‘O Morro dos Ventos Uivantes’: museu de Emily Brontë aprova adaptação controversa de Emerald Fennell

O Brontë Parsonage Museum e a biógrafa Claire O’Callaghan reagiram melhor do que a internet à adaptação de Emerald Fennell. Entenda o que esse “sinal verde” diz sobre o ‘O Morro dos Ventos Uivantes filme’ — e por que fidelidade pode ser a pergunta errada.

Existe uma ironia deliciosa na reação à nova adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’: quem você esperaria ver gritando “sacrilégio” está, em muitos casos, aplaudindo. O Brontë Parsonage Museum — a casa em Haworth onde Emily Brontë escreveu o romance e onde morreu aos 30 anos — foi convidado para uma sessão especial do filme de Emerald Fennell. Eles saíram menos indignados do que curiosamente animados. Enquanto isso, parte da internet já tinha decretado o fim da civilização por causa da escalação de Heathcliff.

A diretora do museu, Rebecca Yorke, foi diplomática ao The Guardian, mas deixou um ponto cristalino: “Não participamos da produção do filme de forma alguma”. Ou seja: a equipe que cuida do legado institucional de Brontë não foi consultada. Ainda assim, Fennell havia passado pelo festival de escrita das mulheres Brontë em setembro e falou “eloquentemente” sobre o romance — um contato que ajuda a explicar por que os profissionais que vivem cercados por manuscritos, cartas e debates acadêmicos parecem mais dispostos a ver nuance do que os timelines que discutem o livro por tabela.

O museu não consultou — e mesmo assim aprovou: o que isso revela

O museu não consultou — e mesmo assim aprovou: o que isso revela

O dado mais revelador não é “o museu gostou” como selo de qualidade. É o museu ter gostado apesar de não ter sido parte do processo. Isso desmonta a narrativa fácil de que qualquer instituição ligada a um clássico vai exigir reverência, fidelidade e “respeito” no sentido mais engessado da palavra.

E, no caso específico de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, a ideia de reverência sempre foi um pouco estranha. O romance nunca foi uma peça de porcelana: é brutal, febril, moralmente desconfortável. Quando alguém da equipe do museu descreve a experiência como “fever dream”, não está necessariamente elogiando um capricho moderno — está, sem querer, se aproximando de como o livro soa quando você realmente o lê, sem a camada de verniz “drama de época” que muitas versões impõem.

“Fiel?” Não. “Para puristas?” Não. E essa é a parte adulta da conversa

Sue, do setor educacional do museu, resumiu o ponto com a clareza que falta em debates online: “Alguns podem não gostar das mudanças, mas é um filme emocionante por mérito próprio.” Diane, responsável por outreach, foi ainda mais franca: “É fiel? Não. É para puristas? Não. É uma interpretação divertida do romance? Sim!”

A discussão sobre adaptações costuma travar numa palavra que não garante nada: fidelidade. Uma adaptação pode ser fiel e morta — uma ilustração cara, com figurino impecável e alma ausente. E pode ser radical e, ainda assim, acertar o nervo do material original. Ruth, coordenadora de experiência do visitante, disse que o filme preserva “verdades essenciais sobre o livro e a relação entre Heathcliff e Cathy”. Essa distinção — verdade emocional versus reconstituição literal — é o centro da defesa dos funcionários do museu: a obra pode mudar o caminho e ainda chegar ao mesmo abismo.

O que a biógrafa de Emily Brontë viu que o debate de rede social não alcança

O que a biógrafa de Emily Brontë viu que o debate de rede social não alcança

A Dr. Claire O’Callaghan, autora da biografia mais recente de Emily Brontë, assistiu à primeira exibição pública em Leeds e chamou o filme de “realmente refrescante”. O motivo importa: “Não há tentativa de fidelidade ao original. Se fosse mais um drama de época, as pessoas poderiam ficar mais chateadas. Mas isso é tão distante disso, e tão exagerado, que funciona.”

O’Callaghan também elogiou as “atuações brilhantes” e destacou que existe “muita diversão construída nisso, além da intensidade e tragédia”. O subtexto é valioso: ela não está dizendo que mudanças “não importam”; está dizendo que o filme assume sua distância como linguagem. Quando uma adaptação para de pedir licença o tempo todo, ela pode finalmente fazer o que cinema faz melhor: recortar, condensar, intensificar, deslocar o foco — e criar sentido pela forma, não pela obrigação.

O debate sobre Heathcliff: válido, mas mais complexo do que o tribunal da internet

O elefante na sala continua sendo a escalação de Jacob Elordi como Heathcliff. No romance, Heathcliff é descrito como “moreno” e frequentemente lido como alguém marcado pela alteridade (muitas interpretações o associam a origem cigana e/ou a uma racialização que o torna alvo de violência social). Isso não é detalhe cosmético: a posição de estrangeiro — social e corporal — atravessa o modo como ele é humilhado, desejado e, depois, como ele devolve o mundo em forma de crueldade.

