Adam Wingard deixou A Outra Face 2, e a Paramount recomeça do zero após 29 anos. Analisamos o que essa saída significa para o legado de John Woo, o possível retorno de Cage e Travolta, e por que alguns filmes não precisam de sequência.
Há uma ironia perfeita no fato de A Outra Face 2 ter perdido seu diretor. O filme original de 1997 é literalmente sobre identidades trocadas, sobre alguém assumindo o lugar de outro — e agora, o projeto vive seu próprio drama de substituição. Adam Wingard estava conectado à sequência desde 2021, mas segundo o Collider, abandonou o barco. A Paramount recomeça do zero. Quase 30 anos depois do original, a pergunta que fica não é apenas “quem vai dirigir?”, mas “faz sentido continuar tentando?”
Para entender o que essa saída significa, preciso voltar ao que A Outra Face representa. Não era apenas um filme de ação — era a síntese do cinema de John Woo em Hollywood, a obra onde seu estilo operático encontrou o orçamento e os astros certos para brilhar. Nicolas Cage e John Travolta não interpretavam personagens; eles interpretavam um ao outro interpretando seus personagens. Era camadas sobre camadas de performance, elevada por tiros em câmera lenta e pombas voando em cenários eclesiásticos. Tentar replicar essa alquimia em 2026 é, no mínimo, ambicioso.
Wingard fazia sentido — mas sua saída pode ser libertadora
Adam Wingard não era uma escolha aleatória. O diretor provou em Godzilla vs. Kong e Godzilla e Kong: O Novo Império que sabe manejar blockbusters com estilo visual próprio — aquele neon vibrante, aquela energia de videogame que salta da tela. Em teoria, alguém que consegue fazer kaijus parecerem divertidos poderia injetar vida nova em uma franquia que depende de exagero para funcionar.
Mas aqui está o problema: o exagero de Woo é teatral, quase barroco. O de Wingard é pop, hipermoderno. São linguagens diferentes. Quando Wingard foi anunciado em 2021, confesso que fiquei cético. Não por dúvida do seu talento — The Guest é um dos thrillers mais subestimados dos anos 2010 — mas porque seu estilo não parece ter a gravidade necessária para carregar o legado de A Outra Face. A saída dele, portanto, pode ser uma oportunidade disfarçada de crise. A Paramount agora tem chance de buscar alguém mais alinhado com o DNA operático do original.
O Collider sugere que a agenda lotada de Wingard e o desenvolvimento prolongado contribuíram para a saída. Ele tem Onslaught, filme de terror da A24, engatado há um ano sem data de estreia. Somando isso ao tempo que A Outra Face 2 já passou no purgatório do desenvolvimento — desde 2019, com David Permut e Neal Moritz como produtores — e a desistência começa a fazer sentido. Diretores não ficam eternamente disponíveis.
O peso de seguir John Woo quase três décadas depois
Qualquer diretor que assumir A Outra Face 2 enfrenta um problema que vai além de logística: a sombra de John Woo. O cineasta chinês construiu uma filmografia onde a violência é coreografada como balé, onde a câmera gira ao redor de personagens em conflito como se testemunhasse um duelo sagrado. A Outra Face foi o aporte disso no mainstream americano — e rendeu a Woo um Saturn Award de melhor diretor, além de indicação ao Oscar de edição de efeitos sonoros.
Os números não mentem: $245 milhões de bilheteria mundial, 93% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes, 82% do público. O filme superou Hércules da Disney em sua estreia doméstica. Era o tipo de sucesso que parece inimaginável hoje — um blockbuster de ação original, sem propriedade intelectual prévia, estrelado por dois atores em seu auge.
Replico a sequência do hangar no final toda vez que penso em A Outra Face. Cage e Travolta em luta livre, trocando socos enquanto barcos explodem ao redor. A câmera de Woo acompanha cada movimento com a precisão de quem coreografou cada frame mentalmente antes de rodar. Isso não se replica contratando um diretor de segunda viagem.
Cage e Travolta: o retorno que ninguém pediu, mas todo mundo quer ver
A grande incógnita de A Outra Face 2 sempre foi: como trazer os protagonistas de volta? O original termina com uma resolução relativamente definitiva — sem spoilers para quem não viu, mas digamos que a troca de faces tem consequências permanentes. Ainda assim, a expectativa era de que Nicolas Cage e John Travolta pudessem reprisar seus papéis.
