‘Jornada nas Estrelas’: como Vulcanos, Klingons e outras raças redefiniram o sci-fi

As espécies Jornada nas Estrelas redefiniram a ficção científica ao tratar alienígenas como civilizações completas — espelhos para dilemas humanos. De Vulcanos a Borg, explicamos como cada raça funciona como ferramenta narrativa para perguntas que a humanidade prefere evitar.

Existe um momento em ‘Jornada nas Estrelas: A Nova Geração’ que define tudo o que a franquia entende sobre alienígenas. O capitão Picard, torturado por cardassianos, grita “HÁ QUATRO LUZES!” — uma recusa em ceder à mentira de seu captor, mesmo sob dor extrema. Não é apenas uma cena de tensão. É a demonstração de que, em ‘Jornada nas Estrelas’, alienígenas nunca são apenas monstros ou figuras decorativas. São espelhos. Os cardassianos representam o autoritarismo que quebra o espírito; Picard, a resistência humana que ele não consegue destruir. Essa é a razão pela qual as espécies Jornada nas Estrelas se tornaram icônicas de uma forma que nenhum outro sci-fi alcançou: elas não existem para serem “diferentes” — existem para nos mostrar quem nós somos.

A maioria das obras de ficção científica trata alienígenas como obstáculos ou cenário. Em ‘Star Wars’, eles habitam cantinas exóticas. Em ‘Doctor Who’, servem como ameaças semanais. ‘Jornada nas Estrelas’, criada por Gene Roddenberry em 1966, fez algo radicalmente diferente: criou civilizações completas, com filosofias, falhas e contradições — e as usou para fazer perguntas que a humanidade prefere evitar. O resultado? Seis décadas depois, você pode dizer “viva longo e próspero” para um estranho na rua e receber de volta a saudação vulcana, mesmo que a pessoa nunca tenha visto um episódio. Isso não é marketing. É mitologia.

Vulcanos: a raça que provou que alienígenas podiam ser personagens completos

Vulcanos: a raça que provou que alienígenas podiam ser personagens completos

É impossível falar de Vulcanos sem começar por Spock. Não apenas o personagem mais reconhecível da franquia, mas uma das figuras mais influentes da cultura pop do século XX. Leonard Nimoy construiu algo que não tinha precedentes: um alienígena que não era monstro nem comic relief, mas um ser complexo dividido entre duas heranças — a lógica vulcana e a emoção humana. Cada episódio da série original explorava essa tensão de formas diferentes, e o público se identificou de uma maneira que ninguém previu.

O que torna os Vulcanos revolucionários é o que eles representam filosoficamente. Uma civilização que escolheu a lógica como disciplina de sobrevivência, suprimindo emoções violentas que quase os destruíram. Não é uma negação da natureza emocional — é uma escolha consciente de não ser escravo dela. Spock, por sua herança mista, vive no limiar dessa escolha, e sua jornada é constantemente sobre encontrar equilíbrio. Isso é roteiro adulto disfarçado de aventura espacial.

A iconografia vulcana transcende a série. A saudação de mão espalmada, a frase “viva longo e próspero”, as orelhas pontudas — tudo isso entrou no vocabulário visual global com a mesma força que o “S” do Superman. Mas o mais impressionante é como a franquia manteve essa relevância. Quando ‘Jornada nas Estrelas: A Nova Geração’ (1987-1994) precisou de um substituto para o arco do “personagem que busca humanidade”, criou Data — um androide que, na prática, ocupava o mesmo espaço narrativo. Funcionou, mas nunca com a mesma ressonância. A franquia entendeu: Vulcanos são insubstituíveis porque representam uma pergunta que não envelhece — o que ganhamos e perdemos quando escolhemos a razão sobre o impulso?

Klingons: de vilões soviéticos a guerreiros honoráveis

Se existe uma raça que demonstra a capacidade de ‘Jornada nas Estrelas’ de evoluir com seu tempo, são os Klingons. Na série original (1966-1969), eram alegorias óbvias da União Soviética — o inimigo da Guerra Fria, de aparência quase humana, com sobrancelhas carregadas e maquiagem bronzer. Funcionavam como antagonistas funcionais, sem profundidade real. Mas quando a franquia migrou para o cinema, algo mudou radicalmente.

Em ‘Jornada nas Estrelas: O Filme’ (1979), os Klingons ganharam a aparência que conhecemos hoje: testas ossudas, feições marcantes, uma estética brutal que comunicava força antes de uma palavra ser dita. Mais importante, ganharam cultura. O que era um stand-in genérico para “o inimigo” se tornou uma civilização guerreira com código de honra próprio, rituais complexos e uma filosofia de vida que, embora alienígena, era internamente consistente. A mudança não foi cosmética — foi conceitual.

