‘Travelers’, série de sci-fi da Netflix criada por Brad Wright, previu debates sobre IA que só se tornaram urgentes em 2026. Analisamos por que o Director — a inteligência artificial que toma decisões de vida ou morte — é mais perturbador hoje do que quando a série estreou.
Em 2016, quando Travelers Netflix estreou, inteligência artificial era coisa de filmes de ficção científica — algo que aceitávamos como premissa, mas não levávamos a sério como discussão real. Dez anos depois, a série se transformou de “sci-fi divertido” para “obra profética” sem nem tentar.
Vivemos em 2026 discutindo regulamentação de IA, algoritmos tomando decisões que afetam milhões de pessoas, sistemas autônomos em tudo — de carros a diagnósticos médicos. ‘Travelers’ previu esse debate antes dele existir. E fez isso disfarçado de série de viagem no tempo com orçamento de TV a cabo canadense.
A premissa que deveria ser absurda — mas envelheceu como vinho
O conceito é desses que soam ridículos no papel: agentes especiais do futuro têm suas consciências enviadas de volta no tempo e “hospedadas” nos corpos de pessoas que estão prestes a morrer. A ideia é usar esses hospedeiros para completar missões que, teoricamente, vão impedir o apocalipse. Tudo coordenado pelo Director — uma IA avançada que toma todas as decisões estratégicas.
Se isso parece familiar, não é coincidência. A diferença é que em 2016, aceitávamos o Director como “o computador malvado da vez”. Hoje, você olha para esse cenário e pensa: “espera, isso é literalmente o que empresas estão tentando fazer com sistemas de tomada de decisão autônomos”. A série não mudou — foi o mundo que mudou para ficar mais parecido com ela.
Há uma cena específica no início da primeira temporada que me marcou: um dos Travelers recebe uma diretiva do Director que parece cruel, arbitrária, impossível de justificar. Ele obedece porque confia na máquina. Aquele momento — a submissão cega a um algoritmo que “sabe mais” — me pareceu apenas plot point na época. Reassistindo em 2026, é um espelho desconfortável de como delegamos escolhas morais para sistemas que não entendemos.
Por que a IA do ‘Travelers’ é diferente de outras ficções científicas
A maioria das séries e filmes trata IA de duas formas: ou é o vilão clássico (Skynet de ‘Terminator’, HAL 9000 de ‘2001’), ou é um auxiliar passivo. ‘Travelers’ faz algo mais interessante — o Director é benevolente em intenção, mas implacável em execução. Ele quer salvar a humanidade, mas não hesita em sacrificar indivíduos pelo “bem maior”.
Isso não é preguiça de roteiro. É uma crítica funcional a um debate que ainda não sabíamos que íamos ter: o que acontece quando sistemas otimizam para métricas sem considerar humanidade? O Director toma decisões “racionais” que seriam psicopáticas se viessem de uma pessoa. Soa familiar? Deveria. É o mesmo dilema que discutimos quando algoritmos de crédito negam empréstimos para pessoas reais, ou quando sistemas de saúde priorizam pacientes por probabilidade estatística de sobrevivência.
A série não tem todas as respostas — e honestamente, nem tenta. Mas faz a pergunta certa antes de todo mundo: até onde confiamos em sistemas que não têm pele no jogo?
Entre ‘Heroes’ e ‘Estação Onze’: o equilíbrio que funciona
Uma coisa que ‘Travelers’ faz bem é navegar entre dois mundos. Por um lado, tem a estrutura de série de equipe com missões semanais — cinco agentes com habilidades específicas, segredos compartilhados. Por outro, tem a pegada existencial de ficção científica mais ambiciosa, tipo ‘Estação Onze’.
Funciona porque a série entende algo que muitas produções de sci-fi esquecem: conceitos inteligentes não substituem personagens interessantes. Você pode ter a premissa mais original do mundo, mas se não se importa com quem está na tela, desliga depois de dois episódios.
Os Travelers são, fundamentalmente, pessoas roubando vidas que não são deles. Cada um carrega o peso de substituir alguém que ia morrer — alguém com família, amigos, uma existência que agora precisa ser performada. Essa tensão entre “missão maior” e “vida individual” é onde a série brilha. Não é só sobre salvar o mundo; é sobre o custo pessoal de tentar fazer isso.
