‘Barry’: de comédia dark a terror psicológico na obra-prima da HBO

Analisamos como ‘Barry série’ evolui de comédia dark para terror psicológico ao longo de quatro temporadas. Entenda por que Bill Hader criou uma obra que subverte o gênero crime e se diferencia de ‘Breaking Bad’ e ‘Dexter’ — com uma tese perturbadora sobre redenção impossível.

Existe um momento em ‘Barry’ que define tudo. Não é uma cena de ação coreografada, nem um monólogo engraçado. É quando Barry Berkman, o assassino de aluguel interpretado por Bill Hader, olha para si mesmo no espelho e você percebe: aquele homem não tem redenção. A série que começou como uma comédia excêntrica sobre um matador tentando virar ator terminou como algo completamente diferente — um estudo de caso em terror psicológico sobre um sociopata que nunca entendeu que era o vilão da história. Barry série não é apenas uma das melhores produções da HBO; é uma aula de como subverter expectativas sem perder coerência.

Quando estreou em 2018, a premissa parecia um sketch alongado demais: matador profissional descobre paixão por teatro e tenta conciliar as duas carreiras. Soava como piada pronta. Quatro temporadas depois, ‘Barry’ se consolidou como uma das obras mais originais da televisão contemporânea — não por sustentar uma premissa absurda, mas por transformá-la em algo que nenhum de nós esperava: um mergulho na psique de alguém incapaz de empatia, disfarçado de protagonista simpático.

Como ‘Barry’ subverte o gênero crime desde o primeiro episódio

Como 'Barry' subverte o gênero crime desde o primeiro episódio

A maioria das séries sobre criminosos funciona com uma promessa implícita: vamos te fazer torcer por alguém que, no mundo real, você desprezaria. ‘Breaking Bad’ construiu Walter White como um homem encurralado pelas circunstâncias. ‘Dexter’ criou um serial killer com código moral. ‘Barry’ faz algo mais perturbador — ele nos apresenta um protagonista que já nasce quebrado, mas gasta quatro temporadas nos fazendo questionar se isso importa.

Ao contrário de Walter White, que começa como vítima do sistema e se corrompe gradualmente, Barry Berkman já é um assassino profissional quando conhecemos sua história. Ele não está “entrando no crime” — está tentando sair. A série nunca romantiza essa transição. Quando Barry diz que quer mudar, há um buraco onde deveria estar a genuína motivação moral. Ele quer ser ator porque busca validação, não redenção. Essa distinção é crucial e se torna cada vez mais clara conforme a narrativa avança.

A comparação com ‘John Wick – De Volta ao Jogo’ surge naturalmente — ambos são matadores profissionais retirados. Mas onde Wick é um profissional competente cercado por um mundo estilizado, Barry é um homem quebrado cuja “competência” é apenas sintoma de sua incapacidade de se conectar com outras pessoas de forma genuína. As cenas de ação em ‘Barry’ não são elegantes; são desconfortáveis, frequentemente filmadas com uma estranheza que sublinha o absurdo da violência.

A metamorfose do humor para o horror psicológico

Se você assistiu à primeira temporada de ‘Barry série’ hoje, dificilmente imaginaria onde ela terminaria. Aqueles episódios iniciais equilibram comédia e tensão com maestria — há sequências de assassinato filmadas como se fossem sketches do SNL, momentos de humor físico genuinamente engraçados, e uma leveza que faz você pensar: “isso é uma dark comedy inteligente”. Mas Bill Hader e sua equipe de roteiristas estavam nos preparando para algo mais ambicioso.

A transição é gradual, quase imperceptível. Na segunda temporada, os momentos engraçados começam a ter um aftertaste amargo. Na terceira, o humor se torna escasso, substituído por uma tensão crescente. Quando chegamos à quarta e última temporada, ‘Barry’ não é mais uma comédia — é um estudo de horror psicológico sobre um homem que se recusa a aceitar quem é.

O episódio “ronny/lily”, da segunda temporada, marca o ponto de virada. Nele, Barry invade uma casa em busca de seu alvo e o que poderia ser uma sequência de ação rotineira se transforma em algo de outro mundo — há uma menina saltando entre árvores como um espírito da floresta, um pai com dentes que parecem presas, e uma violência que parece ter escapado de um filme de terror folclórico. Hader dirige o episódio com uma precisão que lhe rendeu o Emmy de Melhor Direção, e não é difícil entender por quê: ali, a série declarou suas intenções reais.

Por que Barry Berkman nunca foi o herói da história

Por que Barry Berkman nunca foi o herói da história

É aqui que ‘Barry’ se separa definitivamente de ‘Dexter’ e outras séries sobre anti-heróis criminosos. Dexter Morgan, apesar de ser um serial killer, operava com um código — ele só matava outros assassinos. A série nos dava uma justificativa moral, por mais frágil que fosse. Barry não tem código. Ele mata quem é pago para matar, e quando as coisas dão errado, ele mata para se proteger.

O que torna isso fascinante é como a série nos manipula a torcer por ele mesmo assim. Henry Winkler, em uma atuação que lhe rendeu o Emmy de Melhor Ator Coadjuvante, serve como contraponto moral como o professor de atuação Gene Cousineau — alguém que, apesar de todos os defeitos, possui genuína capacidade de crescimento. A relação entre Barry e Gene é o coração emocional da série, e também sua fonte de maior tragédia.

