‘Esquema de Risco’: por que o filme de Statham e Guy Ritchie explode na Prime Video

O thriller de Guy Ritchie que fracassou no cinema agora domina o streaming. Analisamos por que ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ funciona melhor em casa — e como o elenco transforma o que poderia ser mais um filme de ação em entretenimento de qualidade.

Há algo fascinante em ver um filme que fracassou no cinema encontrar seu público no streaming. Não é o primeiro caso, nem será o último — mas ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ é um exemplo particularmente interessante desse fenômeno. Lançado em 2023 com um orçamento de 50 milhões de dólares e uma bilheteria pífia de 49 milhões, a parceria entre Jason Statham e Guy Ritchie passou quase despercebida nos cinemas. Agora, é o filme mais assistido do Prime Video nos Estados Unidos. Por quê?

A resposta está no tipo de experiência que o filme oferece. Em uma era de blockbusters de três horas que exigem compromisso religioso do espectador, ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ faz outra coisa: entrega entretenimento competente sem pretensão de ser mais do que é. E isso, paradoxalmente, é raro demais hoje em dia.

A quinta colaboração Ritchie-Statham que você provavelmente pulou

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Essa parceria tem história — e a trajetória ajuda a situar o que Ritchie tentou aqui. Começou em 1998 com ‘Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes’, um filme que redefiniu o crime britânico no cinema com sua estrutura não-linear e diálogos afiados. Depois veio ‘Snatch: Porcos e Diamantes’ em 2000, consolidando o estilo. ‘Revólver’ em 2005 foi o momento em que Ritchie se perdeu em sua própria pretensão metafísica. E ‘Infiltrado’ em 2021 marcou um retorno à forma — um thriller de crime organizado que funcionava exatamente porque sabia o que queria ser.

‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ pertence a essa linhagem, mas opera em um registro diferente. É a primeira vez que Ritchie e Statham mergulham no gênero de espionagem — e a diferença de tom é imediata. Enquanto os filmes anteriores equilibravam humor e violência com um peso existencial subjacente, este aqui assume uma leveza deliberada. É um filme de espionagem que sabe que já vimos James Bond fazer de tudo — então escolhe se divertir em vez de competir.

O resultado é algo que críticos pareceram não saber como avaliar. Os 51% no Rotten Tomatoes entre especialistas sugerem confusão: o filme é inteligente demais para ser descartado como lixo, mas leve demais para ser levado a sério como “verdadeiro cinema”. Os 82% do público contam outra história. O espectador comum entendeu o que Ritchie estava fazendo: um filme de sábado à noite que não insulta sua inteligência enquanto entrega o que promete.

Por que o elenco faz toda a diferença

Jason Statham interpreta Orson, um espião de elite que, em vez de ser um exército de um homem só, trabalha com uma equipe. Essa escolha narrativa é fundamental para o funcionamento do filme — e é onde o elenco de apoio brilha. Aubrey Plaza interpreta Sarah, a especialista em tecnologia da equipe, e sua presença muda completamente a dinâmica que esperaríamos de um thriller de ação Statham. A química entre eles funciona porque Plaza não está lá para ser “a mulher do filme” — ela tem timing cômico afiado e entrega suas falas com uma ironia que complementa o estoicismo natural de Statham.

Hugh Grant, como o bilionário traficante de armas Greg Simmonds, continua a fase iniciada em ‘Os Gentlemen’ de subverter sua imagem de galã romântico britânico. Ele claramente se diverte interpretando um vilão carismático e desprezível — e essa diversão é contagiosa. Josh Hartnett, como o astro de cinema recrutado para a missão, faz um trabalho discreto mas eficaz como o “peixe fora d’água” que precisa sobreviver a um mundo que não compreende.

O que torna esse elenco especial não é apenas o talento individual, mas como Ritchie os usa. Em vez de focar exclusivamente em Statham como centro gravitacional, o filme funciona como uma peça de conjunto. As cenas de confronto verbal — especialmente os encontros entre Statham e Grant, onde o vilão oferece jantares extravagantes enquanto ameaças veladas pairam no ar — geram mais tensão e humor do que qualquer perseguição de carro. É nessas sequências que o estilo de Ritchie aparece em sua melhor forma: diálogos rápidos, cortes precisos, e um ritmo que acelera e desacelera como uma conversa de pub.

