‘Spider-Noir’ resgata Molten Man das ilusões vazias de ‘Longe de Casa’

Molten Man em ‘Spider-Noir’ pode ser a correção mais inteligente de ‘Longe de Casa’: tirar Mark Raxton do CGI genérico e devolvê-lo ao noir, onde tragédia e moral ambígua têm peso. Entenda por que essa adaptação pode transformar um “efeito” em personagem.

Existe um tipo de erro que o MCU cometeu tantas vezes que virou vício: pegar personagens com décadas de quadrinhos nas costas e reduzi-los a “função de roteiro”. Molten Man em ‘Spider-Noir’ pode ser a rara correção de rota — e, pelo que o material promocional sugere, a série da Prime Video entendeu exatamente onde ‘Homem-Aranha: Longe de Casa’ trocou personagem por espetáculo.

Mark Raxton nunca foi um “chefão final” na galeria do Homem-Aranha. Mas isso não dá passe livre para transformá-lo num efeito digital descartável, um monstro sem identidade que, no fim, nem existia. Sim: era Mysterio fabricando ilusões. O twist funciona para a história de Peter Parker. Só que há um custo: o filme sequestra o nome e a iconografia do Molten Man para vender uma ameaça genérica — e deixa o Raxton real, com suas contradições e sua carga humana, do lado de fora.

O que ‘Longe de Casa’ fez com o Molten Man — e por que isso esvazia o personagem

O que 'Longe de Casa' fez com o Molten Man — e por que isso esvazia o personagem

Todo mundo lembra da sequência dos “Elementais”: água, terra, fogo e vento como boss fights em escala de desastre. O “de fogo” é uma citação visual ao Molten Man dos quadrinhos — pele metálica incandescente, calor, massa derretida. Mas é só isso: uma referência de superfície. Não há nome, passado, escolhas, culpa, desejo. Há uma forma, um brilho, um barulho.

O resultado é que muita gente passou a associar Molten Man a “aquele monstro de fogo que era fake”. Ele vira um pacote de efeitos com prazo de validade: impressiona por alguns minutos e some, sem deixar rastro emocional. E isso é especialmente frustrante porque o personagem, quando bem usado, não é sobre “poder de derreter” — é sobre o que acontece quando um corpo vira sentença.

Nos quadrinhos, Raxton é irmão de Liz Allan, um dos nomes mais antigos e afetivos do círculo de Peter Parker. Essa conexão muda o eixo do conflito: não é apenas “Homem-Aranha vs. vilão da semana”, mas um choque que encosta na vida civil de Peter, na culpa e no senso de responsabilidade que a mitologia do Aranha sempre soube explorar melhor do que explosões.

Quem é Mark Raxton nos quadrinhos: a maldição por baixo do metal

A origem do Molten Man é Marvel em estado clássico: um acidente ligado a pesquisa industrial (um metal/ligação experimental) que reescreve o corpo do sujeito. A consequência não é só ganhar um “power set”, mas perder uma vida normal. Raxton passa a ser alguém que chama atenção demais, assusta demais, queima demais — e, portanto, é empurrado para fora das relações comuns.

O interesse dramático está na oscilação: em várias histórias, ele não é um sádico com plano de dominação, e sim um homem tentando negociar com a própria ruína. Quando o personagem funciona, funciona porque existe uma corda esticada entre duas forças: a sobrevivência (que pode virar crime) e a âncora moral (muitas vezes, a família). A presença de Liz Allan costuma operar como lembrança constante de que ainda existe alguém capaz de enxergar o “Mark” dentro do “Molten”.

É exatamente esse tipo de conflito — íntimo, incômodo, às vezes vergonhoso — que a estética noir sabe elevar. Noir não é sobre vilões “maiores que a vida”; é sobre gente quebrada fazendo escolhas ruins em ambientes que parecem não oferecer escolhas boas.

Por que ‘Spider-Noir’ é o lugar certo para o Molten Man finalmente virar gente

Por que 'Spider-Noir' é o lugar certo para o Molten Man finalmente virar gente

O detalhe mais promissor do que vimos de ‘Spider-Noir’ não é “um cara em chamas” como promessa de ação. É a escala: não parece um kaiju de fogo. Parece um homem queimando por dentro e por fora. Essa diferença muda tudo, porque sugere que a série quer filmar Raxton como personagem — com rosto, postura, dor, intenção — e não como obstáculo de terceiro ato.

