‘Nuremberg’: o filme de Russell Crowe com 95% de aprovação chega à Netflix

‘Nuremberg’ chega à Netflix em março com 95% de aprovação do público — um drama histórico que a crítica inicial subestimou, mas que encontrou seu público na Europa. Analisamos por que Russell Crowe entregou uma de suas performances mais controladas e o que explica a discrepância entre bilheteria modesta e recepção entusiasmada.

Existe um tipo de filme que o mercado americano de cinema parece incapaz de reconhecer no momento certo. São obras que chegam nos cinemas com marketing morno, fazem números modestos, e depois — lentamente — encontram seu público. ‘Nuremberg’ é exatamente isso: um drama histórico que arrecadou apenas US$ 14,5 milhões em solo americano, mas que agora chega à Netflix em 7 de março com algo que poucos blockbusters podem ostentar — 95% de aprovação do público no Rotten Tomatoes.

Esse número chama atenção. Como um filme com bilheteria doméstica tão modesta consegue uma aprovação maior que clássicos modernos como ‘Los Angeles: Cidade Proibida’ (94%) e ‘O Gângster’ (90%)? A resposta está naquilo que Hollywood frequentemente subestima: o público adulto que ainda busca cinema de qualidade em vez de espetáculo visual.

O arco de redenção de um filme que a crítica inicial não entendeu

O arco de redenção de um filme que a crítica inicial não entendeu

A trajetória de ‘Nuremberg’ parece um caso de estudo sobre como a recepção crítica pode ser volátil. O filme estreou no Festival de Toronto (TIFF) com avaliações mistas para negativas, chegando a marcar apenas 30% no Rotten Tomatoes. Era o tipo de estreia que geralmente sela o destino de um filme: lançamento limitado, marketing mínimo, esquecimento rápido.

Mas algo curioso aconteceu. Conforme o filme foi encontrando seu público — especialmente na Europa, onde arrecadou a maior parte de seus US$ 45,5 milhões totais — a percepção mudou. A aprovação crítica subiu para 72%. Mais impressionante: a aprovação do público disparou para 95%. Esse abismo entre crítica inicial e recepção do público revela algo relevante: às vezes, os críticos estão procurando o filme errado.

James Vanderbilt, roteirista que estreou na direção com este projeto, optou por uma abordagem que os críticos de festival talvez tenham julgado como “convencional demais”. Mas convenção, quando executada com maestria, não é defeito — é escolha. E o público parece ter reconhecido isso.

Russell Crowe e a construção de um monstro reconhecível

Aqui está onde ‘Nuremberg’ se eleva acima do drama histórico padrão: Russell Crowe não interpreta Hermann Göring como um vilão caricaturado. Ele o constrói como um homem que, apesar de ter sido um dos arquitetos de um dos maiores horrores da humanidade, ainda carrega dentro de si a certeza de sua própria superioridade intelectual.

É uma escolha arriscada. Göring não era um monstro irreconhecível — era um homem charmoso, articulado, que usava sua inteligência para justificar o injustificável. Crowe captura isso com precisão. Há momentos em que o espectador se pega quase admirando a astúcia do personagem, para então se dar conta de quem ele realmente foi. Esse desconforto moral é exatamente o ponto.

Crowe figurou na longlist de Melhor Ator no BAFTA 2026, mesmo não chegando à lista final. Em um ano em que ele fez apenas este filme — algo raro para um ator que costuma fazer dois ou três projetos anuais — Crowe entregou uma das performances mais controladas de sua carreira. Sem os gritos de ‘Gladiador’, sem a intensidade física de ‘O Gângster’. Apenas a frieza calculista de um homem que acreditava ter vencido mesmo derrotado.

O duelo psicológico entre psiquiatra e nazista

O duelo psicológico entre psiquiatra e nazista

O filme se estrutura em torno de uma premissa fascinante: o psiquiatra americano Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, precisa avaliar a sanidade mental dos nazistas antes do julgamento de Nuremberg. O que poderia ser um procedimento burocrático se transforma em um confronto psicológico.

Malek, vencedor do Oscar por ‘Bohemian Rhapsody’, demonstra aqui uma maturidade que talvez não tivéssemos visto antes. Seu Kelley não é um herói convencional — é um homem fascinado e repugnado pelo que encontra. A dinâmica entre ele e Crowe funciona como um jogo de xadrez onde cada movimento revela mais sobre a natureza humana do que gostaríamos de admitir.

