‘America’s Next Top Model’: documentário revela bastidores tóxicos do reality

O documentário ‘Reality Check’ expõe os bastidores tóxicos de ‘America’s Next Top Model’: casos de assédio, manipulação emocional e participantes mantidas isoladas em hotéis após eliminação. Uma análise necessária sobre a máquina de exploração por trás do reality que marcou os anos 2000.

Em 2003, ‘America’s Next Top Model’ era um programa que nenhum documentário ousaria questionar. Vinte e três anos depois, ‘Reality Check’ chegou para completizar essa frase de formas que ninguém previu. O docuseries da Netflix não apenas revisita um dos realities mais populares da história — ele desmonta, peça por peça, a máquina de exploração que funcionava nos bastidores de um programa que se vendia como porta de entrada para sonhos.

O resultado é desconfortável. E necessário. Assistir às ex-participantes reprocessarem suas experiências — agora com a distância emocional e o vocabulário que não tinham aos 19, 20 anos — é testemunhar um fenômeno coletivo de despertar. O programa que milhões assistiam como entretenimento inofensivo era, na verdade, um sistema de normalização de abusos que ia do fisicamente perigoso ao psicologicamente devastador.

Quando ‘empoderamento’ era a cortina de fumaça perfeita

Quando 'empoderamento' era a cortina de fumaça perfeita

Tyra Banks construiu ‘America’s Next Top Model’ com uma premissa sedutora: abrir portas para mulheres que o mundo da moda ignorava. Negras, latinas, asiáticas, plus size — o programa se posicionava como vanguarda da diversidade muito antes disso virar palavra-chave em boardrooms corporativos. Mas o documentário revela que essa narrativa de empoderamento funcionava como um escudo contra críticas. Como questionar um show que estava ‘dando oportunidades’?

A luta pela diversidade no Cycle 1 ilustra a contradição fundamental. Banks e o produtor Ken Mok tiveram que confrontar o presidente da Viacom, Les Moonves, para incluir mais mulheres negras no elenco. A disputa quase chegou às vias de fato. Isso é fato. Mas o documentário também mostra Giselle Samson, a latina incluída nessa batalha, refletindo sobre como a experiência destruiu sua autoestima em vez de construí-la. Profissionais da indústria criticavam partes específicas do corpo dela — incluindo sua ‘bunda larga’ — diante das câmeras. A porta que o programa abriu, em muitos casos, levava a lugar nenhum.

O caso que o documentário chama pelo nome certo: assalto

Dos vários momentos difíceis de assistir em ‘Reality Check’, nenhum é mais perturbador que o reexame do que aconteceu com Shandi Sullivan no Cycle 2. Em 2004, a edição do programa transformou um encontro sexual em Milão em um ‘escândalo de traição’ — Shandi, que tinha namorado, foi filmada com um motorista de Vespa, e a narrativa focou em sua humilhação e culpa.

O documentário reenquadra tudo. Shandi estava sob influência de álcool fornecido pela produção. As câmeras a seguiram para o quarto — algo que tecnicamente não poderia acontecer se ela estivesse sozinha, mas como havia um homem, as regras mudaram. A produção gravou ligações posteriores sobre proteção e DSTs. E quando questionado, Ken Mok se refere ao episódio como ‘um dos momentos mais memoráveis do Top Model’ — falando sobre o que muitos considerariam um estupro.

A revelação de que a violação do Super Bowl de Janet Jackson levou a regulações mais rígidas de transmissão — e que isso, não consideração ética, fez a produção cortar parte do material — é talvez a mais reveladora sobre a mentalidade por trás do programa. Não era sobre proteger participantes. Era sobre não ser processado.

A crueldade como roteiro: quando trauma pessoal vira ‘fashion’

A crueldade como roteiro: quando trauma pessoal vira 'fashion'

Há uma diferença entre ignorância e cálculo. O que ‘Reality Check’ revela sobre a photo shoot de ‘crime scene’ do Cycle 8 atravessa essa linha de formas que dificilmente podem ser atribuídas a ingenuidade dos anos 2000.

Dionne Walters, 20 anos, foi designada para posar como vítima de violência com arma de fogo. A produção sabia — porque ela havia declarado em sua inscrição — que sua mãe havia sobrevivido a um tiro e vivia paralisada há boa parte da vida da filha. A escolha não foi coincidência. Foi provocação emocional calculada disfarçada de ‘arte de alta costura’.

Ver Dionne, agora adulta, processar essa informação em tempo real no documentário é testemunhar algo que o programa original nunca permitiu: a voz da participante contextualizando sua própria exploração. Não há ‘você foi eliminada, pack your bags and leave’ para interromper a reflexão. Há espaço para a verdade.

Assédio normalizado como ‘parte do trabalho’

Um dos momentos mais reveladores de ‘Reality Check’ envolve Nigel Barker, o fotógrafo e jurado posicionado como a ‘voz racional’ do painel. No Cycle 4, Keenyah Hill interrompeu um ensaio após um modelo masculino tocá-la repetidamente e fazer ruídos sexualmente sugestivos que a deixaram visivelmente desconfortável. A cena foi ao ar. A reação do painel? Criticar Keenyah por não ser ‘brincalhona’ ou ‘sassy’ o suficiente.