Ao longo das quatro temporadas, Barry comete atos que seriam imperdoáveis em qualquer protagonista tradicional. Ele mata pessoas que amamos. Ele destrói vidas inocentes. Mas a série mantém uma tensão constante: será que ele vai finalmente entender? Será que vai ter redenção? A resposta final é brutal em sua honestidade — e redefiniu completamente o que ‘Barry série’ estava dizendo desde o início.

A reinvenção de Bill Hader: de comediante a auteur

Antes de ‘Barry’, Bill Hader era conhecido como um dos grandes impressionistas do SNL e como ator coadjuvante em comédias como ‘Superbad: É Hoje’, ‘Trovão Tropical’ e ‘Ressaca de Amor’. Ninguém duvidava de seu talento cômico, mas poucos imaginavam que ele tinha esse alcance dramático. Em ‘Barry’, Hader não apenas protagoniza — ele co-cria, escreve e dirige, estabelecendo-se como um cineasta completo. Os oito Emmys que a série conquistou ao longo de sua trajetória — incluindo três para Hader como ator e um como diretor — confirmam o reconhecimento dessa transformação.

A direção de Hader merece atenção específica. Ele desenvolveu um estilo visual que bebe dos Coen Brothers — especialmente na forma como situações absurdas derivam para tragicomédia existencial — e do suspense hitchcockiano clássico, com sua obsessão por identidades trocadas e culpados errados. Mas Hader não copia; sintetiza. Os planos-sequência em ‘Barry’ não são exibicionismo técnico — servem para criar uma sensação de armadilha, de tempo real que não permite escape. A forma como ele filma violência, especialmente nas temporadas finais, evita sensacionalismo em favor de um desconforto existencial.

Hader também provou ser um diretor de ação surpreendentemente competente. As sequências de perseguição e tiroteio em ‘Barry’ têm uma clareza espacial que muitos blockbusters de ação invejariariam. Mas novamente, a diferença está na intenção — essas cenas nunca são apenas “legais”. Elas servem ao tema central de um homem que só sabe resolver problemas através da violência.

O veredito: uma obra que merece ser analisada, não apenas assistida

‘Barry’ não é uma série para todos. Se você busca a gratificação de ver um anti-herói se redimir, vai sair frustrado. Se quer comédia consistente do início ao fim, vai se decepcionar com a evolução tonal. Mas se aceita acompanhar uma narrativa que tem a coragem de seguir sua lógica interna até as últimas consequências, esta é uma das experiências mais recompensadoras da televisão recente.

A série funciona como um espelho para nosso desejo de redenção fácil. Queremos que Barry mude porque gostamos dele, porque Bill Hader o interpreta com uma vulnerabilidade que nos engana. Mas ‘Barry’ nos força a confrontar uma verdade desconfortável: algumas pessoas não mudam porque não querem, e outras não mudam porque não conseguem. Barry pode ser ambas.

Para quem curte análise de cinema e televisão que vai além do óbvio, ‘Barry série’ oferece camadas que merecem ser desdobradas. A transformação de comédia para horror não é gimmick — é a própria tese da obra. O que acontece quando você coloca um sociopata no centro de uma narrativa tradicional de redenção? A resposta que Hader e sua equipe construíram é perturbadora, honesta e, no final das contas, profundamente humana — mesmo quando nos mostrando a ausência de humanidade.

Se você ainda não viu, vá sem expectativas de gênero. ‘Barry’ vai te fazer rir, depois vai te fazer questionar por que estava rindo, e finalmente vai te deixar com um vazio que demora para passar. Não são muitas as obras que conseguem essa transformação. Ainda menos que a sustentam por quatro temporadas sem perder o rumo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Barry’

Onde assistir a série ‘Barry’?

‘Barry’ está disponível na HBO Max (agora Max) no Brasil. Todas as quatro temporadas podem ser assistidas na plataforma.

Quantas temporadas tem ‘Barry’ e a série tem final fechado?

‘Barry’ tem 4 temporadas (32 episódios no total) e terminou em maio de 2023 com um final definitivo e fechado. Bill Hader e Alec Berg sempre planejaram quatro temporadas, então não há final aberto ou cliffhangers.

‘Barry’ ganhou prêmios importantes?

Sim. ‘Barry’ conquistou 8 Emmys, incluindo Melhor Ator em Comédia para Bill Hader (duas vezes), Melhor Ator Coadjuvante para Henry Winkler, e Melhor Direção para Hader pelo episódio “ronny/lily”.

Para quem ‘Barry’ é recomendado?

‘Barry’ é para quem aprecia narrativas que subvertem gêneros e não têm medo de se tornar desconfortáveis. Não é indicado para quem busca comédia leve ou a gratificação de ver um anti-herói se redimir. A classificação indicativa é 16 anos.

Preciso ter visto algo antes de ‘Barry’?

Não. ‘Barry’ é uma obra original e independente. Conhecimento prévio de teatro ou de filmes de crime ajuda a perceber referências, mas não é necessário para acompanhar a narrativa.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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