O momento decisivo veio com Worf em ‘A Nova Geração’. Pela primeira vez, um Klingon era parte da tripulação heroica, e isso permitiu explorar a cultura klingon de dentro. Descobrimos que a agressividade não era selvagera descontrolada — era expressão de um sistema de valores onde honra, família e legado importavam mais que a sobrevivência individual. Worf, criado por humanos, lutando para se conectar com sua herança, se tornou uma das arquiteturas narrativas mais ricas da franquia. O que começou como metáfora rasa de Guerra Fria virou uma das mitologias mais elaboradas da ficção científica — completa com língua construída, falada por fãs em convenções ao redor do mundo.

Borg: o pesadelo coletivista que aterrorizou gerações

Borg: o pesadelo coletivista que aterrorizou gerações

Diferente de outras raças da franquia, os Borg não são uma civilização no sentido tradicional. São um coletivo — uma mente de colmeia que assimila espécies inteiras, transformando indivíduos em drones desprovidos de vontade própria. A inspiração óbvia são os Cybermen de ‘Doctor Who’, mas os Borg adicionam uma camada que os torna singularmente perturbadores: você ainda consegue ver quem a pessoa era. Pedaços do indivíduo original permanecem visíveis no drone, criando uma mistura de horror e piedade que poucos vilões conseguem.

A batalha de Wolf 359, apresentada no episódio duplo “The Best of Both Worlds” (1990), é um dos momentos mais sombrios da franquia. Os Borg assimilaram Picard e usaram seu conhecimento para destruir 39 naves da Frota Estelar. Não foi apenas uma derrota militar — foi uma violação pessoal. O capitão que representava o melhor da humanidade foi transformado em arma contra tudo o que ele defendia. A recuperação de Picard dessa experiência ecoa ao longo de sua vida, e a franquia nunca permitiu que o trauma fosse simplesmente “resolvido”.

O que torna os Borg únicos entre as espécies Jornada nas Estrelas é sua impossibilidade de integração. Vulcanos, Klingons, até Romulanos — todos encontraram caminhos para coexistir com a Federação, mesmo que de forma tensa. Os Borg não podem. Sua existência é baseada na eliminação da diversidade, na absorção de tudo o que é diferente. Eles representam o medo fundamental de perder a individualidade, de se tornar apenas uma célula em um organismo maior. Em uma era de algoritmos que moldam comportamento e redes sociais que recompensam conformidade, os Borg se tornaram mais relevantes do que nunca.

Romulanos e Cardassianos: as faces sombrias da política interestelar

Se os Borg representam o horror existencial, Romulanos e Cardassianos representam o horror político — e isso os torna assustadores de forma diferente. Os Romulanos foram introduzidos no episódio “Balance of Terror” (1966), e desde o início foram concebidos como espelhos sombrios dos Vulcanos. Mesma ascendência, escolhas diferentes. Onde Vulcanos abraçaram a lógica como disciplina, Romulanos abraçaram a paixão — mas direcionada para paranoia, manipulação e desconfiança constante.

“Balance of Terror” também estabeleceu algo que se tornaria marca registrada de ‘Jornada nas Estrelas’: o thriller de submarino espacial. A Enterprise e a nave romulana nunca se veem diretamente; a tensão é construída através de táticas, leitura de padrões, expectativa do movimento do inimigo. Essa abordagem foi aperfeiçoada em ‘Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan’ (1982), e permanece uma das ferramentas narrativas mais eficazes da franquia.

Já os Cardassianos representam algo diferente: o autoritarismo burocrático. Introduzidos em ‘A Nova Geração’, ganharam profundidade real em ‘Deep Space Nine’ (1993-1999), especialmente através de dois personagens que definiram a raça de formas opostas. Gul Dukat é o fascista carismático que acredita genuinamente que sua crueldade é necessária — um estudo sobre como tiranos se justificam. Elim Garak é o espião exilado, moralmente flexível mas estranhamente ético, amplamente lido como o primeiro personagem gay da franquia, mesmo que a série nunca tenha confirmado explicitamente.