O problema é que Cage e Travolta estão em momentos muito diferentes de suas carreiras hoje. Cage vive um renascimento criativo impressionante — O Peso do Talento foi um dos melhores filmes de 2022, e seu trabalho como voz de Spider-Man no Aranhaverso provou que ele entende seu próprio legado com ironia e afeto. Ele vai estrelar Spider-Noir na Prime Video. O ator que fez 60 Segundos, Adaptation, Motoqueiro Fantasma e Snowden: Herói ou Traidor agora escolhe projetos com critério.
Já Travolta teve uma trajetória mais irregular pós-A Outra Face. Bruxa de Blair, Surpresa em Dobro, Gotti – O Chefe da Máfia — nem todo filme brilhou. Seus momentos mais altos recentes vieram da televisão, como em The People v. O. J. Simpson. Trazer ambos de volta para uma sequência requer um roteiro que justifique suas presenças, não apenas explore nostalgia.
O que acontece agora — e por que o “open directing assignment” preocupa
A Paramount está tratando a substituição de Wingard como um “open directing assignment” — basicamente, uma audição aberta onde diretores apresentam suas visões para o projeto. Isso pode parecer democrático, mas na prática costuma indicar falta de direção clara. Estúdios que sabem exatamente o que querem vão atrás de diretores específicos. Quando abrem para pitches genéricos, geralmente é porque não fazem ideia de para onde levar a propriedade.
Não é impossível que isso funcione. Às vezes, a pessoa certa aparece quando ninguém esperava. Mas o histórico de A Outra Face 2 não inspira confiança: desde 2019 no desenvolvimento, agora recomeçando do zero após perder o único diretor que parecia comprometido. Projetos que demoram demais para sair do papel tendem a carregar cicatrizes — reescritas constantes, visões conflitantes, executivos mudando de opinião a cada trimestre.
Se eu fosse apostar, diria que A Outra Face 2 ainda vai acontecer. O nome é forte demais para a Paramount abandonar. Mas a pergunta que me intriga é: deveria? Alguns filmes são completos em si mesmos. A Outra Face é um deles — uma explosão de criatividade que capturou um momento específico do cinema de ação, quando Woo pôde fazer o que queria com os recursos que merecia. Forçar uma continuação quase 30 anos depois, sem o diretor original e com astros envelhecidos, soa mais como aposta financeira do que necessidade artística.
Vou ser direto: se a sequência acontecer, torço para que a Paramount encontre alguém que respeite o material original sem tentar copiá-lo. Woo não precisa de imitadores — precisa de herdeiros que entendam sua gramática. E Cage e Travolta merecem um roteiro à altura do que construíram em 1997. Se isso não for possível, talvez o melhor legado de A Outra Face seja permanecer como está: intocável, absurdo, perfeito em sua insanidade.
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Perguntas Frequentes sobre A Outra Face 2
A Outra Face 2 foi cancelado?
Não. O projeto segue em desenvolvimento na Paramount, mas perdeu o diretor Adam Wingard e voltou à estaca zero. O estúdio está buscando um novo realizador.
Por que Adam Wingard saiu de A Outra Face 2?
Segundo o Collider, a combinação de agenda lotada e o desenvolvimento prolongado do projeto contribuíram para a saída. Wingard tem outros filmes engatilhados, incluindo o terror Onslaught na A24.
Nicolas Cage e John Travolta vão voltar para A Outra Face 2?
A expectativa é que ambos retornem, mas nada está confirmado oficialmente. Cage vive um momento alto na carreira, enquanto Travolta teve trajetória mais irregular. Um roteiro forte seria essencial para justificar o retorno.
A Outra Face 2 tem data de estreia?
Não há data de estreia definida. Com a saída do diretor e o projeto voltando ao estágio inicial de desenvolvimento, qualquer previsão seria prematura.
John Woo vai dirigir A Outra Face 2?
Não há indicações de que John Woo retorne para a sequência. A Paramount está em busca de um novo diretor através de um processo aberto de seleção.

