‘This Is Not a Test’: adaptação de zumbi do Shudder decepciona crítica especializada

Com 41% no Rotten Tomatoes, ‘This Is Not a Test’ falha onde o gênero zumbi mais precisa: inovação. Analisamos por que a adaptação do livro de Courtney Summers desperdiça cenário, elenco e temas — e o que isso diz sobre o esgotamento do gênero.

Existe um momento em todo gênero cinematográfico precisa olhar para o espelho e se perguntar: “Ainda tenho algo novo a dizer?” O cinema de zumbis chegou nesse ponto há pelo menos uma década — e a maioria dos realizadores parece ignorar a resposta. ‘This Is Not a Test’, nova produção do Shudder que chegou aos cinemas neste 20 de fevereiro, é mais um exemplo de um filme que não fez essa pergunta fundamental.

Os números do Rotten Tomatoes não mentem: 41% de aprovação em 22 avaliações é um sinal claro de que algo não funcionou. Mas os números são apenas o sintoma. A doença é mais profunda e diz respeito a uma indústria que continua apostando em fórmulas gastas esperando que o público não perceba a repetição.

O que ‘This Is Not a Test’ tentou ser (e onde errou)

O que 'This Is Not a Test' tentou ser (e onde errou)

Baseado no romance YA de Courtney Summers publicado em 2012, o filme tem uma premissa que, no papel, soa promissora: adolescentes presos em uma escola durante um apocalipse zumbi, forçados a confrontar não apenas os mortos-vivos, mas seus próprios demônios internos. A ideia de misturar horror com dinâmicas de coming-of-age não é nova — ‘It Follows’ e ‘The Faculty’ fizeram isso com sucesso — mas ainda há espaço para abordagens frescas.

O problema é que o diretor Adam MacDonald não encontra essa abordagem. MacDonald vem de ‘Backcountry’ (2014), um thriller de sobrevivência na natureza que funcionava precisamente por sua simplicidade: poucos personagens, uma ameaça tangível, tensão construída com recursos mínimos. A transição para o horror sobrenatural deveria ser natural — ambos os filmes dependem de confinamento e paranoia. Mas onde ‘Backcountry’ extraía terror do silêncio e da ameaça invisível, ‘This Is Not a Test’ aposta em jump scares e gore estilizado sem nunca estabelecer uma atmosfera própria.

A crítica técnica aponta falta de polimento, mas vou além: o filme sofre de uma crise de identidade. Quer ser terror visceral, quer ser drama adolescente, quer ser comentário sobre trauma — e termina sendo nenhum dos três de forma convincente. Reconheço a ambição. Adaptar um livro que circula temas pesados como ética de sobrevivência e trauma para uma linguagem visual requer sensibilidade. Mas sensibilidade sem técnica é como ter uma boa história e não saber contá-la — e é exatamente isso que acontece aqui.

O cenário confinado que nunca explora seu potencial

Uma escola à noite, corredores vazios, salas de aula transformadas em armadilhas potenciais. O cenário deveria ser personagem — como o shopping em ‘Dawn of the Dead’ ou o trem em ‘Train to Busan’. MacDonald, no entanto, trata a localização como backdrop genérico. Não há senso de geografia: os personagens se movem de sala em sala sem que o público entenda a disposição do espaço, o que elimina qualquer possibilidade de tensão baseada em conhecimento espacial.

Compare isso com ‘One Cut of the Dead’, onde um único cenário é explorado de formas que redefinem completamente como lemos aquele espaço. Ou com ‘Host’, do próprio Shudder, que transformou uma chamada de Zoom em ambiente de terror genuíno através de enquadramentos criativos e uso de som. ‘This Is Not a Test’ tem um cenário rico e faz nada com ele.

Olivia Holt: o único brilho em meio à escuridão

Olivia Holt: o único brilho em meio à escuridão

Se há algo que salva ‘This Is Not a Test’ de ser um desastre completo, é Olivia Holt. A atriz, conhecida pelo público Disney, demonstra uma versatilidade que poucos esperavam. Screen Rant acertou na descrição: ela entrega “screams viscerais e vulnerabilidade trêmula” com uma autenticidade que o resto do filme não alcança.

Holt carrega o peso emocional da narrativa nos ombros, mas o roteiro não lhe dá estrutura suficiente para sustentar. É como pedir para alguém construir uma casa com ferramentas quebradas — o talento está lá, os recursos não. O elenco de apoio, infelizmente, não está no mesmo nível. Essa disparidade cria um efeito estranho na tela: quando Holt está em foco, o filme ganha vida; quando a câmera se volta para os coadjuvantes, a tensão esvai. Em um gênero que depende do investimento do público em TODOS os personagens em risco, isso é fatal.