O fracasso de bilheteria que faz sentido

O fracasso de bilheteria que faz sentido

O fracasso comercial nos cinemas agora parece inevitável. Não é um filme que demande a tela grande — não há grandiosidade visual ou sequências de ação que justificam o preço do ingresso. A fotografia é funcional, limpa, sem os exageros visuais que Ritchie já experimentou. Isso funciona a favor do filme quando assistido em casa: não há detalhes perdidos em uma tela pequena, e o ritmo de duas horas encaixa perfeitamente em uma sessão de fim de semana sem compromisso.

Há também o contexto de lançamento. Chegou em 2023, um ano repleto de blockbusters que exigiam investimento emocional do público. Quando você competia contra ‘Oppenheimer’ e ‘Barbie’ no mesmo período, um thriller de espionagem leve com Jason Statham parecia… esquecível. Não porque fosse ruim, mas porque o mercado não deixava espaço para o “meramente entretenido”.

Isso revela algo sobre a indústria atual. Filmes de orçamento médio com estrelas de ação têm encontrado mais sucesso no streaming do que nos cinemas — não por falta de qualidade, mas porque o modelo de exibição mudou. O público aprendeu que certos filmes valem mais o conforto de casa do que a “experiência” do cinema. ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ é exatamente esse tipo de filme.

Veredito: o filme que você não sabia que precisava

Assisti numa sexta à noite, sem expectativas, e foi exatamente isso que fez o filme funcionar. ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ não vai mudar sua vida. Não é o filme que você vai citar em conversas sobre as grandes obras do cinema. Mas é exatamente isso que o torna valioso. Em um cenário onde todo lançamento parece precisar ser “evento”, ter um filme que simplesmente funciona — que é bem dirigido, bem atuado, engraçado nos momentos certos e tenso quando precisa — já é uma raridade.

Para fãs da parceria Ritchie-Statham, é uma adição sólida ao cânone. Não alcança os picos de ‘Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes’ ou ‘Snatch: Porcos e Diamantes’, mas supera a auto-indulgência de ‘Revólver’. Para quem gosta de thrillers de espionagem mas está cansado da seriedade constante de Bond ou da grandiosidade exagerada de ‘Mission: Impossible’, oferece uma alternativa refrescante — algo com o espírito brincalhão de ‘Kingsman’, mas com diálogos que têm mais interesse em ser afiados do que em citar cultura pop.

A recomendação é específica: se você busca entretenimento inteligente para um fim de semana, sem compromisso de maratonar um universo cinematográfico ou decifrar metáforas existenciais, esse é seu filme. Se você precisa que cada filme que assiste seja uma obra-prima, passe adiante. Mas talvez seja hora de questionar essa necessidade — às vezes, um filme bem feito que nos faz rir e nos mantém interessados por duas horas já é suficiente.

‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ está no Prime Video agora. O fato de estar em #1 nos Estados Unidos sugere que mais gente descobriu essa verdade do que os números de bilheteria indicariam. Às vezes, o público sabe reconhecer valor melhor que a crítica — e melhor que os estúdios que não souberam vender esse filme da forma certa.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’

Onde assistir ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’?

O filme está disponível exclusivamente no Amazon Prime Video. É um original da plataforma, lançado em janeiro de 2023.

Quanto tempo dura ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’?

O filme tem 1 hora e 54 minutos de duração. É uma sessão compacta, ideal para uma noite de sexta ou sábado sem compromisso.

Precisa ver outros filmes de Guy Ritchie antes?

Não. ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ é uma história original e independente. Conhecer o estilo de Ritchie ajuda a apreciar os diálogos e o humor britânico, mas não é necessário para entender ou se divertir.

‘Esquema de Risco’ tem cenas pós-créditos?

Não. O filme tem uma conclusão fechada e não há cenas durante ou após os créditos finais.

Para quem ‘Esquema de Risco: Operação Fortune’ é recomendado?

Para quem gosta de thrillers de espionagem com humor, fãs de Jason Statham ou do estilo de Guy Ritchie. Funciona bem para quem quer entretenimento sem compromisso — não é para quem busca ação frenética tipo ‘John Wick’ ou profundidade existencial.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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