‘Varanasi’: Rajamouli promete épico de mitologia e viagem no tempo

SS Rajamouli reúne Mahesh Babu e Priyanka Chopra em ‘Varanasi’, épico que mistura mitologia indiana e viagem no tempo. Analisamos por que o diretor de ‘RRR’ pode estar preparando seu projeto mais ambicioso — e o que a escolha da cidade sagrada revela sobre a narrativa.

SS Rajamouli não faz filmes pequenos. Depois de ‘Baahubali’ redefinir o que um blockbuster indiano podia ser, e ‘RRR’ conquistar o ocidente com uma energia que Hollywood esqueceu como fazer, o diretor poderia ter descansado nos louros. Em vez disso, escolheu seu projeto mais ambicioso: ‘Varanasi’, um épico que mistura mitologia, viagem no tempo e aventura — uma combinação que, no papel, soa improvável. Mas Rajamouli tem um histórico de transformar o improvável em espetáculo.

O título não é arbitrário. Varanasi é uma das cidades mais antigas do mundo ainda habitadas — com mais de 5.000 anos de ocupação contínua. No hinduísmo, é a cidade de Shiva, o destruidor e transformador, onde fiéis viajam para morrer e terimoksha, a libertação do ciclo de reencarnações. A escolha de nomear o filme após esse local sugere que Rajamouli está operando em terreno espiritual denso — não apenas usando mitologia como pano de fundo, mas como motor narrativo. Se a viagem no tempo está envolvida, a conexão com uma cidade sagrada associada a ciclos de vida e morte faz um sentido perturbador.

Mitologia e viagem no tempo: a aposta que poucos fariam

Mitologia e viagem no tempo: a aposta que poucos fariam

Mahesh Babu descreveu o projeto com uma frase que diz tudo: “ação-aventura, mitologia, viagem no tempo, todas essas coisas”. É uma mistura de gêneros que a maioria dos estúdios rejeitaria como arriscada demais. Rajamouli, entretanto, construiu sua carreira sobre apostas que parecem impossíveis até funcionarem.

Quando ‘Baahubali’ foi anunciado, a ideia de um épico de duas partes com orçamento recorde para padrões indianos parecia temerária. O resultado? Dois dos filmes mais lucrativos da história do cinema indiano. Com ‘RRR’, provou que podia criar uma narrativa de ação politicamente carregada — dois revolucionários indianos unidos contra o Império Britânico — sem perder o entretenimento. ‘Varanasi’ parece ser o próximo degrau: Rajamouli testando os limites do que seu cinema pode abranger.

A presença da viagem no tempo é particularmente intrigante. O cinema indiano raramente explora ficção científica com seriedade — o gênero costuma ser tratado como novidade ou comédia, como em ‘Krrish’ ou ‘Ra.One’. Rajamouli, porém, não é conhecido por fazer as coisas pela metade. Se está incorporando esse elemento, provavelmente o está fazendo com a mesma obsessão detalhista que faz suas sequências de ação funcionarem — cada movimento coreografado, cada impacto calculado.

Por que Mahesh Babu esperou 15 anos pelo filme certo

A união de Rajamouli e Mahesh Babu não é um encontro casual de estrelas. É uma colaboração que demorou uma década e meia para acontecer — e não por falta de interesse. “Estávamos supostamente trabalhando juntos nos últimos 15 anos”, revelou Babu em entrevista. A espera, porém, pode ter sido o melhor cenário possível.

Depois de ‘RRR’, Rajamouli tirou um ano sabático. Nenhuma discussão de projeto, nenhum movimento aparente. Babu admitiu que ficou se perguntando o que acontecia. Então, um ano após o lançamento de ‘RRR’, o diretor chamou o ator para seu escritório e narrou o roteiro de ‘Varanasi’. “Simplesmente explodiu minha mente”, disse Babu.

O detalhe crucial é que aqueles 15 anos de conversas nunca envolveram este projeto específico. ‘Varanasi’ surgiu como algo completamente novo — “diferente de qualquer coisa que SSR tentou antes”, nas palavras do próprio Babu. Isso sugere que Rajamouli não apenas esperou o momento certo, mas desenvolveu especificamente para Babu um veículo que nenhum dos dois havia imaginado antes.

Priyanka Chopra volta à Índia do jeito que faz sentido

Priyanka Chopra volta à Índia do jeito que faz sentido

Para Priyanka Chopra, Varanasi Rajamouli representa mais do que um novo projeto — é um retorno às raízes após uma década em Hollywood. A atriz construiu carreira na América com ‘Quantico’ na televisão e papéis em filmes como ‘Baywatch’ e ‘Matrix Resurrections’. Agora, sua primeira produção indiana em mais de dez anos é, apropriadamente, uma das mais ambiciosas já planejadas.

Chopra não minimizou as diferenças entre as indústrias. “A cultura de fazer filmes é muito diferente em Hollywood versus como trabalhamos na Índia”, observou. “Você precisa pivotar seu cérebro.” A transição não é questão de transportar lições de um lado para o outro — é sobre imersão total em cada contexto.

A declaração mais reveladora veio quando disse: “Se houvesse alguma forma de voltar ao cinema indiano, era esta.” Para uma estrela do calibre de Chopra, o retorno precisava ser significativo — não um projeto menor ou uma participação especial. ‘Varanasi’ oferece exatamente isso: um papel substancial ao lado de gigantes do cinema regional indiano, sob um diretor que se tornou referência global.

