‘The Thing with Feathers’: por que o filme de Benedict Cumberbatch foi injustiçado pela crítica

The Thing with Feathers foi avaliado como terror convencional quando é, na verdade, um estudo sobre luto usando o gênero como linguagem. Explicamos por que a ambiguidade do corvo e a performance de Cumberbatch fazem do filme de Dylan Southern uma obra que merece reconsideração.

Existe um tipo de injustiça crítica que me intriga particularmente: quando um filme é punido por não ser o que os revisores esperavam, em vez de ser avaliado pelo que efetivamente propõe. The Thing with Feathers chegou aos cinemas com 46% no Rotten Tomatoes e uma avalanche de comentários sobre sua “falta de direção clara” — o que, vou argumentar aqui, é não apenas um equívoco, mas uma leitura fundamentalmente errada da proposta do filme. Dylan Southern não fez um terror convencional que perdeu o rumo. Ele fez um estudo sobre o luto que usa o terror como linguagem, e há uma diferença crucial entre essas duas coisas.

O problema começa talvez no título. Ao adaptar o romance de Max Porter (“Grief Is the Thing with Feathers”), o filme herda uma premissa que soa como promessa de horror sobrenatural: pai viúvo e dois filhos são assombrados por uma entidade corvo. Se você chega esperando um filme de assombração tradicional — sustos calculados, mitologia bem definida, resolução limpa — vai sair frustrado. Mas e se a “falta de clareza” for exatamente o ponto?

O corvo não é um monstro — é o luto com penas

Ao longo de menos de 100 minutos, acompanhamos um artista de quadrinhos (Benedict Cumberbatch) e seus dois filhos tentando funcionar após a morte da mãe. A entidade que invade a casa — visualmente aterrorizante, com design que mistura pesadelo e fascínio — não está ali para assustar por assustar. Ela é, explicitamente, uma materialização do processo de luto. E aqui está onde a crítica errou coletivamente: o filme não “falha” em definir se o corvo é real ou imaginário. Essa ambiguidade é a gramática do realismo mágico, gênero que vive justamente de borrão entre o tangível e o psicológico.

Reparei, durante a projeção, como a relação do pai com o corvo evolui em estágios que qualquer terapeuta reconheceria: negação, raiva, barganha, depressão, aceitação. O roteiro poderia ter sido mais sutil — há um momento no segundo ato em que o filme se torna excessivamente explícito sobre sua própria metáfora, como se não confiasse na inteligência do público — mas a estrutura está lá, firme. O corvo não é um vilão. Ele é um acompanhante indesejado mas necessário. E quando o filme finalmente permite que você entenda isso, a experiência muda completamente de registro.

Benedict Cumberbatch entrega uma de suas performances mais subestimadas

Cumberbatch chamou o filme de mistura entre “Mary Poppins” e “Clube da Luta” — uma combinação que soa absurda até você ver o resultado e perceber que é precisa. Há o elemento fantástico caprichoso do primeiro e a violência psicológica do segundo, e o ator transita entre esses polos com naturalidade que impressiona.

Seu personagem precisa ser simultaneamente: um pai tentando manter a normalidade para os filhos, um artista processando a perda através do trabalho, um homem à beira do colapso emocional, e alguém negociando com uma entidade sobrenatural. São múltiplos registros que poderiam descambar para o melodrama ou para o exagero. Cumberbatch escolhe o equilíbrio precário — mantém a compostura enquanto deixa transparecer o caos interno. Há cenas em que ele simplesmente desenha enquanto a câmera observa de perto, e a tensão em seus ombros, a maneira como a mão treme levemente, comunicam mais sobre o luto do que qualquer diálogo poderia.

É o tipo de atuação que passa despercebida porque não há “grande momento” Oscar-bait. É um trabalho de precisão, não de exibição. E talvez isso explique parte da recepção fria: em um ano saturado de terror, talvez o público esperasse algo mais visceralmente explícito, não uma meditação sobre perda disfarçada de filme de assombração.

