‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’: a ironia trágica do final explicado

O final de ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ prende Becket pelo único crime que não cometeu — uma ironia construída por Julia, sua manipuladora. Analisamos como a sátira usa essa reviravolta para expor o custo moral da ganância.

Existem ironias que são cruéis, e existem ironias que funcionam como espelho moral. O final de ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ entrega os dois tipos: Becket, que matou meia dúzia de parentes para garantir uma herança, é preso pelo único crime que não cometeu. A mulher que o manipula do início ao fim — Julia — é o reflexo deformado de tudo que ele se tornou. Não é apenas uma reviravolta narrativa; é a síntese de uma sátira que nunca riu de seus personagens, apenas os expôs.

O filme acompanha Becket (Glen Powell), oitavo na linha de sucessão de uma fortuna familiar colossal. Criado em circunstâncias modestas após sua mãe ser ostracizada por engravidar jovem, ele cresce nutrindo um ressentimento silencioso contra os parentes que o rejeitaram. Quando adulto, frustrado com suas perspectivas e reencontrando Julia — uma socialite com quem teve um breve vínculo na infância —, Becket decide eliminar a concorrência. O plano é simples, a execução é metódica, e a consequência é o tema central do filme: o que acontece quando você consegue tudo que quer, mas perde tudo que precisava.

Como o triângulo amoroso revela a verdadeira queda moral de Becket

Como o triângulo amoroso revela a verdadeira queda moral de Becket

A estrutura dramática de ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ usa o triângulo amoroso como metáfora explícita da jornada moral do protagonista. De um lado, Julia: a primeira paixão, símbolo de ambição desmedida e manipulação fria. Do outro, Ruth: professora do ensino médio que abandonou um emprego prestigioso por encontrar mais sentido em ensinar do que em acumular. A escolha entre as duas nunca é apenas romântica — é existencial.

O que torna Becket um protagonista curiosamente simpático, apesar de seus atos monstruosos, é a forma como o filme demonstra sua capacidade genuína de conexão. Ele realmente se afeiçoa por Ruth. Cria um laço real com o tio Warren — o único parente que não consegue matar, e que morre de causas naturais. Há uma humanidade residual nele que o diferencia dos Redfellow que elimina. Mas essa humanidade é sistematicamente sacrificada no altar da ganância.

A gota d’água é o momento em que Becket abandona sua própria festa de noivado com Ruth para lidar com a chantagem de Julia. A escolha é simbólica: ele opta pela mulher que representa sua ambição em vez da mulher que representa sua humanidade. Quando Ruth descobre a verdade — que ele matou Noah, o ex-namorado dela — a ruptura é definitiva. Becket fica sozinho com Julia. Sozinho com o espelho.

A ironia trágica do crime que Becket não cometeu

Aqui reside o núcleo satírico mais afiado do filme: Becket é preso pelo assassinato do marido de Julia — o único morto relevante que ele não causou. A construção narrativa é meticulosa. Julia orquestra tudo. Ela exige que Becket confronte seu marido como parte de um esquema de chantagem. Depois, quando o marido aparece morto em seu escritório, Becket se torna o suspeito óbvio. Ele tem motivo, oportunidade, e um histórico de violência que a polícia desconhece, mas que o torna moralmente culpado de algo.

O que Julia oferece é um acordo cínico: a fortuna de Becket em troca de “provas” de que o marido cometeu suicídio. Provas que ela mesma fabricou. O filme sugere, sem explicitar completamente, que Julia matou o próprio marido e usou Becket como bode expiatório perfeito. A ironia é brutal: um homem que matou seis pessoas para conseguir uma herança é chantageado por um crime que não cometeu, por uma mulher que representa exatamente o tipo de pessoa que ele se tornou.

A expressão final de Becket — nos limites das lágrimas, percebendo o abismo moral que abraçou — é o fechamento perfeito para uma sátira que nunca permitiu que seu protagonista escapasse das consequências de suas escolhas. O diretor Richard Linklater captura esse momento em close restrito, sem trilha sonora, forçando o espectador a habitar o vazio interior do personagem. É um plano de dez segundos que parece durar uma eternidade — e que condensa todo o argumento do filme: ele consegue a fortuna, perde Ruth, perde a liberdade plena, ganha Julia como “parceira” em um arranjo construído sobre chantagem mútua.

O que o final diz sobre ganância e o custo do sucesso

‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ é uma adaptação livre de ‘As Oito Vítimas’, peça de Richard Connell, mas transporta a premissa para um contexto contemporâneo onde a crítica social se torna mais afiada. O filme não é apenas sobre herança; é sobre uma sociedade que celebra a riqueza como virtude intrínseca e trata pessoas comuns como descartáveis. Becket não é um vilão de opereta — é o produto lógico de um sistema que lhe prometeu que dinheiro equivale a valor próprio.

O elemento mais trágico do arco de Becket é que ele encontra felicidade genuína em lugares que não envolvem dinheiro: Ruth, Warren, as memórias da mãe. A riqueza que ele persegue obsessivamente nunca lhe dá nada que ele não pudesse ter conseguido de outras formas. Julia funciona como o contraponto perfeito — não é heroína nem vilã cartunesca, é o reflexo de Becket, alguém que também está disposta a fazer qualquer coisa para garantir seu futuro. A diferença é que ela é mais competente em manipulação do que ele jamais foi.

O filme dialoga com outras sátiras de ganância como ‘Knives Out’ e ‘Succession’, mas escolhe um caminho mais sombrio: não há catarse, nem redenção, nem lição moral explícita. Há apenas o retrato de pessoas que escolheram a ganância sobre a humanidade, e descobriram tarde demais que o preço dessa escolha é a solidão moral absoluta.

Para quem é o filme: Fãs de sátiras negras como ‘The Menu’ e ‘American Psycho’ vão apreciar o tom implacável. Quem busca comédia romântica ou final redentor deve procurar outro título.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’

Quem matou o marido de Julia no final?

O filme sugere fortemente que Julia matou o próprio marido e usou Becket como bode expiatório. Ela fabricou provas de suicídio para chantagear Becket, mas a narrativa nunca confirma explicitamente sua culpa.

Becket é preso no final do filme?

Sim. Becket é preso pelo assassinato do marido de Julia — ironicamente, o único crime relevante que ele não cometeu. Ele consegue a herança, mas vive sob chantagem de Julia e perde Ruth definitivamente.

O filme é baseado em alguma obra?

Sim. ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ é adaptação livre da peça ‘As Oito Vítimas’ de Richard Connell, autor famoso pelo conto ‘O Jogo Mais Perigoso’.

Onde assistir ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’?

O filme está disponível na Amazon Prime Video desde seu lançamento em 2024. Glen Powell (Top Gun: Maverick) protagoniza como Becket.

Qual é a ironia principal do final?

A ironia central é que Becket mata seis parentes para herdar uma fortuna, mas é preso pelo assassinato do marido de Julia — crime que ele não cometeu. Ele é destruído por sua própria ganância, não pela justiça.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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