Uma década depois, revisitamos ‘A Bruxa’ de Robert Eggers e descobrimos que o tempo revelou fissuras antes invisíveis. Analisamos como o debut que lançou Anya Taylor-Joy envelheceu e por que suas falhas de elenco e ritmo não diminuem seu status de clássico do terror moderno.
Existe um tipo de filme que divide públicos e críticos na estreia e, uma década depois, revela camadas que nem seus defensores originais perceberam. A Bruxa Robert Eggers completa dez anos em 2026 carregando um status curioso: é simultaneamente um clássico do terror moderno e uma obra cujas fissuras tornaram-se mais visíveis com o tempo. Essa tensão entre “grande filme” e “filme imperfeito” é exatamente onde reside seu interesse duradouro.
Quando estreou, o longo foi acusado de ser “lento demais” e “pouco assustador” por parcela do público — críticas que diziam mais sobre expectativas mal direcionadas do que sobre a obra em si. Mas uma década de distância permite algo que o calor do lançamento não permitia: enxergar A Bruxa não como uma declaração perfeita de um novo autor, mas como o que realmente é — um debut impressionante com falhas que, ironicamente, tornam seu estudo ainda mais fascinante.
A atmosfera que Eggers construiu — e como ela envelheceu
Reassistir A Bruxa hoje, após O Farol e O Homem do Norte, é testemunhar o nascimento de uma obsessão estética. Eggers não apenas recriou a Nova Inglaterra do século XVII com precisão arqueológica — ele criou um método. A fotografia expressionista, os diálogos em inglês arcaico autenticamente pesquisados, a recusa em explicar o sobrenatural: tudo isso se tornaria marca registrada do diretor.
A casa que a família constrói no isolamento da floresta é um marco de produção inteligente. Com orçamento modesto, Eggers transformou limitações em virtudes: a sensação de frio é palpável, não porque vemos neve em todo momento, mas porque a direção de arte entende que cabanas mal isoladas, roupas grosseiras e fogo crepitante comunicam temperatura melhor que qualquer efeito visual. A floresta ao redor — aquela que engole Samuel nos primeiros minutos — funciona como personagem, ameaça e metáfora religiosa simultânea.
Mas é na comparação com sua obra posterior que A Bruxa revela suas limitações. Os 92 minutos de duração expõem um problema estrutural: Eggers tinha mais história do que tempo permitia, e certas escolhas pagam o preço dessa compressão.
Anya Taylor-Joy e o nascimento de uma estrela — enquanto o elenco desequilibra
O aspecto mais duradouro de A Bruxa é, sem dúvida, a estreia cinematográfica de Anya Taylor-Joy. Sua Thomasin carrega o filme com uma naturalidade que contradiz sua inexperiência na época. A cena de confissão — quando ela reza ajoelhada enquanto a família dorme — demonstra sutileza que a maioria dos atores experientes não consegue: o rosto comunica culpa, desejo de libertação e medo de si mesmo em camadas sobrepostas. Não é surpresa que ela se tornou uma das atrizes mais requisitadas de sua geração.
Ralph Ineson e Kate Dickie, como os pais mergulhados em crise de fé, entregam performances que merecem mais reconhecimento. Ineson comunica a fragilidade de um patriarca que sabe ter falhado sua família, enquanto Dickie — especialmente na cena de luto pelo bebê perdido — mostra como o fanatismo religioso pode ser simultaneamente consolo e prisão.
O problema surge com o elenco infantil. Harvey Scrimshaw, como Caleb, frequentemente parece rígido em momentos que exigiriam fluidez emocional. Sua atuação melhora significativamente quando o personagem entra em estado possuído — onde a fisicalidade exagerada funciona —, mas nas cenas de diálogo cotidiano, a diferença de nível entre ele e Taylor-Joy torna-se evidente. Os gêmeos Mercy e Jonas têm arcos que sugerem complexidade (comportamentos estranhos, conversas com o bode Black Phillip) que o filme nunca desenvolve plenamente.
O horror visceral — e suas escolhas questionáveis
Eggers optou por um terror gótico autêntico, e isso inclui nudez e imagens que deliberadamente evitam qualquer estetização sensual. A bruxa que sequestra Samuel é apresentada de forma visceral e repulsiva — não uma vilã elegante, mas uma criatura enrugada e grotesca. A intenção é clara: o sobrenatural aqui é sujo, físico, desagradável.
Entretanto, uma década depois, certas escolhas levantam questões que o contexto de 2015 abafou. A sequência em que Caleb, em estado febril e possuído, tem pensamentos incestuosos sobre a irmã é narrativamente justificável — comunica a corrupção completa da inocência — mas visualmente desconfortável de maneiras que não servem totalmente à história. A nudez da bruxa em múltiplos momentos funciona para desromantizar o sobrenatural, mas corre o risco de repulsão barata.
