‘Os Abandonados’, série da Netflix criada por Kurt Sutter, inverte o western ao colocar Lena Headey e Gillian Anderson como matriarcas rivais. Analisamos se a temporada única — cancelada antes da continuação — entrega história suficiente para justificar suas 5 horas de maratona.
Western sempre foi território de homens durões. O patriarca que protege sua terra, o xerife que impõe a lei, o pistoleiro errante que resolve problemas com balas. De ‘Yellowstone’ a ‘1923’, essa fórmula foi refinada e repetida até o cansaço. Os Abandonados chega na Netflix com uma proposta diferente: e se as mulheres mandassem no Velho Oeste?
A premissa soa como reviravolta de marketing, mas a execução se sustenta. Lena Headey e Gillian Anderson comandam o show como matriarcas rivais, e a dinâmica de poder entre elas gera algo que o gênero raramente oferece — conflito que não depende de quem atira primeiro.
Kurt Sutter e a subversão do seu próprio estilo
O criador de ‘Filhos da Anarquia’ não é exatamente sinônimo de narrativas femininas. Sutter construiu carreira explorando masculinidade tóxica, códigos de honra entre homens, violência como linguagem. Em ‘Os Abandonados’, ele inverte a própria fórmula — e o resultado é seu trabalho mais interessante em anos.
A série, lançada em dezembro de 2025, chega em momento oportuno. O público já conhece a fórmula Sheridan: paisagens vastas, disputas territoriais, segredos de família. John Dutton em ‘Yellowstone’, Jacob Dutton em ‘1923’, Royal Abbott em ‘Além da Margem’ — todos homens segurando as rédeas de impérios familiares. Funciona comercialmente, mas começa a cansar criativamente.
Aqui, a disputa central é entre Fiona Nolan (Headey), uma mulher que acolhe órfãos em sua fazenda, e Constance Van Ness (Anderson), matriarca de uma dinastia rica que quer aquela terra. O roteiro não faz troca cosmética de gênero. A perspectiva muda genuinamente. A violência existe, mas não é a linguagem dominante de poder.
Fiona constrói autoridade através de comunidade — sua força vem dos laços que cria. Constance exerce poder através de instituições e dinheiro — sua força vem do que compra. O choque entre essas abordagens produz tensão mais complexa do que o habitual “quem tem a arma maior”.
Lena Headey e Gillian Anderson: o duelo que sustenta a série
Headey chegou aqui com bagagem específica. Depois de Cersei Lannister em ‘Game of Thrones’, ela conhece o território de mulheres que sobrevivem em mundos hostis. Fiona não é Cersei — tem moralidade que a rainha de Westeros nunca teve — mas carrega a mesma determinação fria quando precisa proteger os seus.
Há uma cena no terceiro episódio que resume a diferença: Fiona confronta um grupo de homens armados sem erguer a voz. A câmera se mantém em plano médio, estática, enquanto ela fala. Não há trilha sonora enfática, não há cortes rápidos. A tensão vem inteiramente da performance de Headey — os micro-movimentos faciais, a postura que não cede, o silêncio entre as frases. É direção de ator no seu mais eficaz.
Gillian Anderson, por sua vez, constrói uma antagonista que nunca descamba para o caricatural. Constance Van Ness acredita estar certa. Sua ambição territorial vem de uma lógica interna consistente — proteger o legado da família, expandir o que construiu. Isso torna o conflito mais interessante do que “mãe bondosa vs. rica má”. Ambas têm razões compreensíveis. Ambas estão dispostas a ir longe demais.
O elenco de apoio traz rostos conhecidos do universo Sutter. Ryan Hurst, o Opie de ‘Filhos da Anarquia’, empresta sua prescência física imponente para um papel que funciona como ponte entre os mundos de ambas as matriarcas. Michiel Huisman, também veterano de ‘Game of Thrones’, entrega um personagem que serve aos interesses de Constance sem ser servil — um homem que escolheu seu lado, mas mantém agência.
5 horas compactas: formato como virtude
Sete episódios, com duração entre 35 e 54 minutos. O total dá aproximadamente 5 horas — uma noite de sofá, talvez duas se você prefere saborear em vez de devorar. O formato compacto funciona a favor da série: não há gordura narrativa, cada cena avança a trama ou desenvolve personagem.
O ritmo é uma das virtudes. Westerns tendem a se arrastar em nome de “atmosfera” — planos longos de paisagens, silêncios estendidos, caminhadas que duram minutos. Aqui, a atmosfera existe nos enquadramentos amplos do oeste canadense (onde foi filmado), mas não sacrifica momentum. A série sabe que você tem cinco horas, não quinze, e respeita isso.