Também ajuda o contexto. Por ser um universo alternativo com pegada de anos 1930, a série não carrega as amarras mais engessadas do MCU: não precisa justificar cada vilão como peça de tabuleiro de uma fase futura, nem inflar antagonistas até o nível “ameaça global” para parecer importante. Em noir, a tragédia costuma ser localizada — e por isso mesmo mais cruel.

Raxton encaixa como uma luva: um sujeito marcado por um acidente, rejeitado socialmente, vivendo de bicos, chantagens ou serviços sujos, talvez tentando comprar uma cura que não existe. Os poderes viram maldição prática: ele não só pode ferir os outros; ele pode ferir a si mesmo, perder controle, deixar rastros. Se a série tratar isso com seriedade — e não como skin brilhante — o Molten Man ganha, enfim, tridimensionalidade.

Quando o MCU prefere o espetáculo às pessoas (e por que isso irrita tanto)

O incômodo com Molten Man em ‘Longe de Casa’ não nasce do purismo “quadrinhos vs. cinema”. Nasce do padrão. O MCU, por escolha e por necessidade de linha de produção, frequentemente usa vilões secundários como acessórios: entram, apanham, saem. O problema não é simplificar — é esvaziar. Quando não há vida interna, nem consequência, o antagonista vira ruído.

O caso de ‘Longe de Casa’ é extremo porque nem existe vilão ali: existe uma encenação. Uma mentira dentro da mentira. E isso é irônico: o filme quer falar de ilusão, mas acaba praticando a mesma lógica na adaptação — usa um nome conhecido para vender “ameaça”, sem entregar a pessoa que dá sentido ao nome.

‘Spider-Noir’ parece posicionar o jogo em outro campo. Com Nicholas Cage como um Homem-Aranha mais velho, mais cansado, num mundo de sombras e moral ambígua, um Molten Man trágico faz mais sentido do que qualquer Elemental genérico. Se a série cumprir a promessa, o ganho não é só “fidelidade”: é dramaturgia. É lembrar que, no universo do Aranha, o que dói não é o raio de energia — é a parte humana que sobra depois do impacto.

Se ‘Spider-Noir’ realmente resgatar Mark Raxton das ilusões vazias de ‘Longe de Casa’, não será apenas um acerto pontual. Será uma resposta direta ao vício mais cansativo das adaptações industriais: achar que personagem é skin e que emoção nasce do render.

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Perguntas Frequentes sobre Molten Man em ‘Spider-Noir’

Molten Man em ‘Spider-Noir’ é o mesmo personagem de ‘Homem-Aranha: Longe de Casa’?

Não exatamente. Em ‘Longe de Casa’, o “Molten Man” aparece como uma ilusão (um Elemental) criada por Mysterio; em ‘Spider-Noir’, a expectativa é ver Mark Raxton como personagem real, com identidade e motivação.

Quem é Mark Raxton (Molten Man) nos quadrinhos do Homem-Aranha?

Mark Raxton é um vilão ligado ao núcleo civil do Aranha e, em versões clássicas, irmão de Liz Allan. Ele ganha um corpo metálico e poderes de calor após um acidente, e costuma ser retratado como figura trágica que oscila entre crime e tentativa de redenção.

Preciso ter visto ‘Longe de Casa’ para entender Molten Man em ‘Spider-Noir’?

Provavelmente não. ‘Spider-Noir’ se passa em um universo alternativo com outra estética e outra continuidade, então o personagem deve ser apresentado do zero (ainda que existam referências para fãs do MCU e dos quadrinhos).

‘Spider-Noir’ faz parte do MCU oficial?

Até o momento, a proposta divulgada é de uma história em universo alternativo (fora da linha principal do MCU), o que dá mais liberdade para reinventar personagens como o Molten Man sem se prender à continuidade dos filmes.

Por que o tom noir combina com o Molten Man?

Porque o noir tende a tratar antagonistas como pessoas quebradas por acidente, culpa e circunstância — não como “monstros de CGI”. Molten Man funciona melhor quando o foco está na tragédia do corpo transformado e nas escolhas morais que isso provoca.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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