A morte de Baelor em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ e o erro que criou ‘Game of Thrones’

A morte acidental de Baelor Targaryen em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ mudou a linhagem real e criou a cadeia de eventos que levou ao Rei Louco — e consequentemente a toda a trama de ‘Game of Thrones’. Um golpe de maça reescreveu a história de Westeros.

Aviso: este texto contém spoilers de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ e revelações dos livros que a série ainda não adaptou.

Existe um tipo de morte em ficção que funciona como pedra caindo num lago — as ondas se espalham por décadas, séculos, às vezes milênios. A de Baelor Targaryen em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ é exatamente isso: um golpe acidental de maça que reescreveu toda a história de Westeros. E o mais perturbador? A maioria dos fãs de ‘Game of Thrones’ nem sabe que isso aconteceu.

A série da HBO sobre as aventuras de Dunk e Egg parece, à primeira vista, um romance de cavalaria distante dos jogos de poder que definiram a franquia. Sem dragões, sem incesto real, sem guerras épicas — apenas um cavaleiro errante e seu escudeiro calvo perambulando por um reino relativamente estável. Mas essa estabilidade é uma ilusão delicada, e o episódio 5 quebrou-a com uma precisão brutal.

Baelor Targaryen: o rei que Westeros perdeu antes de ter

Baelor Targaryen: o rei que Westeros perdeu antes de ter

Para entender a catástrofe, precisamos primeiro entender o que foi perdido. Baelor Targaryen não era apenas o herdeiro aparente do Trono de Ferro — ele era, por todas as contas, o tipo de rei que Westeros raramente produz: bondoso, justo, genuinamente amado pelo povo. Nas histórias de George R.R. Martin, esse perfil costuma ser sinônimo de “pessoa que vai morrer tragicamente antes de governar”.

O príncipe era o filho mais velho do Rei Daeron II, aquele que finalmente trouxe Dorne para dentro dos Sete Reinos através de casamento em vez de conquista. Uma dinastia de diplomatas, não de conquistadores. Se a linhagem de Baelor tivesse seguido seu curso natural, os Targaryen teriam continuado nessa veia — menos fogo e sangue, mais política e conciliação.

Mas o destino de Westeros não funciona com “curso natural”. Funciona com acidentes, coincidências e escolhas ruins feitas em momentos de pressão.

O julgamento dos sete: quando honra virou tragédia

A mecânica da morte de Baelor merece atenção porque é perfeitamente irônica — o tipo de coisa que só poderia sair da cabeça de um autor obcecado por consequências não intencionais. O príncipe participou de um “julgamento dos sete”, uma disputa medieval onde cada lado escolhe sete campeões para resolver questões de honra. Em teoria, Baelor estava entre os mais seguros no campo de batalha.

Afinal, os oponentes eram sua própria família e membros da Guarda Real — todos jurados a proteger o sangue real. A própria estrutura do julgamento supunha que ninguém levantaria uma arma contra o herdeiro do trono. Mas a física não respeita juramentos. Uma maça empunhada pelo Príncipe Maekar (pai do jovem Egg) atingiu Baelor na cabeça com força demais. O golpe foi “mais forte que o pretendido”, mas isso não importa quando o crânio racha.

O detalhe que torna tudo amargo: Maekar não queria matar o irmão. Foi um acidente no calor de uma batalha caótica. E desse acidente nasceu a linhagem que destruiria os Targaryen.

Do golpe de maça ao Rei Louco: a cadeia causal

Do golpe de maça ao Rei Louco: a cadeia causal

Aqui está onde a coisa se expande para proporções quase cósmicas. Com Baelor morto, a linha de sucessão sofreu uma mudança que parecia pequena na época mas que se ramificou como uma doença genética. Egg — aquele menino calvo e idealista que acompanha Dunk — eventualmente se tornou Rei Aegon V. E o filho desse Aegon, Jaehaerys II, gerou Aerys II.

Sim: o Rei Louco. Aquele que queimou Rickard Stark vivo. Aquele cuja obsessão por fogo destruiu a dinastia. Aquele cuja tirania provocou a rebelião de Robert Baratheon e criou o cenário inteiro de ‘Game of Thrones’.

Se Baelor tivesse sobrevivido e reinado, Aerys nunca teria chegado ao poder. Rhaegar Targaryen poderia ter sido um príncipe estudioso em vez de uma figura trágica morta no Tridente. Daenerys não teria nascido em Pedra do Dragão durante uma tempestade, não teria sido exilada, não teria voltado para queimar Porto Real.

Jon Snow? Se existisse, sua identidade não precisaria ser escondida — porque não haveria rebelião para justificar segredos. Ou talvez ele simplesmente não existisse, já que a cadeia de eventos que levou Lyanna Stark para a Torre da Alegria dependia de um Rhaegar obcecado por profecias em um reino já desmoronando.

Quase tudo que assistimos em oito temporadas de ‘Game of Thrones’ — as guerras, as traições, os dragões retornando, a Longa Noite, a destruição de Porto Real — começa com uma maça descontrolada em um campo de batalha onde ninguém deveria morrer.

