digeria aquilo por dias, mas não esperava continuar. Agora, o precedente está aberto. E isso muda tudo.

Olhando para os episódios Black Mirror sequência que fazem sentido, percebo que alguns foram desenhados com portas escancaradas para continuação — não por descuido, mas porque as perguntas que levantaram são grandes demais para 60 minutos. Outros terminaram de forma tão perturbadora que a ausência de resolução se tornou parte do horror. Mas há aqueles cujo mundo construído pede mais. São esses que quero discutir.

Por que ‘Beyond the Sea’ precisa voltar ao espaço

‘Beyond the Sea’ é um dos episódios mais negligenciados da sexta temporada, e isso é uma injustiça. Ambientado em um 1969 retrofuturista, acompanha dois astronautas — Cliff (Aaron Paul) e David (Josh Hartnett) — que usam réplicas artificiais de seus corpos para visitar a Terra enquanto cumprem uma missão de seis anos no espaço espaço. A premissa é fascinante porque inverte o trope do doppelgänger: aqui, a tecnologia não cria conflito entre idênticos, mas entre dois homens que compartilham o mesmo corpo digital com objetivos opostos.

O episódio termina em um beco sem saída moral. David, devastado pela perda de sua família, usa o corpo artificial de Cliff para cometer um ato que destrói a vida de ambos. O último plano os mostra no módulo espacial, dois homens que se odeiam, condenados a conviver por anos até a missão acabar. E então? Aquele silêncio não é encerramento — é uma promessa de tormento que a série se recusou a mostrar.

Uma sequência poderia explorar dois caminhos fascinantes. Primeiro: o que acontece quando eles retornam à Terra e o mundo descobre o que David fez? O episódio menciona grupos anti-replicas artificiais — uma tensão social que ficou subdesenvolvida. Segundo: como dois homens que se detestam, presos em uma lata flutuando no vácuo, lidam com a responsabilidade mútua? Isso é material para um thriller psicológico claustrofóbico que ‘Black Mirror’ não teve coragem de fazer.

‘Fifteen Million Merits’: o que acontece depois do sistema?

Este é o episódio que mais clama por continuação, e vou explicar por quê. ‘Fifteen Million Merits’, da primeira temporada, construiu um mundo tão completo — aquela sociedade de ciclistas gerando energia em troca de “méritos”, a hierarquia brutal, o entretenimento como única válvula de escape — que se limitar ao destino de Bing (Daniel Kaluuya) e Abi (Jessica Brown Findlay) seria desperdício.

O final é ambíguo de propósito. Bing consegue escapar do sistema usando as mesmas ferramentas que o oprimiam — uma crítica mordaz sobre como até a rebelião pode ser cooptada. Mas o episódio nos dá apenas um vislumbre da vida “lá fora”. O que acontece com quem escapa? Eles se tornam parte da elite que antes consumia o sofrimento alheio? Ou existe uma terceira camada social que não vimos?

Uma sequência não precisaria seguir Bing. Poderia expandir o universo — mostrar como o sistema evoluiu, se houve revoltas inspiradas por ele, se a “vida de luxo” é uma farsa maior ainda. O mundo de ‘Fifteen Million Merits’ é tão rico que merece o tratamento de ‘San Junipero’: um cenário para múltiplas histórias, não apenas uma.

‘Be Right Back’: a pergunta que Charlie Brooker se recusou a responder

Este episódio machuca de um jeito que poucos conseguem. Martha (Hayley Atwell) perde o namorado Ash (Domhnall Gleeson) e, na tentativa de preencher o vazio, cria uma versão artificial dele — primeiro virtual, depois física. Um android idêntico ao homem que amava, programado com base nas redes sociais dele. O resultado é um romance distorcido onde Martha se apaixona por algo que parece seu parceiro, mas não é.

O que torna ‘Be Right Back’ candidato perfeito para sequência é o detalhe final: Martha está grávida. E ela decide esconder o android no sótão, permitindo que a filha o visite uma vez por semana. Pense sobre isso. Uma criança crescendo com um “pai” que é uma cópia digital do morto real. Como isso molda a psique dela? Como Martha mantém essa mentira por anos?

A sequência poderia acompanhar essa filha adulta, lidando com o legado distorcido do pai que nunca existiu de verdade. Ou focar em Martha, agora idosa, ainda presa a essa versão artificial de Ash — uma prisioneira de sua própria incapacidade de deixar ir. O material para um estudo sobre luto, identidade e dependência tecnológica está todo ali, esperando.

‘Black Museum’: justiça no deserto, e depois?