A ocupação cardassiana de Bajor é um dos arcos mais sombrios que ‘Jornada nas Estrelas’ já abordou. Campos de trabalho, tortura sistemática, trauma geracional — a série usou ficção científica para falar sobre ocupação militar e crimes de guerra de forma direta. E a escolha dos Cardassianos de se aliar ao Dominion, a ameaça que colocou toda a galáxia em risco, demonstra como autoritarismo e ambição podem cegar até os mais calculistas.

O legado: como essas raças mudaram o sci-fi para sempre

Antes de ‘Jornada nas Estrelas’, alienígenas na ficção científica eram predominantemente dois tipos: monstros a serem derrotados ou figuras exóticas de fundo. A franquia mudou isso permanentemente ao tratar suas espécies como civilizações completas — com história, filosofia, contradições internas e capacidade de evoluir. Vulcanos não são apenas “os lógicos” — são um povo que escolheu a lógica como sobrevivência. Klingons não são apenas “os agressivos” — têm um código de honra complexo que governa cada aspecto da vida. Borg não são apenas “o inimigo” — são uma pergunta sobre o valor da individualidade.

O impacto cultural é mensurável de formas concretas. A saudação vulcana é reconhecida globalmente. A frase “resistência é fútil” entrou no vocabulário comum. Klingons ganharam sua própria língua construída, falada por fãs ao redor do mundo. Nenhuma outra franquia de ficção científica criou iconografia alienígena que penetrou a cultura dessa forma — nem ‘Star Wars’, nem ‘Doctor Who’, nem qualquer outra.

Mas o verdadeiro legado está no que essas raças permitem que a franquia faça: contar histórias sobre humanidade através da distância confortável do alienígena. Quando ‘Jornada nas Estrelas’ quer falar sobre racismo, usa Romulanos e Vulcanos como metáfora. Quando quer explorar autoritarismo, usa Cardassianos. Quando quer questionar o equilíbrio entre razão e emoção, usa Vulcanos. Quando quer confrontar medo de perder identidade, usa Borg. As espécies Jornada nas Estrelas não são worldbuilding por worldbuilding — são ferramentas narrativas para fazer perguntas que seriam difíceis de abordar diretamente.

Seis décadas depois, a promessa de ‘Jornada nas Estrelas’ permanece relevante: um futuro onde a humanidade superou suas divisões e explora o cosmos. Mas o verdadeiro brilho da franquia está em como ela usa o “outro” — alienígenas de todas as formas — para nos obrigar a olhar para nós mesmos. Cada raça é uma pergunta. Cada episódio é uma tentativa de resposta. E essa combinação de entretenimento e reflexão é o que separa ‘Jornada nas Estrelas’ de tudo que veio antes ou depois.

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Perguntas Frequentes sobre as Espécies de Jornada nas Estrelas

Qual a diferença entre Vulcanos e Romulanos?

Vulcanos e Romulanos compartilham a mesma ascendência ancestral, mas seguiram caminhos opostos. Vulcanos escolheram a lógica como disciplina para controlar emoções destrutivas. Romulanos abraçaram a paixão, mas a direcionaram para paranoia, manipulação política e desconfiança. Na série, isso os torna espelhos morais um do outro.

Quantas raças alienígenas existem em Jornada nas Estrelas?

A franquia apresentou mais de 400 espécies alienígenas ao longo de suas seis séries e 13 filmes. Porém, apenas cerca de 20 possuem desenvolvimento cultural significativo na tela. Vulcanos, Klingons, Borg, Romulanos, Cardassianos, Ferengi e Bajorans são as mais exploradas.

Em qual série os Borg apareceram primeiro?

Os Borg apareceram pela primeira vez em ‘Jornada nas Estrelas: A Nova Geração’, no episódio “Q Who” (1989). Foram apresentados por Q como uma ameaça que a Federação não estava preparada para enfrentar. O episódio duplo “The Best of Both Worlds” (1990) consolidou os Borg como vilões principais.

Por que os Klingons mudaram de aparência entre a série original e os filmes?

Na série original (1966-1969), limitações de orçamento e maquiagem deixaram os Klingons com aparência quase humana. Em ‘Jornada nas Estrelas: O Filme’ (1979), com mais recursos, ganharam testas ossudas e feições marcantes. A franquia depois explicou essa mudança canonicamente em ‘Enterprise’ (2005) como resultado de experimentos genéticos.

Qual a raça mais popular entre os fãs de Jornada nas Estrelas?

Vulcanos são amplamente considerados a raça mais popular, com Spock sendo o personagem mais icônico da franquia. Klingons ocupam o segundo lugar, com sua língua construída (tlhIngan Hol) tendo mais falantes fluentes que muitas línguas naturais em risco de extinção.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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