A linguagem visual do caos emocional

A linguagem visual do caos emocional

Se há um elemento que merece mais reconhecimento é a direção de fotografia e o design visual. Southern e sua equipe traduziram o luto em gramática cinematográfica com rigor: sombras claustrofóbicas que parecem engolir os personagens, close-ups perturbadores nos esboços do protagonista que funcionam como transições quase alucinógenas entre cenas, e um uso deliberado de ângulos distorcidos que comunicam desorientação sem nunca parecer gratuito.

O design do corvo merece menção especial. Ele é grotesco sem ser caricato, aterrorizante mas estranhamente fascinante — como o próprio luto, que simultaneamente repelimos e não conseguimos deixar de encarar. A criatura se move de forma errática, ocupando espaços que não deveria, aparecendo em cantos onde ninguém olharia. E aí está outra decisão que confundiu os críticos: o filme não segue as regras clágicas do terror de assombração. O corvo aparece quando quer, como quer, porque o luto não segue regras nem cronologia.

Por que os 46% no Rotten Tomatoes refletem uma leitura equivocada

A crítica recorrente sobre “falta de direção” me parece sintomática de um problema maior na recepção de filmes de gênero: a expectativa de que terror precisa seguir um determinado template estrutural. Quando um filme subverte isso, é acusado de ser “perdido” ou “indeciso”. Mas e quando a desorientação é proposital?

The Thing with Feathers não é um filme sobre um monstro que precisa ser derrotado. É sobre aprender a conviver com algo que nunca vai completamente embora — o que, convenhamos, é uma abordagem mais honesta do luto do que a maioria dos filmes ousa tentar. O final, que não vou estragar, é esperançoso sem ser sentimental. Há uma graça na forma como o filme sugere que o corvo, eventualmente, pode se tornar menos um assombro e mais uma presença familiar. Não é sobre superar. É sobre integrar.

Em 2025, um ano excepcional para o terror — com “Pecadores” quebrando recordes de indicações ao Oscar — talvez tenha sido inevitável que obras mais quietas e introspectivas passassem despercebidas. Mas isso não torna a injustiça menor.

Veredito: um filme que merece reconsideração

Vou ser direto: se você busca um terror convencional com sustos bem cronometrados e uma mitologia clara, The Thing with Feathers vai te frustrar. Mas se você consegue aceitar que horror pode ser veículo para algo mais — uma reflexão sobre perda, sobre como o luto distorce nossa percepção de realidade, sobre a impossibilidade de “resolver” a ausência de alguém — há aqui um filme honesto sobre o que significa carregar o que não pode ser deixado para trás.

A performance de Cumberbatch sozinha já justifica o ingresso. A metáfora central, apesar de ocasionalmente explícita demais, funciona de forma eficaz. E o visual permanece com você depois que a tela escurece — o que, no fim das contas, é mais do que a maioria dos filmes de terror consegue oferecer.

Os 46% no Rotten Tomatoes não refletem a qualidade do filme. Refletem a incapacidade da crítica de avaliar o que o filme propunha, não o que esperavam que propusesse. E há uma diferença fundamental entre essas duas coisas.

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Perguntas Frequentes sobre The Thing with Feathers

Onde assistir The Thing with Feathers?

The Thing with Feathers chegou aos cinemas em 2025. A disponibilidade em streaming varia por região — consulte plataformas como Amazon Prime Video, Apple TV+ ou seu serviço de locação digital preferido para disponibilidade atual.

The Thing with Feathers é baseado em livro?

Sim. O filme adapta o romance “Grief Is the Thing with Feathers” de Max Porter, publicado em 2015. O livro também usa o corvo como metáfora para o processo de luto.

O corvo em The Thing with Feathers é real ou imaginário?

O filme mantém essa ambiguidade propositalmente. O corvo funciona como materialização do luto no estilo do realismo mágico — não há resposta definitiva porque a própria natureza do luto é o tema central.

Quanto tempo dura The Thing with Feathers?

O filme tem menos de 100 minutos de duração. É uma narrativa enxuta que não se alonga desnecessariamente.

Para quem The Thing with Feathers é recomendado?

Para quem aprecia terror atmosférico e está disposto a aceitar que o gênero pode ser veículo para reflexões sobre perda e luto. Não é recomendado para quem busca sustos convencionais ou uma mitologia sobrenatural bem definida.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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