O roteiro, adaptado do livro “The Nazi and the Psychiatrist” de Jack El-Hai, evita o erro comum de transformar os nazistas em personagens unidimensionais. Não há apologia, mas há reconhecimento de que o mal não se apresenta sempre com chifres visíveis. Às vezes, ele usa uniforme militar e discute filosofia com eloquência.

Por que o público abraçou o que a crítica rejeitou

Há uma explicação plausível para o abismo entre os 72% dos críticos e os 95% do público. Críticos de cinema assistem a centenas de filmes por ano. Eles reconhecem padrões, estruturas, clichês. Um drama de tribunal sobre nazistas pode soar, para esse público saturado, como território já explorado.

Mas o público geral — aquele que talvez assista a um filme por semana, que busca histórias com peso emocional? Para ele, ‘Nuremberg’ oferece algo que o cinema mainstream abandonou: um drama adulto sobre moralidade, história e as zonas cinzentas da natureza humana.

O elenco de apoio também eleva o material. John Slattery, Michael Shannon, Richard E. Grant, Colin Hanks — nomes que trazem credibilidade instantânea. Shannon, em particular, tem presença que transforma até cenas menores em momentos de tensão. E Leo Woodall, em ascensão após ‘The White Lotus’, demonstra que sua carreira pós-série está em bons caminhos.

O contexto histórico que o público europeu reconheceu

O contexto histórico que o público europeu reconheceu

Não é coincidência que o filme tenha performado tão melhor na Europa do que nos Estados Unidos. Para o público europeu, os julgamentos de Nuremberg não são apenas história — são memória viva. A presença de Göring, de Goebbels, de Speer na tela carrega um peso que talvez o público americano, geograficamente distante do horror, não sinta da mesma forma.

A Itália foi um dos mercados onde o filme mais performou. Isso faz sentido: o país viveu o fascismo, a guerra, a ocupação. Ver ‘Nuremberg’ não é apenas entretenimento — é um confronto com um passado que ainda pulsa sob a superfície do continente.

Com orçamento estimado entre US$ 7 e 10 milhões, o filme se tornou um sucesso financeiro graças a esse público internacional. É um lembrete de que o mercado americano, embora dominante, não é o único que importa. Às vezes, um filme encontra seu lar em lugares onde sua história ressoa de forma mais profunda.

Veredito: vale a pena assistir quando chegar à Netflix?

‘Nuremberg’ chega à Netflix em 7 de março com uma promessa que cumpre: é um drama histórico adulto, bem atuado e moralmente complexo. Se você busca ação constante ou reviravoltas a cada dez minutos, este não é seu filme. O ritmo é deliberado, a tensão é psicológica, e o foco está na palavra, não no espetáculo.

Mas se você pertence ao público que ainda valoriza cinema que faz perguntas difíceis, que encara a história sem romantização, que aceita que às vezes os “vilões” são mais interessantes quando são reconhecidamente humanos — então ‘Nuremberg’ é uma descoberta que vale cada minuto.

Aqueles 95% de aprovação não são acidente. São o reconhecimento de que, em uma era de blockbusters infinitos, ainda existe espaço para histórias que pedem mais do nosso intelecto. Russell Crowe entregou um de seus trabalhos mais sutis. O público, contra as expectativas iniciais, percebeu.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Nuremberg’

Quando ‘Nuremberg’ chega à Netflix?

‘Nuremberg’ chega ao catálogo da Netflix em 7 de março de 2026. O filme já está disponível em algumas plataformas de aluguel digital e em cinemas selecionados.

‘Nuremberg’ é baseado em fatos reais?

Sim. O filme é baseado no livro “The Nazi and the Psychiatrist” de Jack El-Hai, que documenta a história real do psiquiatra americano Douglas Kelley e sua avaliação dos nazistas antes dos Julgamentos de Nuremberg em 1945-46.

Quem são os atores principais de ‘Nuremberg’?

O filme é estrelado por Russell Crowe como Hermann Göring e Rami Malek como o psiquiatra Douglas Kelley. O elenco de apoio inclui Michael Shannon, John Slattery, Richard E. Grant e Colin Hanks.

Por que ‘Nuremberg’ tem aprovação tão alta do público?

O público adulto respondeu ao drama histórico bem executado com performances de qualidade — especialmente Russell Crowe como Göring. O filme oferece moralidade complexa e diálogos afiados, algo que o cinema mainstream tem abandonado.

Qual a classificação indicativa de ‘Nuremberg’?

Nos EUA, o filme tem classificação R (menores de 17 acompanhados de adulto). No Brasil, deve receber classificação 14 ou 16 anos por conter temas pesados sobre nazismo e cenas de intensidade psicológica.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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