‘The Testaments’ pode ser o sucessor espiritual de ‘Silo’: duas distopias onde burocracia, controle de informação e hierarquias fechadas esmagam o indivíduo. Nesta análise, mostramos onde o DNA de The Testaments Silo realmente se encontra — e por que a resistência feminina é o elo central.
Há um tipo específico de ansiedade que certas séries distópicas conseguem provocar: a sensação de que as paredes estão se fechando, literal e metaforicamente. ‘Silo’ dominou essa arte em suas duas temporadas, misturando claustrofobia física com opressão burocrática. Mas com a terceira temporada ainda sem data confirmada, surge uma pergunta prática: o que assistir quando a sua distopia favorita entra em hiato? A resposta pode estar chegando em 8 de abril de 2026. E não: não é só “mais uma distopia”. ‘The Testaments’ pode funcionar como sucessor espiritual de ‘Silo’ porque as duas séries falam da mesma coisa — como sistemas fechados transformam regras em destino — e colocam mulheres no centro do gesto mais perigoso de todos: perguntar “por quê”.
A comparação parece estranha num resumo de uma linha: uma série se passa num bunker subterrâneo pós-apocalíptico; a outra, numa teocracia totalitária que reorganiza o mundo pela religião e pela violência de Estado. Só que o parentesco não está na estética, e sim na mecânica do poder. Em ambas, a ordem se sustenta por três pilares: controle de informação, rituais burocráticos que normalizam a submissão e uma hierarquia que se vende como “proteção” — até o instante em que alguém percebe que proteção, ali, é só outro nome para cárcere.
O que ‘Silo’ faz melhor: transformar rotina em instrumento de medo
O truque mais afiado de ‘Silo’ é fazer a opressão parecer um procedimento. O terror não nasce de um monstro no corredor, mas do jeito como o sistema fala — e do jeito como as pessoas repetem. Regulamentos, departamentos, auditorias: tudo tem uma cara de “normalidade” que anestesia. Juliette Nichols não vira ameaça porque é a escolhida de uma profecia; vira ameaça porque insiste em ver o desenho completo quando o silo foi construído para que todo mundo enxergue só o seu pedacinho.
É aí que a série encontra sua claustrofobia mais eficiente: não é só o espaço físico fechado, é a linguagem fechada. A burocracia funciona como cerca elétrica. E Bernard Holland, como peça dramática, é exatamente o tipo de antagonista que faz a distopia doer: ele não precisa se imaginar mau; basta se imaginar necessário. A mentira vira “gestão de crise”, a violência vira “manutenção da ordem”, e o público sente o arrepio por reconhecer esse mecanismo fora da ficção.
Em termos de construção audiovisual, ‘Silo’ também usa o espaço como argumento: escadas intermináveis, níveis que viram castas, a sensação constante de que subir e descer é atravessar fronteiras sociais. A série não precisa explicar o tempo todo que aquilo é um sistema de classes — ela te faz caminhar nele.
Por que ‘The Testaments’ conversa com ‘Silo’ (mesmo sem bunker nenhum)
‘The Testaments’ chega com um peso que quase nenhuma continuação tem: é a adaptação do romance de 2019 de Margaret Atwood, continuação direta de ‘O Conto da Aia’. E o ponto-chave aqui não é “marca forte”, é material de origem com ambição literária — um livro que trabalha o poder por dentro, com foco em instituições e nos pactos que as mantêm de pé.
Se ‘Silo’ é a série sobre a origem de um confinamento, ‘The Testaments’ é a série sobre a manutenção de um confinamento. A promessa dramática mais interessante não é apenas “voltar a Gilead”, e sim observar Gilead como máquina: como a teocracia se administra, como ela se protege, como ela se adapta quando começa a ranger. Isso é o que aproxima as duas obras: arqueologia institucional. Ambas partem da ideia de que regimes não aparecem do nada; eles são construídos em camadas, com justificativas pequenas o bastante para soar razoáveis — até virar tarde demais.
Ann Dowd retorna como Tia Lydia, e é difícil não pensar em Bernard quando a personagem entra em cena: figuras que operam dentro do sistema, dominam suas engrenagens e guardam informações demais para serem apenas “funcionários”. A diferença dramática é que Lydia carrega um tipo de contradição que ‘Silo’ só começa a sugerir nos seus administradores: fé, cálculo, autopreservação e — possivelmente — culpa. Dowd é a atriz que faz um silêncio parecer um dossiê.