O elenco ajuda muito. Eric McCormack, que muitos conhecem de ‘Will & Grace’, carrega a série como Grant MacLaren com uma gravidade que surpreende quem esperava comédia. E MacKenzie Porter entrega uma performance que merece mais reconhecimento — especialmente na primeira temporada, quando precisa explicar para alguém que ama por que não é mais a pessoa que ele conhecia. A forma como ela equilibra frieza prática com dor genuína eleva material que poderia ser genérico.
O que envelheceu mal (e tudo bem admitir isso)
Não vou fingir que ‘Travelers’ é perfeita. Algumas tramas secundárias são preenchedoras, certos episódios seguem fórmulas de TV network que datam a produção, e o orçamento às vezes mostra suas limitações em efeitos visuais. Mas os defeitos não anulam o que funciona.
Comparando com ‘Stranger Things’, que estreou no mesmo ano com orçamento muito maior e apelo cultural massivo, ‘Travelers’ parece modesto demais. Mas essa modéstia é também sua força. Enquanto ‘Stranger Things’ se tornou refém de sua própria grandiosidade — cada temporada precisando ser maior e mais barulhenta que a anterior — ‘Travelers’ mantém um foco narrativo que serve à história, não ao hype.
A série também precedeu o boom de produções pós-apocalípticas que vimos nos anos seguintes. Quando ‘Travelers’ estreou, ‘The Last of Us’ ainda era só um jogo. ‘Estação Onze’ era um livro que muita gente não conhecia. A série estava explorando território que se tornaria mainstream anos depois — e fazendo isso com mais ideias do que recursos.
Veredito: vale (re)assistir em 2026?
Se você nunca viu: sim, absolutamente. Especialmente se curte ficção científica que prefere perguntas a respostas fáceis. A série tem três temporadas completas que terminam de forma satisfatória — algo raro em produções canceladas. Brad Wright, criador da série e veterano do universo ‘Stargate’, conseguiu fechar a narrativa sem deixar fios soltos, mesmo sem saber que era o fim.
Se já viu quando lançou: vale releitura. A experiência de assistir em 2026 é fundamentalmente diferente de 2016. A discussão sobre IA que era abstrata agora é concreta. As decisões do Director que pareciam conveniência de roteiro agora parecem advertências.
‘Travelers’ é o tipo de série que se descobre por acaso na biblioteca da Netflix e sai surpreso. Não tem o marketing de ‘Stranger Things’ ou o prestígio de ‘The Last of Us’. Mas tem algo que essas todas compartilham: uma visão autoral clara do que quer ser.
Em um cenário de streaming saturado de conteúdo produzido por comitê, isso não é pouco. É exatamente o que merece existir.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Travelers’
Onde assistir ‘Travelers’?
‘Travelers’ está disponível na Netflix em todas as regiões. A série é um original da plataforma e todas as três temporadas podem ser assistidas completas.
Quantas temporadas tem ‘Travelers’?
A série tem 3 temporadas completas, com um total de 34 episódios. Apesar de cancelada após a terceira temporada, a série teve um final conclusivo planejado pelo criador Brad Wright.
‘Travelers’ foi cancelada?
Sim, ‘Travelers’ foi cancelada pela Netflix em fevereiro de 2019 após três temporadas. No entanto, o criador Brad Wright conseguiu encerrar a trama principal de forma satisfatória no final da terceira temporada, sem deixar cliffhangers abertos.
Quem criou ‘Travelers’?
‘Travelers’ foi criada por Brad Wright, veterano do universo ‘Stargate’ (co-criador de ‘Stargate SG-1’, ‘Stargate Atlantis’ e ‘Stargate Universe’). Wright trouxe sua experiência em sci-fi televisivo para construir uma narrativa de viagem no tempo com regras internas consistentes.
Preciso ver outra série antes de ‘Travelers’?
Não. ‘Travelers’ é uma história original e independente. Não é spin-off ou sequência de nenhuma outra produção. Pode ser assistida sem conhecimento prévio de outras séries.