Vinte anos depois, confrontado com a gravação, Barker não expressa arrependimento. Ele caracteriza o assédio como ‘a realidade do mundo da moda’. Essa normalização — de que mulheres em ambientes profissionais devem simplesmente aceitar comportamentos abusivos como parte do pacote — é exatamente o que permitiu que o programa operasse como operou por 24 ciclos.

Não era um bug do sistema. Era uma feature.

A tortura psicológica por trás do sorriso de Tyra

A tortura psicológica por trás do sorriso de Tyra

Jay Manuel, o ‘Mr. Jay’ que serviu como diretor criativo do programa por anos, descreve o Cycle 9 como ‘tortura psicológica’. A frase não é hipérbole de ex-funcionário amargo — é a descrição de alguém que esteve no núcleo da produção e viu, de dentro, como a dinâmica entre Tyra Banks e qualquer um que ousasse questionar sua autoridade funcionava.

Manuel considerou sair após o Cycle 8, frustrado com os ensaios que haviam passado de moda para espetáculo. Ele enviou um e-mail para Banks comunicando sua decisão. A resposta dela, três dias depois: ‘Estou decepcionada’. Três palavras. Nenhuma pergunta sobre seus motivos. Nenhum agradecimento por anos de colaboração. Advogados o convenceram a voltar para mais um ciclo. Na frente das câmeras, ele e Tyra eram amigos. Fora delas, ela se recusava a falar com ele.

Quando perguntada sobre Manuel no documentário, Banks recusa comentar: ‘Eu deveria ligar para o Jay, mas não quero fazer isso aqui.’ A fala é um microcosmo de tudo que ‘Reality Check’ expõe — uma mulher que construiu uma marca pública de mentoria e conexão emocional, mas que operava nos bastidores com um controle frio que não combina com nada da imagem que vendeu.

O segredo das eliminações: participantes não iam para casa

Talvez a revelação mais logísticamente manipuladora do documentário seja a descrição de como funcionavam as eliminações. As câmeras capturavam participantes ‘indo para casa’ — arrumando malas, saindo do apartamento modelo, aparentemente livres. Mas fora do frame, um assistente de produção as escoltava para um hotel próximo, onde permaneciam isoladas pelo restante das filmagens.

Sem contato com família. Sem amigos. Sem suporte emocional de qualquer tipo. Tyra Banks não oferecia nem um ‘você foi incrível’ pós-eliminação. A produção que construiu narrativas dramáticas em torno de cada saída não dedicava um minuto para o bem-estar real das mulheres que descartava.

Isso não é apenas crueldade televisiva. É um sistema desenhado para maximizar drama enquanto minimizava custos — emocionais, não financeiros. Os corações das participantes eram moeda de troca barata.

Por que ‘Reality Check’ importa em 2026

‘Reality Check’ não é apenas um exercício de retrospecção confortável — ‘olha como éramos ingênuos nos anos 2000’. É um documento sobre como a indústria do entretenimento opera quando ninguém está olhando. E considerando que realities de competição continuam dominando o streaming, com formatos que seguem pressionando participantes em nome de ‘conteúdo engajante’, as perguntas que o documentário levanta não são históricas. São urgentes.

Para quem cresceu assistindo ‘America’s Next Top Model’ — torcendo por favoritas, decorando nomes, absorvendo, talvez sem perceber, lições sobre corpos aceitáveis e comportamentos esperados — ‘Reality Check’ funciona como uma desprogramação necessária. O programa não era apenas entretenimento leve. Era uma máquina de ensinar mulheres a aceitarem menos: menos respeito, menos fronteiras, menos dignidade.

Para quem nunca assistiu ao original, o documentário funciona como um aviso. O conteúdo que parece inofensivo raramente é. E as pessoas que aparecem sorrindo na sua tela podem estar pagando preços que a edição nunca mostra.

‘Reality Check’ está disponível na Netflix. Vale cada um dos seus oito episódios — não pelo prazer de assistir, mas pela importância de entender.

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Perguntas Frequentes sobre o documentário de America’s Next Top Model

Qual é o nome do documentário sobre America’s Next Top Model?

O documentário chama-se ‘Reality Check’ e foi lançado na Netflix em 2026. A série tem oito episódios que revisitam os 24 ciclos do reality.

Onde assistir o documentário sobre America’s Next Top Model?

‘Reality Check’ está disponível exclusivamente na Netflix. A série é um original da plataforma.

Tyra Banks participa do documentário ‘Reality Check’?

Sim, Tyra Banks aparece no documentário, mas recusa comentar sobre vários casos, incluindo sua relação com Jay Manuel. Ex-participantes, jurados e produtores também dão depoimentos.

Quantos episódios tem o documentário ‘Reality Check’?

A série documental tem oito episódios, cada um focando em diferentes aspectos dos bastidores de ‘America’s Next Top Model’ — de casos de assédio à manipulação das eliminações.

Quais os principais casos expostos no documentário?

O documentário expõe: o caso de Shandi Sullivan (Cycle 2), cujo encontro sexual foi manipulado pela produção; a photo shoot de ‘crime scene’ com Dionne Walters (Cycle 8), cuja mãe havia sido vítima de tiro; o assédio sofrido por Keenyah Hill (Cycle 4) normalizado pelo painel; e o isolamento de participantes eliminadas em hotéis sem contato com família.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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