A fotografia de Rohn Schmidt merece menção. Ele trabalhava com Sutter desde ‘Filhos da Anarquia’, e aqui aplica paleta similar — tons terrosos dominantes, contraste acentuado entre interiores escuros e exteriores ofuscantes. A diferença está no uso de luz natural: as cenas externas têm textura quase documental, enquanto os interiores das mansões de Constance são fotografados como pinturas a óleo, com sombras profundas e velas como fonte principal. É uma distinção visual clara entre os mundos das duas protagonistas.
O final da temporada funciona como encerramento satisfatório. Há setup para continuação — ganchos óbvios, arcos não resolvidos completamente — mas o clímax do sétimo episódio é conclusivo o suficiente para deixar satisfeito quem busca uma história com destino. É o tipo de desfecho que diz “se acabou aqui, valeu a pena. Se continuar, ótimo”.
O cancelamento e a questão do “vale a pena começar?”
A Netflix cancelou Os Abandonados após uma temporada. Para alguns, isso é razão automática para pular: “por que investir tempo em algo sem futuro?”
Entendo a hesitação. Vivemos uma era de séries interrompidas, de arcos que nunca encontram resolução, de investimentos emocionais não recompensados. Mas aqui está o contraponto: nem toda história precisa de cinco temporadas. Às vezes, uma jornada bem contada vale mais que uma saga interminável que perde o fio na metade.
A temporada única de ‘Os Abandonados’ entrega conflito estabelecido, desenvolvimento satisfatório e um desfecho que fecha um ciclo. Não é um cliffhanger cruel do tipo “descubra no próximo episódio quem morreu”. É uma conclusão com portas abertas, que é diferente de conclusão inexistente.
Se você curte western e quer algo que não demande compromisso de anos, isso pode ser vantagem. É a diferença entre ler um romance autossuficiente e começar uma série de sete volumes que talvez nunca termine.
Para quem vai funcionar — e para quem vai desistir
Se você assistiu ‘Yellowstone’ e achou a dinâmica familiar interessante, mas se esgotou do patriarcado como motor narrativo, essa série é sua próxima maratona. O confronto entre matriarcas oferece variação suficiente no tema para parecer fresco sem alienar quem gosta do gênero.
Se você prefere western tradicional — o pistoleiro solitário, a lei do mais forte, homens falando pouco e atirando muito — talvez sinta falta do que conhece. A série não rejeita a violência, mas a coloca em segundo plano. As armas existem, mas não definem os personagens.
Para fãs de Lena Headey ou Gillian Anderson, é essencial. Ambas têm tempo de tela generoso e espaço para construir mulheres que escapam dos arquétipos de “mãe sofredora” ou “vilã unidimensional”.
Para quem busca maratona de fim de semana sem compromisso prolongado, os números falam: 5 horas, 7 episódios, história com começo, meio e fim funcional. Em uma era de séries com 20 episódios de uma hora cada, isso é raridade prática.
Vale a pena maratonar ‘Os Abandonados’?
Os Abandonados não vai reinventar o western. Não tem a ambição visual de ‘Terra Indomável’ ou a profundidade mitológica de ‘1923’. O que oferece é algo mais modesto, mas não menos válido: uma história com perspectiva fresca, em formato que respeita seu tempo, interpretada por duas atrizes que entendem poder feminino na tela.
O cancelamento é frustrante? Sim, especialmente porque a série demonstrava potencial para ir mais longe. Mas julgando o que existe — não pelo que poderia ter sido — é uma adição sólida ao catálogo de westerns da plataforma.
Se você tem uma noite livre e curiosidade por ver como Headey e Anderson encaram o Velho Oeste, vá fundo. A série entrega mulheres no poder, conflito de visões de mundo, e um espetáculo visual que justifica a existência no formato audiovisual.
Nem toda série cancelada é perda de tempo. Às vezes, é apenas uma história que disse tudo que tinha para dizer — e disse com competência.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Os Abandonados’
Onde assistir ‘Os Abandonados’?
‘Os Abandonados’ está disponível exclusivamente na Netflix desde dezembro de 2025. É uma produção original da plataforma.
Quantos episódios tem ‘Os Abandonados’?
A série tem 7 episódios, com duração entre 35 e 54 minutos cada. O total é aproximadamente 5 horas — dá para maratonar em uma noite.
‘Os Abandonados’ vai ter segunda temporada?
Não. A Netflix cancelou a série após a primeira temporada. O final, porém, funciona como encerramento satisfatório — não fica em cliffhanger cruel.
Quem criou ‘Os Abandonados’?
A série foi criada por Kurt Sutter, o mesmo criador de ‘Filhos da Anarquia’ (Sons of Anarchy). É uma mudança de rumo em sua filmografia, tradicionalmente focada em masculinidade e códigos de honra entre homens.
‘Os Abandonados’ é baseado em história real?
Não. A série é ficção original, ambientada no Velho Oeste americano, mas sem conexão com eventos ou personagens históricos reais.