Então, sim: é uma crítica legítima perguntar o que se perde quando essa camada muda. O que torna esta notícia interessante é outra coisa: quem mais conhece o livro não está reagindo com boicote automático. Talvez porque entenda que adaptações são séries de escolhas (e que uma escolha discutível não apaga todas as outras). Talvez porque reconheça que o romance deixa lacunas deliberadas sobre origem, e que diferentes leituras já coexistem há décadas — a diferença agora é a velocidade com que a indignação vira identidade pública.

Isso não transforma a decisão em “certa”, nem encerra o debate. Só desloca o debate do moralismo instantâneo para uma pergunta melhor: o que a adaptação ganha ao abandonar certos códigos — e o que ela inevitavelmente sacrifica ao fazer isso?

Críticos divididos: quando a divisão é sintoma de personalidade, não de bagunça

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Nem tudo é elogio. O filme aparece com 66% no Rotten Tomatoes — e, para um projeto que se vende como interpretação, a divisão é quase esperada. Gregory Nussen, do ScreenRant, deu 4 de 10 e criticou que, “apesar de alguns momentos de beleza física maravilhosa — ou, talvez, por causa deles — ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ é sem sabor, superficial e estranhamente contido.”

Essa linha aponta para um risco real do cinema de Emerald Fennell: o controle estético pode virar uma redoma. Beleza visual não garante profundidade emocional — e um romance como o de Brontë exige sujeira, desconforto, aspereza. A química entre Margot Robbie e Jacob Elordi também é um ponto de fratura: alguns enxergam faísca, outros veem duas estrelas muito conscientes do próprio magnetismo, operando em registros diferentes.

Mas há um lado produtivo nessa divergência: quando um filme divide, ele cria vocabulário. Você não discute “superficial” versus “fiel à essência” por um produto neutro. E, para uma obra que sempre foi mais perturbadora do que “romântica”, talvez a pior coisa fosse uma adaptação que ninguém sentisse necessidade de argumentar sobre.

O que essa reação diz sobre adaptação — e por que ela pode servir ao livro (não substituí-lo)

Os funcionários do museu expressaram esperança de que o filme leve novas pessoas ao romance. Essa é a melhor função cultural de uma adaptação: ser porta de entrada, não versão definitiva. Quando Fennell corta personagens e comprime o material para focar no núcleo Cathy–Heathcliff, ela faz uma escolha que puristas podem odiar — mas que faz sentido dentro da gramática do cinema, que precisa de eixo, ritmo e unidade dramática.

Ao ScreenRant, Fennell justificou o recorte com franqueza: “Cathy e Heathcliff, acho que aqueles de nós que amam o livro sentem que isso é o que importa.” É simplificação? Sim. É automaticamente traição? Não necessariamente — e o fato de parte dos guardiões “oficiais” do legado de Brontë enxergar valor nisso é o detalhe que torna esta história mais do que fofoca de casting.

Em resumo: a reação do Brontë Parsonage Museum e de uma biógrafa de Emily Brontë não “absolve” a adaptação — mas revela um contraste útil. Quem vive o texto por dentro parece menos interessado em policiamento e mais em pergunta concreta: o filme tem vida própria e, ainda assim, acerta o nervo do livro?

‘O Morro dos Ventos Uivantes’ está em cartaz nos cinemas. Se você vai esperando fidelidade, a frustração é provável. Se vai disposto a ver Emerald Fennell tratar o clássico como matéria-prima — não como altar — há chance de sair surpreendido, como saíram alguns dos leitores mais próximos de Emily Brontë.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ (filme)

O Brontë Parsonage Museum participou da produção do novo ‘O Morro dos Ventos Uivantes’?

Não. A diretora Rebecca Yorke afirmou ao The Guardian que o museu não participou da produção do filme, apesar de ter sido convidado para uma sessão especial.

O novo ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ é fiel ao livro de Emily Brontë?

Não no sentido tradicional. Segundo funcionários do museu e a biógrafa Claire O’Callaghan, a adaptação assume uma abordagem mais livre e “exagerada”, buscando capturar a essência emocional em vez de reproduzir eventos e estrutura do romance.

Por que a escalação de Heathcliff gerou controvérsia?

Porque Heathcliff é frequentemente interpretado como um personagem marcado pela alteridade racial/social no romance, e a escolha de um ator branco reacendeu o debate sobre o que essa camada significa para a história. O livro não define de forma explícita a origem do personagem, o que abre espaço para leituras — mas não elimina a discussão.

Quem é Claire O’Callaghan e por que a opinião dela importa?

Claire O’Callaghan é a autora de uma das biografias mais recentes de Emily Brontë. Ela assistiu a uma exibição pública em Leeds e descreveu o filme como “refrescante”, justamente por não tentar ser mais um drama de época “definitivo”.

Vale a pena ver o ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ filme se eu amo o livro?

Vale mais se você aceitar uma interpretação livre do material. Se sua prioridade é fidelidade de trama e tom de drama de época, a chance de frustração é maior; se você quer ver uma leitura autoral (e discutir o que ela ganha e perde), o filme tende a ser uma experiência mais interessante.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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