Cross Prime Video não copia ‘Bosch’: ela herda o mesmo ritmo paciente de investigação e troca o procedimento burocrático por leitura psicológica. Nesta análise, explicamos por que a temporada 2 é o substituto mais convincente para quem ficou órfão do detetive de Titus Welliver.
Quando ‘Bosch: O Legado’ encerrou em 2025, deixou um buraco enorme no catálogo da Prime Video — e na rotina de quem, como eu, consumia aquele universo obsessivamente. Sete temporadas de Harry Bosch mais o spin-off criaram uma relação de quase dependência: aquela mistura de procedimento policial meticuloso com drama pessoal denso não é fácil de substituir. Cross Prime Video chegou discretamente em novembro de 2024 e, agora com a segunda temporada em exibição, dá para dizer sem exagero: é o substituto mais próximo que a plataforma ofereceu desde então. Mas não por copiar ‘Bosch’ — e sim por entender o mesmo tipo de prazer que a série entregava.
O ponto de partida é que Alex Cross e Harry Bosch são detetives quase opostos. Bosch (Titus Welliver) sempre foi o homem do procedimento: a fé dele está no arquivo, na cadeia de custódia, no “tijolo por tijolo” de uma investigação. Cross (Aldis Hodge) entra por outra porta: ele é psicólogo forense, treinado para farejar padrões de comportamento antes de fechar uma prova material. Essa diferença, que poderia afastar as duas séries, é justamente o que permite que ‘Cross’ seja herdeira espiritual sem virar cópia carbono.
O que ‘Cross’ pega de ‘Bosch’ (e o que muda) para funcionar
O DNA compartilhado está menos no “tipo de caso” e mais no ritmo. ‘Cross’ aposta numa investigação em espiral: cada pista abre novas frentes, e o roteiro evita a pressa de encerrar tudo em um episódio só. A temporada 2 (pelo menos nos episódios iniciais) reforça esse desenho: há continuidade real, consequências acumuladas e a sensação de que o trabalho de detetive é feito de insistência, não de epifanias.
Onde a série se distancia de ‘Bosch’ é no motor da tensão. Em ‘Bosch’, a fricção vinha do atrito institucional (política interna, hierarquia, corrupção, imprensa) e do peso moral do protagonista. Em ‘Cross’, a tensão é mais íntima e imediata: a série gosta de colocar o protagonista frente a frente com pessoas — suspeitos, vítimas, familiares — e testar o quanto ele consegue ler uma sala antes que a sala exploda. É um thriller que tenta fazer do interrogatório e do “olhar clínico” um equivalente dramático ao “seguir procedimento”.
Aldis Hodge segura a série quando ela aposta em silêncio e confronto
Protagonizar um policial desse tipo exige um carisma específico: o de sustentar tensão quando a cena não tem tiroteio nem perseguição, só subtexto. Aldis Hodge tem isso. Ele interpreta Cross como alguém que presta atenção demais — e essa atenção vira tanto ferramenta quanto maldição. A temporada 2 dá mais espaço para as contradições do personagem (profissionalmente brilhante, pessoalmente esgotado), e a série é mais inteligente quando confia nesses momentos de observação do que quando tenta acelerar a trama no automático.
O lado doméstico — Cross viúvo, criando filhos em Washington D.C. — também é tratado como parte do suspense, não como intervalo entre crimes. É o mesmo acerto estrutural de ‘Bosch’: a vida pessoal não “humaniza” só por humanizar; ela cria pontos fracos, pressões e decisões ruins. Em termos de construção de longo prazo, é aí que a série compra a promessa de durar mais de uma temporada.
James Patterson na TV: o formato que as versões de cinema nunca tiveram
Os livros de James Patterson sobre Alex Cross sempre pediram fôlego seriado, e não compressão em duas horas. ‘O Coletor’ (1997), com Morgan Freeman, funciona como thriller isolado, mas não dá conta do que torna Cross um personagem recorrente: desgaste, repetição de trauma, vícios de método, relações que mudam conforme os casos. Na TV, isso finalmente encontra um encaixe natural.
A própria estratégia de lançamento da Prime Video (abrir com três episódios e seguir em semanas) também ajuda o tipo de suspense que ‘Cross’ quer construir: existe material para maratonar, mas a história ganha conversa, teoria e antecipação — o mesmo “meio-termo” que sustentou ‘Bosch’ por anos como série de catálogo com vida longa.
Veredito: ‘Cross’ é mesmo o substituto de ‘Bosch’?
Se você amava ‘Bosch’ pela meticulosidade do procedimento — aquele prazer quase físico de ver um detetive trabalhar a cena do crime como um cirurgião — ‘Cross’ oferece uma variação do mesmo vício: aqui, o procedimento é também psicológico. Cross lê pessoas, não só evidências. E quando a série equilibra as duas coisas (mente + método), ela entrega exatamente o que falta na maioria dos policiais de streaming: investigação com consequências, não só reviravolta.
Para quem nunca viu ‘Bosch’, ‘Cross’ funciona como porta de entrada autossuficiente. Para quem ficou órfão de Harry Bosch, a recomendação é simples: vale começar — sabendo que o prazer é parecido, mas o detetive é outro. Se a Prime Video queria preencher aquele buraco com algo da mesma família, é aqui que ela chegou mais perto.
E um ajuste final: a plataforma demorou para encontrar esse substituto. Agora que encontrou, só resta torcer para que a série consiga sustentar a mesma consistência temporada a temporada. Pelo que a segunda temporada indica no começo, o caminho está pavimentado.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Cross’ na Prime Video
‘Cross’ está em qual streaming no Brasil?
‘Cross’ está disponível na Prime Video, incluída no catálogo do Amazon Prime. A disponibilidade pode variar por país, mas no Brasil a série é tratada como título da plataforma.
Preciso assistir ‘Bosch’ para entender ‘Cross’?
Não. ‘Cross’ não se passa no universo de ‘Bosch’ e tem história própria. A comparação é de “DNA” (tom e construção de investigação), não de continuidade narrativa.
‘Cross’ é baseada em livros?
Sim. A série adapta personagens e elementos dos romances de Alex Cross, de James Patterson. A TV tem mais espaço para desenvolver o protagonista ao longo de casos e temporadas do que os filmes conseguiram.
‘Cross’ é procedural (caso por episódio) ou tem história contínua?
É mais serializada do que procedural: os casos e os arcos pessoais carregam consequências de um episódio para o outro. Mesmo quando há “caso da semana”, ele costuma servir a uma trama maior.
Se eu gostei de ‘Bosch’, vou gostar de ‘Cross’?
Provavelmente, se o que te prendia era a investigação paciente, o clima urbano e o peso de longo prazo dos casos. A principal diferença é o método do protagonista: em ‘Cross’, a leitura psicológica tem tanto peso quanto o trabalho de evidências.