O elo mais forte: resistência feminina como estratégia, não como slogan
‘Silo’ acerta ao tratar sua resistência como rede e não como espetáculo. As Flamekeepers existem para guardar memória: a verdade como contrabando, o passado como munição. A morte de George Wilkins cedo na narrativa não desloca o motor da série; ela realinha o foco em Juliette e em como uma mulher vira risco sistêmico não pela força, mas pela persistência.
‘The Testaments’ opera numa frequência parecida com a Mayday, só que com um agravante: em Gilead, o corpo feminino não é apenas controlado — ele é administrado. Por isso, a dissidência também precisa ser administrada: códigos, identidades trocadas, mensagens em camadas, alianças improváveis. O parentesco com as Flamekeepers não é decorativo; é estrutural. Em ambos os mundos, resistir começa por recuperar o que te foi roubado: informação, linguagem, história.
E aqui há uma diferença importante que pode agradar (ou afastar) fãs de ‘Silo’: Gilead é uma distopia mais íntima, mais corporal. O horror não é “o que existe lá fora”, é o que o Estado faz aqui dentro. Se o silo sufoca pela arquitetura, Gilead sufoca pela doutrina.
Material de origem: prêmio literário ajuda mesmo ou é só selo na capa?
Hugh Howey construiu o universo de ‘Silo’ de baixo para cima: começou com o conto ‘Wool’ e virou trilogia, com leitores crescendo organicamente antes da adaptação. Isso importa porque explica a força do conceito: o mundo já funcionava no papel, e a série soube preservar o núcleo temático mesmo ajustando engrenagens de trama.
Já ‘The Testaments’ tem outra vantagem — e outro risco. A vantagem é Atwood escrevendo com o mundo real no retrovisor: a continuação nasce como comentário político direto. O risco é a adaptação cair na tentação de “ampliar franquia” em vez de ampliar ideias. O nome que reduz esse risco é Bruce Miller, novamente como showrunner: ele já provou em ‘O Conto da Aia’ que consegue transformar a prosa de Atwood em linguagem televisiva sem trocar fúria por conforto.
Também vale notar o que a produção parece sinalizar: apostar em elenco e performance, não só em ambientação. Se ‘Silo’ prende pelo desenho do espaço e pelo suspense de revelação, ‘The Testaments’ tende a prender pelo atrito moral — personagens que sobrevivem negociando com o próprio horror.
Veredito: para quem ‘The Testaments’ pode preencher o vazio de ‘Silo’
Se o que você ama em ‘Silo’ é o quebra-cabeça do mundo e o mistério do lado de fora, ‘The Testaments’ não é substituto direto — e nem tenta ser. Mas se o que te fisgou foi a sensação de estar preso num sistema que se justifica com carimbos, regras e “é pelo seu bem”, aí sim: o encaixe é imediato. As duas séries entendem que a distopia mais perturbadora não é a que inventa monstros; é a que reconhece os monstros que já moram nas instituições.
Para fãs de ‘Silo’ cansados do hiato, 8 de abril de 2026 é uma data promissora. Para quem teme uma continuação desnecessária de um clássico, há um argumento simples: Atwood raramente escreve por inércia. Se a série honrar essa intencionalidade — e não apenas a iconografia — ‘The Testaments’ tem tudo para ser a distopia “burocrática” que falta na sua fila, só que com a violência de Gilead exposta no primeiro plano.
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Perguntas Frequentes sobre ‘The Testaments’
Quando estreia ‘The Testaments’?
A estreia foi anunciada para 8 de abril de 2026.
‘The Testaments’ é continuação de ‘O Conto da Aia’?
Sim. ‘The Testaments’ continua o universo de Gilead e adapta o romance de 2019 de Margaret Atwood, pensado como continuação direta de ‘O Conto da Aia’.
Preciso assistir ‘O Conto da Aia’ antes de ver ‘The Testaments’?
É altamente recomendado. A nova série deve funcionar por conta própria em alguns arcos, mas entender Gilead, Mayday e a trajetória de Tia Lydia tende a aumentar muito o impacto.
‘The Testaments’ é baseada em livro?
Sim. A série adapta o livro ‘The Testaments’ (2019), de Margaret Atwood, continuação literária de ‘The Handmaid’s Tale’ (1985).
Onde assistir ‘The Testaments’ no Brasil?
Até o momento, a distribuição/streaming no Brasil pode variar por acordo local. Se a série mantiver o padrão de ‘O Conto da Aia’, é comum que chegue via um serviço parceiro da Hulu; confirme perto da estreia no catálogo oficial da plataforma disponível no país.