O vilão que surpreendeu até Prithviraj Sukumaran

Prithviraj Sukumaran não é apenas um ator premiado — é um especialista em antagonistas memoráveis. O ator de Kerala acumula mais de 100 créditos como ator e diretor, com 31 prêmios que incluem reconhecimento por papéis de vilão. Em ‘Varanasi’, ele interpreta Kumbha, um personagem que descreve como “verdadeiramente um dos mais imprevisíveis que já ouvi”.

A imprevisibilidade não é retórica de marketing. Sukumaran explicou que, mesmo durante a narração inicial do roteiro, ele achava que a história seguia uma direção — até perceber que estava indo para outro lugar completamente. “A imprevisibilidade absoluta do que este homem faz forma múltiplos pontos de virada ao longo da história”, revelou.

Isso é significativo porque Rajamouli constrói seus vilões com camadas. Em ‘Baahubali’, Bhallaladeva não era apenas mau — tinha motivações compreensíveis, ainda que distorcidas, nascidas de inveja e rejeição. Em ‘RRR’, os antagonistas britânicos representavam um sistema opressor, não apenas indivíduos maus. Se Sukumaran — que conhece o gênero por dentro — está genuinamente impressionado com a imprevisibilidade de Kumbha, há razões para acreditar que este antagonista subvertirá expectativas de formas que nem o público acostumado a Rajamouli conseguirá antecipar.

Escala de imaginação, não de orçamento

Escala de imaginação, não de orçamento

Uma observação de Sukumaran merece atenção especial. “As pessoas muitas vezes associam escala com orçamentos e tamanho visual, mas a verdadeira escala é a escala da imaginação”, disse. “E se você acredita nisso, o cinema não pode ser muito maior que isto.”

É uma distinção crucial. Blockbusters indianos, especialmente os de Rajamouli, frequentemente são descritos no ocidente como “grandes” em termos de números — público, duração, coreografias massivas. Sukumaran aponta para algo diferente: a grandeza de ‘Varanasi’ está na ambição conceitual, não apenas nos recursos materiais. Misturar mitologia indiana com viagem no tempo não exige necessariamente o maior orçamento da história — exige a imaginação para fazer esses elementos conversarem de forma coerente.

Para um diretor que já provou que pode filmar sequências de ação com centenas de figurantes e coordenar números musicais com milhares, o desafio de ‘Varanasi’ não é logístico — é narrativo. Como fazer mitologia e ficção científica ocuparem o mesmo universo sem que um desvalorize o outro? Como usar a cidade sagrada de Varanasi sem transformá-la em mero cenário exótico?

O que sabemos (e o que Rajamouli esconde)

Aqui está o que sabemos com certeza: o filme chega em abril de 2027, é protagonizado por três das maiores estrelas do cinema indiano contemporâneo, e mistura gêneros que raramente se encontram. Sabemos também que Rajamouli passou um ano desenvolvendo o projeto após ‘RRR’, e que Mahesh Babu — que se descreve como “o maior fã” do diretor — ficou genuinamente chocado com o resultado.

O que não sabemos é igualmente importante. Como a viagem no tempo se conecta à mitologia? Qual época ou épocas o filme visitará? Como a cidade de Varanasi — com seus ghats onde corpos são cremados às margens do Ganges — funciona dentro dessa narrativa? Rajamouli mantém esses detalhes em segredo, e a postura é compreensível: em um cenário cinematográfico dominado por trailers que revelam terceiros atos, o mistério é uma commodity rara.

Para quem acompanha o cinema indiano, Varanasi Rajamouli representa um momento de convergência raro. O maior diretor de blockbusters do país unido com uma de suas maiores estrelas masculinas, uma de suas maiores estrelas femininas globais, e um dos atores mais respeitados do cinema regional — todos em um projeto que ninguém previu. A expectativa é alta, mas a combinação de talentos sugere que a entrega pode estar à altura.

Se ‘Baahubali’ provou que o cinema indiano podia competir com Hollywood em escala, e ‘RRR’ mostrou que podia superar em energia pura, ‘Varanasi’ parece posicionado para testar outro limite: o da imaginação narrativa. Mitologia e viagem no tempo não deveriam funcionar juntos — mas Rajamouli nunca se importou muito com o que deveria funcionar.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Varanasi’

Quando estreia ‘Varanasi’ de SS Rajamouli?

‘Varanasi’ tem estreia prevista para abril de 2027. O filme ainda está em produção e não há data específica divulgada.

Quem está no elenco de ‘Varanasi’?

O elenco principal reúne Mahesh Babu (protagonista), Priyanka Chopra (primeiro filme indiano em mais de 10 anos) e Prithviraj Sukumaran como o vilão Kumbha. É um dos reuniões de talentos mais expressivas do cinema indiano recente.

‘Varanasi’ é sequência ou continuação de algum filme?

Não. ‘Varanasi’ é um filme original, não relacionado a ‘Baahubali’ ou ‘RRR’. Mahesh Babu afirmou que é “diferente de qualquer coisa que Rajamouli tentou antes”.

Por que o filme se chama ‘Varanasi’?

Varanasi é uma das cidades mais sagradas do hinduísmo, associada a Shiva e à libertação do ciclo de reencarnações. A escolha sugere conexão profunda com temas de mitologia e, possivelmente, com a mecânica de viagem no tempo do enredo.

Onde assistir os filmes anteriores de SS Rajamouli?

‘RRR’ está disponível na Netflix. ‘Baahubali: The Beginning’ e ‘Baahubali 2: The Conclusion’ estão na Netflix e Amazon Prime Video, dependendo da região. ‘Eega’ (2012) pode ser encontrado no YouTube com legendas.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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