A segunda ironia: Dunk e Egg salvaram a linhagem que destruiria Westeros

Mas Martin não para na primeira camada de ironia. Os livros revelam algo que a série ainda não mostrou — e que expande a tragédia para dimensões quase cruéis. Egg, já como rei, passa anos tentando trazer dragões de volta à vida. Seu método? Aquecer ovos petrificados, exatamente como Daenerys faria séculos depois.

O resultado foi catástrofe. O fogo escapou do controle. Egg e Dunk morreram nas chamas — mas não antes de Dunk salvar três pessoas: Aerys, sua esposa, e seu filho recém-nascido. O nome da criança? Rhaegar Targaryen.

Pensem nisso. O cavaleiro que indiretamente causou a morte de Baelor — iniciando a cadeia que levou Aerys ao trono — morre salvando Aerys e Rhaegar. Ele preservou a linhagem que criaria a guerra que destruiria Westeros. E tudo isso para tentar trazer dragões de volta, os mesmos dragões que Daenerys usaria para queimar uma cidade um dia.

É circular no nível mais sofisticado. É destino funcionando como uma máquina implacável.

George R.R. Martin e a arte de construir consequências

George R.R. Martin e a arte de construir consequências

A morte de Baelor Targaryen não é apenas um ponto de virada narrativo — é uma declaração de princípios sobre como o autor entende história. Martin construiu sua saga em torno de uma ideia simples mas devastadora: grandes catástrofes nascem de pequenas decisões. Um cavaleiro errante aceita um escudeiro. Um príncipe entra em uma batalha onde não deveria. Um golpe acidental muda a linhagem real.

‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ funciona, em parte, como uma resposta àqueles que acusaram ‘Game of Thrones’ de niilismo barato. As mortes na série original pareciam aleatórias para quem não conhecia o contexto maior. Mas vendo o quadro completo, percebemos que Martin estava construindo um sistema causal denso — onde cada tragédia gera a próxima, e a “sorte” é apenas o nome que damos às consequências que não conseguimos rastrear.

A série spinoff, com seu tom mais leve e foco nos “pequenos”, engana. Parece um conto de fadas medieval. Mas é, na verdade, o primeiro dominó de uma queda que dura gerações.

Para quem só assistiu ‘Game of Thrones’: por que isso muda tudo

Se você chegou a ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ esperando uma experiência isolada, sem conexões com a série principal, a morte de Baelor é um lembrete brutal de que nada no universo de Martin é isolado. A franquia funciona como um organismo — cada parte conectada às outras por nervos que levam séculos para serem revelados.

O público que só conhece Daenerys, Jon e Tyrion pode assistir ao episódio 5 e pensar: “triste, mas é só mais um Targaryen morto”. Não é. É o momento em que a história que eles conhecem se tornou inevitável. A morte de Baelor é o ponto onde o universo deixou de ter um futuro diplomático e passou a ter um futuro em chamas.

E há algo poeticamente adequado nisso. A casa que se define pelo lema “Fogo e Sangue” teve sua história moderna definida por um acidente em um torneio. Não foi ambição, não foi traição calculada, não foi magia negra. Foi um erro.

Um único erro.

Às vezes isso é tudo que a história precisa.

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Perguntas Frequentes sobre Baelor Targaryen e ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’

O que é ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?

‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ (A Knight of the Seven Kingdoms) é uma série da HBO baseada nos contos de George R.R. Martin sobre o cavaleiro errante Ser Duncan, o Alto (Dunk) e seu escudeiro Aegon Targaryen (Egg). A história se passa cerca de 90 anos antes dos eventos de ‘Game of Thrones’.

Quem era Baelor Targaryen?

Baelor Targaryen era o príncipe herdeiro do Trono de Ferro, filho mais velho do Rei Daeron II. Conhecido por ser bondoso e justo, era amado pelo povo e considerado um futuro rei promissor. Morreu acidentalmente durante um julgamento dos sete, quando uma maça golpeou sua cabeça.

Como a morte de Baelor causou os eventos de ‘Game of Thrones’?

Com Baelor morto, a linha de sucessão mudou. Egg (Aegon V) tornou-se rei, e sua linhagem levou ao nascimento de Aerys II — o Rei Louco. A tirania de Aerys provocou a rebelião de Robert Baratheon, que por sua vez criou todo o cenário político de ‘Game of Thrones’. Se Baelor tivesse sobrevivido, essa cadeia não existiria.

O julgamento dos sete é uma invenção de George R.R. Martin?

Não completamente. O julgamento dos sete (Trial of the Seven) é inspirado em práticas medievais reais de julgamento por combate, onde campeões lutavam para resolver disputas legais. Martin adaptou o conceito para o universo de Westeros, adicionando a regra de sete campeões de cada lado.

Dunk e Egg aparecem em ‘Game of Thrones’?

Não diretamente. A história de Dunk e Egg se passa quase um século antes. Porém, Egg aparece brevemente em flashbacks na 6ª temporada de ‘Game of Thrones’ durante as visões de Bran Stark no passado de Westeros.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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