O problema maior: o gênero zumbi parou no tempo

Volto à pergunta inicial: o cinema de zumbis ainda tem algo a dizer? ‘This Is Not a Test’ responde com um silêncio constrangedor.

Pense no que o gênero produziu de relevante na última década. ‘Train to Busan’ (2016) reinventou a tensão confinada. ‘The Girl with All the Gifts’ (2016) trouxe uma perspectiva científica perturbadora. ‘One Cut of the Dead’ (2017) desconstruiu a própria linguagem do horror com brilhantismo metalinguístico. Cada um desses filmes olhou para as convenções do gênero e disse: “E se fizéssemos diferente?”

‘This Is Not a Test’ olha para essas convenções e diz: “Vamos repetir.” Não há inovação na forma como os zumbis são apresentados, na construção da tensão ou nos sustos. O gore estilizado e a trilha punk-rock que algumas críticas mencionam como pontos positivos são superficiais — enfeites em um bolo cuja massa está sem gosto.

A falha mais grave: temas sem conclusão

A falha mais grave: temas sem conclusão

O aspecto mais frustrante de ‘This Is Not a Test’ é sua recusa em assumir uma posição. O filme “circula temas pesados de trauma e ética de sobrevivência sem chegar a uma postura coerente”, como apontou a crítica de Screen Rant. Isso não é complexidade — é indecisão.

Grandes filmes de horror dizem algo sobre a condição humana. ‘Night of the Living Dead’ de Romero era sobre racismo e consumismo. ’28 Days Later’ abordava o colapso social pós-traumático. Até mesmo ‘Shaun of the Dead’, uma comédia, tinha algo a dizer sobre imaturidade masculina e estagnação. ‘This Is Not a Test’ levanta questões interessantes — como a moralidade de sobrevivência em grupo quando recursos escasseiam — mas as abandona no meio do caminho. O público sai do cinema se perguntando “o que exatamente deveria levar disso?”, e essa não é uma pergunta que um filme bem construído deveria deixar sem resposta.

Veredito: para fãs hardcore de zumbi (e só para eles)

Vou ser direto: se você consome qualquer coisa com zumbis e se satisfaz com sangue estilizado e uma boa trilha sonora, ‘This Is Not a Test’ pode valer seu tempo. A performance de Olivia Holt merece ser vista, e há momentos de tensão genuína espalhados pelo runtime.

Mas se você procura o cinema de horror que faz pensar, que perturba, que permanece dias depois de os créditos rolarem — este não é o filme. O gênero de zumbis provou repetidamente que pode ser veículo para reflexões profundas sobre humanidade, sociedade e moralidade. ‘This Is Not a Test’ ignora essa tradição e entrega o mínimo exigível.

O Shudder construiu sua reputação apostando em horror que desafia expectativas — ‘Host’, ‘The Dark and the Wicked’, ‘Mad God’. Esta produção fica abaixo do padrão que a plataforma estabeleceu. Talvez o maior teste que ‘This Is Not a Test’ enfrentou não fosse o apocalipse na tela, mas o teste de relevância em um gênero saturado. E por esse critério, o filme foi reprovado.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘This Is Not a Test’

Onde assistir ‘This Is Not a Test’?

‘This Is Not a Test’ é uma produção original do Shudder que estreou nos cinemas em 20 de fevereiro de 2026. Deve chegar ao streaming da plataforma em algumas semanas após o lançamento theatrical.

‘This Is Not a Test’ é baseado em livro?

Sim. O filme é adaptação do romance YA de mesmo nome de Courtney Summers, publicado em 2012. O livro é narrado em primeira pessoa pela protagonista Sloane e é conhecido por seu tom sombrio e abordagem crua de trauma.

Quem dirigiu ‘This Is Not a Test’?

O filme foi dirigido por Adam MacDonald, cineasta canadense conhecido pelo thriller de sobrenatural ‘Backcountry’ (2014). Esta é sua segunda incursão no gênero horror após o debut com ‘Pyewacket’ (2017).

Qual a classificação indicativa de ‘This Is Not a Test’?

Nos EUA, o filme recebeu classificação R (menores de 17 acompanhados de responsável) por violência sangrenta, linguagem e temas perturbadores. No Brasil, deve receber classificação 16 anos.

Para quem ‘This Is Not a Test’ é recomendado?

O filme é recomendado para fãs hardcore do gênero zumbi que conseguem apreciar gore estilizado e trilha punk-rock mesmo quando a narrativa é fraca. Para quem busca horror inteligente ou inovador, há opções melhores no catálogo do próprio Shudder.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também