Em ‘O Agente Noturno 3’, a série acerta ao introduzir Isabel como aliada de Peter sem forçar um romance, subvertendo o clichê do gênero. Analisamos como essa escolha narrativa fortalece a personagem e eleva o thriller político acima do previsível.
Há um momento em ‘O Agente Noturno 3’ que define o tom de toda a temporada — e não é uma explosão, perseguição ou reviravolta. É quando Peter Sutherland e Isabel De Leon compartilham um olhar de cumplicidade após escaparem de uma armadilha, e você espera o inevitável: a tensão romântica, o flerte no subtexto, o começo de algo. E então… nada. A série simplesmente segue em frente, e esse “nada” é a melhor decisão criativa que poderia ter tomado.
Com Rose Larkin ausente desta temporada, o caminho mais fácil — e previsível — seria introduzir uma substituta romântica. O gênero de thriller político já normalizou essa dinâmica: herói em perigo, nova parceira de circunstância, química inevitável. Mas ‘O Agente Noturno 3’ subverte essa expectativa de forma deliberada. Isabel não está ali para preencher o vazio afetivo de Peter. Ela está ali porque a história precisa dela — e essa distinção muda tudo.
Como Isabel preenche o vazio de Rose sem repetir a fórmula
A ausência de Rose é sentida, mas não ignorada. A série deixa claro que Peter ainda pensa nela, que a separação foi uma escolha dolorosa mas necessária — enquanto ele for um Night Agent, a vida dela estará em risco constante. É um reconhecimento maduro de que certas relações não funcionam em determinados contextos. Em vez de fingir que essa dor não existe ou substituí-la apressadamente, ‘O Agente Noturno 3’ usa esse vazio como parte da caracterização de Peter.
Isabel entra na trama por uma via completamente diferente: ela é uma jornalista investigativa que está de olho em FinCen e suas conexões com o voo Pima 12. Sua motivação é profissional, não emocional. E quando os caminhos dela e de Peter se cruzam, a série constrói algo que o gênero raramente se dá ao luxo de explorar: uma parceria intelectual entre um homem e uma mulher que não precisa de subtexto romântico para ser interessante.
O que torna Isabel uma “substituta” de Rose apenas no sentido funcional — ela oferece a Peter alguém com quem dialogar, alguém que traz a verdade, alguém disposta a arriscar por justiça — mas a série nunca confunde função com afeto. Rose era a pessoa que Peter queria proteger. Isabel é a pessoa que pode protegê-lo de si mesmo, questionando suas certezas e trazendo informações que ele não teria acesso.
Por que evitar o romance foi a escolha mais ousada da temporada
Parece contraditório chamar de “ousada” uma decisão de não fazer algo. Mas no cenário atual de séries de thriller, onde cada nova temporada parece obrigada a introduzir um novo interesse romântico para manter o público “engajado”, ‘O Agente Noturno 3’ faz algo quase radical: confia que a dinâmica entre dois profissionais competentes é suficiente para gerar tensão e investimento emocional.
Pense no que seria a alternativa: Isabel descobre a verdade sobre seu pai, Jacob Monroe, e no meio desse trauma, encontra conforto nos braços de Peter. Seria funcional, sim, mas também seria preguiçoso. Transformaria uma personagem com sua própria agência e motivações em mais um prêmio para o protagonista. A série recusa essa facilidade.
O resultado é que Isabel se torna uma personagem completa por direito próprio. Sua jornada — descobrir que seu pai é um terrorista, processar essa informação, e ainda assim escolher expor a verdade — teria o mesmo peso se Peter não existisse na história. Isso não é um detalhe menor. É a diferença entre uma coadjuvante funcional e uma personagem que merece sua própria narrativa.
O arco de Isabel e a twist que reconfigura toda a temporada
A revelação de que Jacob Monroe, o misterioso “Broker”, é pai de Isabel é o tipo de twist que poderia ter sido puramente sensacionalista. Mas ‘O Agente Noturno 3’ constrói essa revelação de forma que ela ressoa emocionalmente, não apenas como choque. Jacob conheceu a mãe de Isabel em 1995, no México, acreditava que ela tinha sido morta pelos Zapatas, e levou anos para descobrir que tinha uma filha.