Não se trata de censura ou moralismo retrospectivo, mas de reconhecer que nem tudo que é “perturbador por design” é efetivamente “perturbador por execução”. Eggers aprenderia a equilibrar melhor esse fio em O Farol, onde o horror é igualmente visceral mas mais controlado em sua apresentação.
Temas que resistem — e os que ficaram pelo caminho
O grande triunfo de A Bruxa é sua análise do fanatismo religioso como armadilha psicológica. A família é exilada por disputas teológicas que o filme sabiamente nunca explica — e essa omissão é genial. William e Katherine não foram expulsos por serem “mais puros” que os outros, mas por serem mais inflexíveis. Essa ironia permeia o filme: sua devoção extremada não os protege, mas os torna vulneráveis.
Thomasin, como adolescente reprimida sem sonhos próprios claramente articulados, é uma protagonista fascinante. Ela não quer “liberdade” no sentido moderno — quer apenas não ser sufocada. Sua falta de projetos pessoais não é falha de escrita, mas reflexo de uma criação que nunca a permitiu imaginar alternativas. Quando ela finalmente “escolhe” o diabo no final, a ironia é amarga: foi a única escolha genuína que pôde fazer.
Porém, a pressa narrativa mina alguns desses temas. Os gêmeos parecem ter suas próprias atividades de bruxaria — conversas com Black Phillip que sugerem conhecimento prévio do sobrenatural —, mas isso nunca se resolve. Um covil inteiro de bruxas aparece brevemente no final, expandindo o universo de formas que o filme não tem tempo de explorar. Fica a impressão de que Eggers tinha material para duas horas e precisou encaixar em 92 minutos.
O legado de um debut que não precisava ser perfeito
Classificar A Bruxa como “clássico imperfeito” não é insulto — é reconhecimento de que obras debutantes raramente são obras-primas completas. O filme estabeleceu Robert Eggers como um autor com visão clara, abriu portas para o terror de autor no mainstream americano, e lançou uma das carreiras mais interessantes da atualidade.
Seus defeitos — elenco desigual, compressão narrativa, escolhas visuais ocasionalmente questionáveis — são informativos. Mostram que até um cineasta rigorosamente controlado como Eggers comete erros em sua primeira saída. E mostram que um filme pode ser histórico sem ser irrepreensível.
Para quem nunca viu, A Bruxa está disponível na HBO Max e merece ser assistida com expectativas corretas: não é um filme de sustos convencionais, mas um estudo de atmosfera e fanatismo que usa o sobrenatural como espelho das patologias humanas. Para quem já viu, reassistir uma década depois é um exercício revelador — não para confirmar sua genialidade, mas para compreender como grandes filmes carregam imperfeições que o tempo torna visíveis.
Se Eggers aprendeu com essas fissuras, seus filmes subsequentes são a prova. Se A Bruxa permanece relevante apesar delas, é porque seu núcleo temático — a família como primeira instituição a falhar, a fé como consolo e prisão, a adolescência como estado de sítio — transcende qualquer falha de execução. Clássicos não precisam ser perfeitos. Às vezes, precisam apenas ser honestos o suficiente para que suas imperfeições se tornem parte de sua lição.
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Perguntas Frequentes sobre ‘A Bruxa’
Onde assistir ‘A Bruxa’ de Robert Eggers?
‘A Bruxa’ está disponível na HBO Max no Brasil. O filme também pode ser alugado ou comprado em plataformas digitais como Apple TV, Google Play e Amazon Prime Video.
Quanto tempo dura ‘A Bruxa’?
O filme tem 92 minutos de duração. Apesar do ritmo lento, a narrativa é enxuta — embora alguns críticos argumentem que Eggers tinha material para um filme mais longo.
‘A Bruxa’ é baseado em fatos reais?
Não é baseado em uma história real específica, mas em relatos históricos autênticos. Eggers pesquisou diários, registros judiciais e textos religiosos do século XVII para recriar o período com precisão, incluindo o inglês arcaico falado pelos personagens.
‘A Bruxa’ tem jump scares?
Não no sentido convencional. ‘A Bruxa’ é um filme de terror atmosférico que constrói medo através de clima, tensão religiosa e horror psicológico — não através de sustos repentinos. Quem busca esse tipo de experiência pode se frustrar.
Preciso ver ‘A Bruxa’ antes de ‘O Farol’?
Não. Os filmes de Robert Eggers são obras independentes sem conexão narrativa. ‘O Farol’ (2019) pode ser assistido separadamente, embora ver ‘A Bruxa’ primeiro permita perceber a evolução do estilo visual e temático do diretor.