Este episódio funciona como uma antologia dentro da antologia — três histórias macabras conectadas por um museu de crimes tecnológicos. Mas o final transforma tudo. Nish (Letitia Wright) descobre que o dono do museu, Rolo, torturou e lucrou com o sofrimento de seu pai. Ela queima o lugar e foge com a consciência dele e de sua mãe, buscando vingança contra outros exploradores de dor alheia.

Isso é um setup para série spin-off, não apenas sequência. Nish se torna uma espécie de justiceira tecnológica — alguém que percorre o país desmantelando explorações similares. O formato permitiria visitar outros “museus” do horror, outras histórias de vítimas da tecnologia desregulada.

O que me intriga é a pergunta moral que ficaria no ar: Nish é heroína ou vigilante perigosa? Ela queimou pessoas vivas no museu. Sua missão é justa, mas seus métodos são questionáveis. Uma sequência teria que encarar isso de frente — não transformá-la em protagonista simplória, mas explorar a ambiguidade de alguém que combate monstros se tornando um.

‘San Junipero’: o único caso onde sequência poderia arruinar tudo

Preciso ser honesto: ‘San Junipero’ é o episódio que eu temo ver ganhar continuação. Não porque não haja espaço — o universo de uma realidade simulada onde mortos vivem eternamente e idosos visitam tem potencial infinito. Mas porque o que torna esse episódio especial é exatamente o seu final.

Yorkie (Mackenzie Davis) e Kelly (Gugu Mbatha-Raw) encontram uma solução para o dilema impossível: viver juntas para sempre em uma simulação, após a morte. O último plano delas dançando juntas, livres do corpo e do tempo, é perfeito. Adicionar mais algo seria arriscar transformar um conto sobre esperança em algo menor. Não é à toa que este foi o primeiro episódio da série a ganhar um Emmy de Melhor Roteiro para Série de Televisão.

Se uma sequência acontecesse, o caminho certo seria expandir o mundo sem tocar em Yorkie e Kelly. Mostrar outros residentes de San Junipero — pessoas que escolheram a eternidade por motivos diferentes, ou que se arrependeram. Explorar as implicações de uma sociedade onde a morte é opcional. Mas deixar o casal em paz. Algumas histórias são completas exatamente porque sabem quando parar.

O precedente perigoso que ‘USS Callister’ criou

Agora que ‘Black Mirror’ provou que pode fazer sequências, a tentação será grande. Mas o formato antológico existe por razão: cada episódio funciona como um experimento de pensamento isolado, sem a obrigação de expandir universos ou satisfazer fãs. Ao abrir essa porta, a série corre o risco de se tornar mais uma franquia obcecada em capitalizar sucessos passados.

Dito isso, os episódios que mencionei — com exceção talvez de ‘San Junipero’ — terminaram com perguntas maiores que suas respostas. Não são histórias inacabadas por preguiça narrativa, mas por escolha temática. Uma sequência só seria justificada se conseguisse fazer o que o original não fez: responder essas perguntas de forma tão perturbadora quanto as próprias perguntas.

Se você me pergunta quais episódios Black Mirror sequência eu assistiria sem hesitar, a resposta é clara: ‘Beyond the Sea’, ‘Fifteen Million Merits’ e ‘Be Right Back’. São histórias que deixaram feridas abertas — não por falta de conclusão, mas porque o horror delas está justamente no que não foi mostrado. Charlie Brooker provou que sabe subverter expectativas. Agora precisa provar que sabe continuar histórias sem diminuí-las.

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Perguntas Frequentes sobre Black Mirror

Qual episódio de Black Mirror já ganhou uma sequência?

‘USS Callister’, da quarta temporada, ganhou uma sequência anunciada para a sétima temporada de Black Mirror em 2025. É a primeira vez que a série antológica continua uma história de um episódio anterior.

Por que Black Mirror é uma série antológica?

Black Mirror foi criada por Charlie Brooker seguindo o formato antológico para que cada episódio funcione como um experimento de pensamento isolado. Isso permite explorar diferentes gêneros, elencos e temas sem a obrigação de continuidade narrativa.

Onde assistir Black Mirror?

Black Mirror está disponível na Netflix. As temporadas 1 a 6 estão completas na plataforma, e a sétima temporada estreou em 2025.

Qual episódio de Black Mirror é mais aclamado pela crítica?

‘San Junipero’, da terceira temporada, é o episódio mais premiado da série. Ganhou o Emmy de Melhor Roteiro para Série de Televisão em 2017 e aparece frequentemente em listas de melhores episódios de TV do século XXI.

Quantos episódios tem Black Mirror?

Black Mirror tem 27 episódios distribuídos em 6 temporadas (mais o especial ‘Bandersnatch’). A sétima temporada adicionou novos episódios em 2025, incluindo a sequência de ‘USS Callister’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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