Essa conexão familiar adiciona camadas ao que poderia ser uma investigação padrão. Isabel não está apenas expondo corrupção — ela está expondo seu próprio pai, alguém que, por mais monstruoso que seja, representa uma parte de sua identidade que ela nunca conheceu. A série não simplifica essa dinâmica. Jacob claramente tem afeto por Isabel, mas isso não o redime. E Isabel claramente se sente dividida, mas isso não a paralisa.
Há uma cena específica — o confronto de Isabel com a realidade do que seu pai fez — em que a câmera permanece em seu rosto por segundos que parecem eternos. Não há diálogo, não há explicação. Apenas o peso da descoberta. É o tipo de escolha de direção que demonstra confiança na atriz e no público: ambos são capazes de entender sem que seja explicado. A direção de Seth Gordon e equipe entende que silêncio pode ser mais eloquente que qualquer monólogo explicativo.
Genesis Rodriguez e a construção de uma personagem que merece continuar
Genesis Rodriguez entrega uma performance que equilibra determinação profissional com vulnerabilidade humana. Isabel é competente, mas não invencível. Ela investiga com método, mas também com medo. E quando a vida dela é repetidamente colocada em risco, Rodriguez mostra que coragem não é ausência de terror — é a decisão de continuar apesar dele.
O final da temporada deixa a porta aberta para seu retorno. Isabel planeja ir para Barcelona, mas sua função como jornalista investigativa e sua conexão com o universo de ‘O Agente Noturno’ fazem dela uma peça que poderia facilmente ser reativada. E considerando que Rose pode retornar em temporadas futuras, a série teria a oportunidade de explorar algo raro na TV: duas mulheres na vida de um protagonista que são completas por si mesmas, não definidas por ele.
Se Isabel retornar, e se Rose retornar, a série terá a chance de fazer algo que poucas se permitem: mostrar que homens e mulheres podem ter relacionamentos significativos que não giram em torno de romance. Peter pode ter perdido Rose como parceira romântica, mas ganhou em Isabel uma aliada que o desafia de formas diferentes — e isso é mais interessante do que qualquer caso passageiro.
Veredito: uma lição para o gênero
‘O Agente Noturno 3’ não é perfeita, mas sua decisão de não forçar um romance entre Peter e Isabel merece reconhecimento. Em um momento em que séries frequentemente confundem “desenvolvimento de personagem” com “novo interesse amoroso a cada temporada”, esta escolha demonstra uma compreensão de que nem toda história precisa de um par romântico para ser envolvente.
Para quem acompanha a série desde o início, a ausência de Rose é sentida. Isabel não a substitui emocionalmente — e não deveria. Mas ela prova que o elenco de ‘O Agente Noturno’ pode expandir sem repetir fórmulas. Se você curte thrillers políticos que respeitam sua inteligência, essa temporada entrega. E se você, como eu, está cansado de ver cada nova personagem feminina reduzida a potencial interesse romântico, Isabel é um alívio.
A pergunta que fica não é se Isabel vai voltar, mas se a série vai continuar tendo a coragem de resistir ao óbvio. Pelo que esta temporada demonstra, eu aposto que sim.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Agente Noturno 3’
Rose aparece em ‘O Agente Noturno 3’?
Não. Rose Larkin (Luciane Buchanan) está ausente desta temporada. A série explica que Peter se afastou dela para proteger sua vida, dado os riscos constantes de ser um Night Agent.
Onde assistir ‘O Agente Noturno 3’?
‘O Agente Noturno 3’ está disponível exclusivamente na Netflix desde dezembro de 2025. As duas primeiras temporadas também estão na plataforma.
Quem é Isabel em ‘O Agente Noturno 3’?
Isabel De Leon, interpretada por Genesis Rodriguez, é uma jornalista investigativa que se envolve com Peter Sutherland ao investigar conexões entre FinCen e o voo Pima 12. Durante a temporada, descobre que Jacob Monroe, o “Broker”, é seu pai.
Precisa ver as temporadas anteriores para entender a 3?
Recomenda-se assistir as temporadas anteriores. Embora cada temporada tenha arcos relativamente independentes, entender o contexto de Peter como Night Agent, sua relação com Rose e os eventos anteriores enriquece a experiência.
‘O Agente Noturno’ vai ter 4ª temporada?
A Netflix ainda não confirmou a 4ª temporada. O final da 3ª temporada deixa pontas soltas que sugerem continuação, mas a decisão depende de audiência e números da plataforma.

